Eus…

.

pensamentos. pastel

O eu do poema
nem sempre
é o eu do poeta.
O eu do poeta,
enquanto poeta,
nunca foi seu…
O eu do poema
alimenta-se
enquanto nutre outros eus, -
é muito mais do que um único eu…
É um eu tão profundo
que não tem fundo,
não tem pouso,
nem repouso…
É um eu em pessoas, -
as primeiras,
as segundas,
as terceiras…
É um eu em queda livre,
um eu em abandono,
que não se reconhece
em um único dono…
O eu do poema
não é pastor,
é rebanho, -
é o eu de um mundo,
onde ainda há lugar
para o eu
(que não é só) do poeta
e seus poemas
de infinitos eus…
tão singularmente
divididos.

Cabe ao poeta
o improvável teorema
de um eu
que nunca lhe pertenceu…
Resta ao poeta
assinar o poema que escreveu, -
para que não se perca
de si mesmo…
do eu
que tantas vezes
pensa ser o seu…

ju rigoni (1999)

Imagem: “Pensamentos” – Pastel Seco - Tatiana Pailos

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Anatomia de uma saudade…

.

Amores possíveis

Eu não era apenas eu…
Conhecê-lo revelou-me outras tantas…
Multipliquei-me
para além do improvável,
e em meio
aos antônimos anônimos
perdi-me, feliz,
nos heterônimos de mim.

Hoje, acordei-me
uma delas…
Aquela para quem,
sem você,
tudo é falta…
Preciso saber-me,
dizer-me a que vim…
reencontrar-me…
Não há fim
que justifique o meio
que o conduziu
ao maior dos mistérios…
Estamos,
eu e todas as outras
que moram em mim,
mais sozinhas
do que jamais estivemos…

Ainda vivo
(eu e elas)
sob o circunflexo
da sua proteção.
Quantas de minhas letras
poderiam se haver
sem os seus agudos acentos?…
Língua sem sal…
Eis o que sou
sem você, -
sem o bem
que é o mal…
sem o mal
que é o bem
da minha vida…

Sobra-me o tempo
e seu passar
arrogante, pleno, poderoso, -
no cultivo da saudade
o mais amoroso dos amantes…

Sempre escrevemos juntos.
Eu, no papel…
Ele, em meu rosto.
Não posso avaliar
quem de nós mais se atreve,
mas asseguro
que suas linhas
não são como as minhas,…
não são fáceis de apagar.

Linhas retas, curvas, tortas,
que em verdade
são tão suas quanto minhas,-
são eu e você,
as nossas lembranças…

Ah, não tenha ciúmes
de um amor metrificado
em horas, meses, anos…
Quanto mais o tempo avança
mais nos aproximamos…
Em tudo que ele em mim escreve,
sua ausência é a marca mais presente.

Meu amor por você
foi e continua sendo
a grande procura
por mim mesma, -
meu maior achado!
Meu amor por você
é a única marca da minha vida
que não merece ser apagada…
É o sulco profundo
no qual vivo mergulhada…
para, ainda agora,
olhos fechados,
senti-lo mais perto…
e novamente experimentar
ser muitas,
ser todas numa só.

Meu amor por você
é o sim ao desconhecido,
é o não à estética,
ao padrão,
do que se acredita amor.

Memórias…
providência
e reencontro,
linhas vivas da emoção
nas entrelinhas
da razão,
que insiste no papel
de fiel escudeira
da morte…

Mas eu sou as tantas
que você
ensinou-me a ser,
e estamos todas
onde você está…
Fomos,
somos
e seremos,
doa a quem doer,
eternamente um.
E nenhum ciúme,
nenhum despeito,
nenhuma vingança,
nenhum Direito, -
ninguém…
nada, -
nem o abraço
cada vez mais apertado
do tempo,
nem o beijo gelado
da cruel feiticeira
conseguirão apagar.

ju rigoni (1991)

Foto Mell, em Metáforas…

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Dissonâncias

.

o olho

Desconfie
deste momento de calma
em que o ponteiro fugaz,
que marca os segundos,
passa em revista
uns outros e antigos ponteiros…

Desconfie
deste momento tranquilo,
um quase milagre, à janela
desses seus olhos de ultrapassar…
agora parados, quietinhos,
do lado de cá,
deitados em montanhas,
banhados em lagoa e mar…

Nada é mais ligeiro
que este cruel ponteiro?…

Este mundo
desmedidamente
medido em números, -
algarismos e espetáculos -,
arrepios…
desafia qualquer desafio.
Até mesmo a velocidade
da fração de segundo
na qual se ousa o repouso…
o despertar da melhor saudade…

Ah, se não nos matasse
a fome do irmão…
se não nos tocassem
as faltas,
as altas e muitas notas
em desafino…
(Ah, se não me envenenasse
esta minha língua ferina!…)

…ainda sonharíamos
os nossos ingênuos
sonhos de menino
e de menina,
aqueles que
relembramos agora
à luz da débil aurora
a desmaiar entre os segundos…

…ainda contemplaríamos,
imaginaríamos… como se deve imaginar,
seríamos os únicos donos
das nossas visões fantásticas…
Sonharíamos, sim, aqueles sonhos
que a este mundo
parecem tão enfadonhos…

…brincaríamos de roda,
pipa, bola-de-gude,
pique-esconde,
pularíamos amarelinha,
subiríamos em árvores
e, lá de cima, gritaríamos:
- Terra à vista! -,
ao descobrir nossos mundos…
Nossos mundos…

…ouviríamos histórias
que muitos não sabem,
ou não têm mais tempo
para contar
e recontar…

(E como eram boas
as histórias contadas
recontadas…)

Que infância tão diferente
a de hoje…
Mais estranha que ela…
há sim: os muitos pais,
que parecem jamais
ter sido crianças!

As bonecas não são mais bebês
ou meninas…
Não são mais as mesmas…
Não falam apenas
Mamã!
Falam tudo, falam demais.
Já não é possível imaginar
o que uma boneca poderia
ou deveria falar…
Pobres crianças!…
As bonecas de hoje
são mocinhas, -
e a julgar pelo que vestem…
filhinhas de papai
Salto alto, batom,
namorado…
Nomes sofisticados…
Uma riqueza!,
que não combina
com a pobreza
que todos os dias
extermina
outras crianças…

Neste reino onde o faz-de-conta
é fazer de conta
que não havia mágica
no faz-de-conta
que se fazia…
todo mundo quer jogar,
(e ganhar!)
mas ninguém quer fazer contas.
Pobres crianças!…
as pobres, as remediadas,
as ricas…
Há teclas, gatilhos,
pinos, gravatas,
canetas, palavras
demais
e ações de menos
neste reino…

É difícil encontrar paz
num mundo
em que, para ter mais,
(e ser muito menos!),
um ser humano se contenta
com apertar botões
e apartar filhos…
Um mundo
em que meninos e meninas
já não contemplam mais…
Talvez, também por isto,
eles demorem tanto -
uma vida inteira! -
para se darem conta
de que há meninos e meninas
morrendo de todas as fomes,
no rítmo cruel do ponteiro
que passa ligeiro
sobre outros ponteiros…

ju rigoni (1998)

Foto Mell

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Parêntesis

.

Mell f400

No verbo…
havemo-nos, -
existimos
ou não…
Conjugamo-nos…
em singulares plurais.
Metaforizamo-nos…
para sermos menos
ou mais
do que realmente somos…

ju rigoni (2002)

Foto Mell
 

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Assédio…

.

fogo

Esse moreno é um arraso…
Pedaço de mau caminho!
Coisa mais linda, esse moço,
quando vem, assim…
Pena que não venha para mim!…

Quando está por perto
esqueço o reumatismo,
as rugas, a miopia,
as hérnias de disco, -
esqueço que esqueço! -,
não há força nem lei
que me domem os sentidos…
Ele é um benefício…
uma prova
de que o tesão
eu não aposentei.

Hummm!

…esse jeito escancarado,
moleque, de olhar…
Preciso de um leque!
Preciso pegar!…

- Moreno, não tenha medo
de queimar-se
em minhas chamas…
Só alguém como eu
pode antecipar-lhe,
da cama,… os segredos
que o passar dos anos
tornaria possível desvendar…
Ou não!…

- Moreno, me escute:
não fique assustado
com meu jeito abusado…
O tempo passou
e eu não acompanhei…
Eu sou assim mesmo!
A era é de hormônios
artificiais,
e eu não perco tempo, -
o tempo é que não quer mais
perder-se de mim.

Posso até engasgar,
mas quero comer…
provar algum naco
desse prato cheio…

- Moreno, moreno,…
eu só me arrependo
do que eu não fiz!…

- É certo que darei
em troco,
muito mais que carícias,
corpo, gozo, poemas,…
delícias, -
tudo que se acende
quando você está perto…

- Não sou o seu tipo?…
Passei da idade?…
Apague a luz
e eu dou á luz
um novo moreno,
plural em qualidades
e em singulares
venenos…

- Não fique assustado,
eu sou mesmo assim…
Coragem, moreno!
Chegue aqui, do meu lado…
Não tenha cuidados!…
Quem sabe,
eu até lhe arranje uns trocados?!…

ju rigoni (2005)

Foto Mell

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Verve

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Eu leio,
e a mente em alerta
apresenta-me rostos,
corpos, expressões, cenários,
situações…
Mergulho no mar
dos meus sentidos…

Eu leio
e, quando o faço,
cresço.
Sou muitos…
Sou tudo e todos.
Emprenho-me!
Sou útero em gestação perene, -
abrigo, estímulo, alimento,
à palavra do artista que
concebeu as palavras
que leio…

Eu leio
e vivo as vidas
que nasceram do amor
entre autor e palavras…
Nas teias do fascínio,
interpreto-as ao meu jeito, -
amo, odeio, invejo, desejo…
morro as mortes descritas,
mas ao meu modo de morrer…

Deixo correr em minhas veias
o sangue de tipo estranho
que ensina ao coração
uma nova maneira de bater…
Sorvo o que, de antemão, já sabia,
e absorvo o que não saberia…
se não me permitisse ler.

As vidas que leio
são do autor,
mas também são minhas.
Minhas?…
Minhas e de tantos outros
que vivem em mim,
e que eu li, leio e releio,
num prazer insano…

Eu leio e ganho nova vida
em vidas que só podem existir
onde começam as minhas, -
as que vivi e as que vivo,
e que, ao morrerem,
imortalizaram-se,
e imortalizam-se
porque…
leio
e lerei
até quando me permita esta vida,
tão comum, tão mortal,
e que penso ser só minha…

ju rigoni (1989)

 
Foto-Arte Bernardo Castanho

 
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Helênica Madalena

.
blog 9898

Eu bato ponto
batendo perna no porto…

Por algum trocado,
alivio o aperto
de quem passa no meu passar…
O ganho é um nada,
meu maior salário é pago
em calote e porrada.

Aqui não é lugar de bacana,
não é o calçadão de Copacabana!…
Os braços que abraçam
são esculpidos na lida,
nos ferros pesados
da carga e descarga.

Sou limpa e cheirosa,
mas não há perfume
que amenize a catinga,
o suor do trabalho,
de quem me xinga
e espera de mim
sempre muito mais
do que eu posso dar.

E se o braço é forte
a porrada é bem dada, -
é a covardia
que me tira da rua,
me põe no hospital
e na delegacia.

Cliente vai, cliente vem…
Alguém, um dia,
vai me notar,
me amar de verdade,
e ao invés de vadia,
me chamar de “meu bem”,-
me dar o que essa vida
escondeu de mim,
me dizer que “sim”,
que eu posso sonhar
algum sonho, -
um homem só meu,
que me sustente,
e aos tantos filhos
que essa vida me deu.

Um dia me livro do meu cafetão
e vou fazer a vida no calçadão.
Garota de programa, ao invés de puta!…
Filhinhos de papai, magnatas,
estrangeiros,
com os bolsos cheios
de muito dinheiro…
Conquistar, – quem sabe? -
o meu próprio cais…

Com um pouco de sorte,
na zona sul
encontro o meu norte…

ju rigoni (Sem registro de data)

Imagem obtida em Alexandre Almeida Fotografia

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Amanhã… Quem sabe?…

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Café sem leite,
pão sem manteiga…
A certeza cai da mesa
com as migalhas…
A mulher tenta varrer
a tristeza de não saber
se amanhã haverá o que comer…

Marido sem trabalho,
crianças sem escola…
Ela sabe o que é viver
de esperas e esperanças
travestidas em bênçãos, -
dívidas que a transformam
em credora de si mesma.

Aluguel, luz, água,
gás, comida…
Melhor seria esquecer
para não adoecer.
Médico… é loteria!

No posto de saúde,
ou no hospital do estado,
ainda que se madrugue
e se obtenha uma senha,
não existem garantias…
Mais fácil falar com Jesus, -
o que ela faz todo dia.
E de que adiantaria
avistar-se com o doutor
se a farmácia popular
nunca tem os remédios
que ele vai receitar?…

Mal de pobre é curado
com erva plantada em quintal:
cidreira, capim-limão,
boldo, arruda, quebra-pedra,
erva-de-santa luzia,
erva-de-santa maria,
erva-de-são-joão…
e toda e qualquer plantinha
que sirva a uma boa mezinha
e amenize a sua sina.

Faz-se o que se pode, -
uma ou outra faxina…
Se a patroa de ocasião -
“muito boa pessoa” -
livra-se da tranqueira,
volta com a bolsa cheia…
Roupas desbotadas,
brinquedos quebrados, -
jornais velhos, sapatos furados,
pão dormido, copos de geléia…
vazios.

Bem, pelo menos ela tem
onde servir a mágoa…
digo, uma água…
Se o cavalo é dado
não se olha os dentes!

Melhor esquecer o bolso
e enriquecer a fé, -
não esquecer de levar
o dízimo à igreja, -
àquele pregador,
que alimenta com palavras
muito bem temperadas,
o rebanho tosquiado,
e já prometeu trabalho,
se eleito deputado.

Água, fubá, sal,
e a velha colher de pau, -
a mulher prepara o almoço
cansada de saber
que todo angú,
ralo ou grosso,
por mais que se saiba mexer,
sempre guarda algum caroço…

É bem assim, à noite,
quando ela vai para a cama,
e o marido chateado, -
o dia todinho deitado -
reclama, pede um chamego…
Precisa de algum exercício…
É hora de mostrar serviço,
precisa provar que é macho!

E ela a chorar baixinho,
quando ele, aliviado,
dorme o sono pesado…
Não tem com quem dividir
tanto desasossego!
Talvez, amanhã, – quem sabe? -,
ele consiga outro emprego…

Nem bem o dia desponta,
os olhos muito vermelhos,
inchados de tanta tristeza,
pensa, desanimada,
no que levar à mesa.

Levanta-se,
destranca a tramela,
abre a janela,
mergulha no azul
e, por um momento,
entrega-se, indefesa,
à calma dessa manhã.

Crianças de pé,
…enfrentar a lida!…
Há pão dormido,
aipim do quintal,
cozido com sal,
mas… sem açúcar,
como servir o café?

Ao amargo da vida
resta a tal doce esperança…
Força para seguir adiante,
energia para enfrentar
mais um dia.

Esperar, esperar…
Viver mais um hoje
como se ontem fosse…

ju rigoni (sem registro de data)

 
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Sêmen

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microfotos-9

Há muitas vidas
em seus pensamentos…
Fluídos que extrapolam
o volume do vidro.
Caneta ao alcance,
a mágica da tinta
destila destinos…
E o papel companheiro
é abrigo, é porto,
é umbigo…
e cordão.

Enquanto escreve
mais vida tem…
Mais vidas lhe vêm…

Ao reunir pensamentos,
em prosa ou em verso,
sentidos em alerta,
no prazer do espasmo
outra vez semeia
o espargir congesto…
O útero estranho aquiesce
à perene prenhez..
E cresce… cresce… cresce…

À insônia serve
o criado-(nem tão)mudo…
Livros, relógio,
água, aspirinas,
caneta, papel…
O amanhã transborda
do presente passado…
Mais e mais histórias
paridas pelas histórias
das histórias recém-nascidas.

Já amanhece…
mas, ainda desperto,
ele escreve… escreve… escreve…

ju rigoni

Imagem obtida Aqui

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Travessia

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barca

A barca atraca,
os homens correm,
invadem a proa,
enquanto a garoa
singrando o vento,
encharca o tempo
e as pessoas.

(Um homem
vagueia no porto.
Pálido, esquálido,
semimorto, embarca…)

A barca é lenta,
a barca é parca,
pra tanta marca
da gente farta
e sonolenta.

Para um lado, para o outro…
Para cima, para baixo…
Para frente, para trás…
(Ai, que enjôo!…)
A barca joga
com o destino,
feito a bola do menino
sentado e quieto ao meu lado.

Quem lhe ensina o movimento?
A maré, esta sábia
que seca ou enxágua,
e não quer saber
de alegria ou mágoa,
apenas do vento, da lua,
do tempo.

Bendita barca
que leva e traz
esperança, paz,
trabalho, vida.

Maldita barca
Que traz e leva
desdita, dor,
desespero, morte.

(O homem do porto
está frio, jaz morto
na manhã de segunda-feira….
no vazio da multidão sem pressa.)

ju rigoni  (na barca, jun/79)

Galopeio, em Dormentes, e Cromos, em Medo de Avião.