No Céu da Memória

Cabelos ralos,
tão branquinhos,
ao vento leve
da noite clara…
Olhos lá em cima,
na lua antiga…
O pescoço dói,
a mente flutua,
o tempo gira
fora do eixo…

Saudades
da dona do dedo
que apontava
o santo e o dragão…

Velho e cansado
o corpo treme,
espreme-se em memórias,…
liquidifica o pensamento
e qualquer palavra
que se diga…

Saudades da dona do dedo
que apontava o caminho…
Quanto mais trêmula a voz
mais bonitas as histórias…

Dias de pura magia…
Céu coalhado de poesia
e ingênua esperança…
Infinitas estrelas…
Quase tantas
quanto os sonhos
de criança…

(Entre um cochilo e outro,
a voz que é estorvo e carinho:
- Vovó! Dormindo de novo?!
- Não! Não estava dormindo!
Só estava recordando…
- Lembrar pode doer, vovó…
- Querida,
já tenho idade para saber
que toda saudade
combina dor e prazer…)

Saudades
da dona do dedo
que apontava o santo,
o dragão,
o caminho…

A lua, as estrelas, o céu,
o jardim…
nunca mais serão os mesmos…

(- Vó, vamos entrar…
A noite está ficando muito fria…)

ju rigoni (2002)

Para Dora, minha inesquecível avó materna.

Visite também Fundo de Mim IIDormentes Navegando…

Papas na Língua

 

Palavras…
Ah! As palavras…
Carícias prévias,
quentes, úmidas, -
tão escorregadias
no ardor da criação…
Aflição legítima
que leva ao gozo,
em momentos diferentes,
vítima e algoz, -
escritor e leitor.

Orgasmos…
Embora o parceiro de espasmos
nunca se está tão só…

ju rigoni (1984)

Foto Mell

Visite também Fundo de Mim II Dormentes.

Fascínio e Pacto

Livro+aberto+e+c%C3%A9u+(LINDO)

Algumas páginas
misturam lágrimas…
Outras… suor, saliva…
Todas têm bordas amassadas,
fustigadas…
O caos em digitais…

Pálido, sebento, enrugado, -
muito mais que personagens,
situações, paisagens  -,
esse senhor guarda o segredo
de um frescor eterno,
inusitado…
Rebento e rebentos
saltam de suas páginas
a ressaltar sentimentos
tão singularmente conquistados…

Emprestá-lo
é emprestar-me…
Desde que o li
(e o reli, reli, reli…)
ele vive em mim;
nunca mais o esqueci.
Mas vou, sim, permitir
que também você o leia…
e misture a tantos outros
o seu dna, -
saliva, suor, lágrimas…
e a mais prazerosa das expectativas…

Outra vez
terei certeza que há mais alguém,
além de mim
e de todos que o leram,
que saberá que esse
não é um livro qualquer…
Há muitas histórias
nessa história única,…
na urdidura de suas linhas
e entrelinhas
que não se revelam
à primeira leitura.

Leia-o, sim. Pense.
Releia-o. Pense…
Só não esqueça
que embora a(s) história(s)
não seja(m) minha(s), -
e ainda que você
reconheça nela(s)
sua própria história -,
o livro pertence a mim.
E, queira ou não queira,
terá que devolvê-lo.

ju rigoni (1992)

Visite também Fundo de Mim II,   DormentesMedo de  Avião.

De(se)feito…

O Canto

Escrever-lhe ou não?…
Não sei como
interpretaria minhas palavras…
Está triste…
Experimenta o amargo
da rejeição…

Talvez, procure e encontre
em minhas entrelinhas
o que não existe…
Parco em carnes
e largo em carinhos, -
sempre amigo -,
é o meu ombro…
Mas, o ser humano é estranho…
Sob o véu da depressão
só consegue ver, perceber,
ouvir, acreditar… no não.

Escrever, não escrever…
Mas, talvez, – quem sabe? -
as letras ergam-no da cadeira,
e o conduzam a inúmeras portas
que abrir-se-ão
como aquelas flores
que só se abrem
ao anoitecer…

Na adrenalina da indecisão,
faz-se em mim
o milagre do sim

E minhas palavras correm…
(bilhete de loteria?)
na contramão do tempo
ao encontro do coração ferido.

Foram-se.

Contudo,… nelas ainda penso…
Como e em que dose
ele há de bebê-las?…
Remédio ou veneno?…

Mas já não há lugar
para arrependimento…

ju rigoni
(1998)

Imagem: AquarelaTatiana Pailos

Visite também  Fundo de Mim IIDormentes.

Da Cor Inexistente…

7032459_ecba1063081

Meus olhos negros
são tão azuis quanto os seus, -
olhos da cor do mar,
negros como os meus.

Mas o mar é mesmo azul?
Pergunte ao céu!
Pergunte ao sol!

Minha pele morena
conta histórias de outras peles,
outros ares…
outras terras,
outras línguas…
Aromas, paladares, -
deidades
que na paleta da natureza,
mãe de todas as cores,
comungam a mesma verdade.

Cores…
À luz, revelam-se,
mas em sua ausência
amam-se, -
unem-se em emoção única.

Meu sangue é brasileiro,
libanês, italiano, africano,
português, boliviano,
francês, japonês…
Meu sangue é só isto…
Só sangue!

Palavras
dão nome à cor sim.
Mas palavras
não têm cor, não.
Palavras são
como deveriam ser
todos os homens
que insistem em dar cor,
números, fronteiras
a palavras e Homem.

Minha cor
é fruto da árvore
- ora amor, ora libido -
que cresce em tantas outras…
Florestas que se plantam
não apenas em camas,
ou em chamas ardentes
que, indiferentes,
aquecem e deitam ao chão
tantas questões à mesa.
Florestas também semeadas,
paridas,
no leito do preconceito.

De um modo ou de outro,
florestas que multiplicam-se
ininterruptamente…

Minha cor
é a cor do mundo.
Minha cor
e todas as cores
que a ignorância,
travestida em poder,
transforma em arma cruel
para distinguir seres humanos
de seres humanos.

Cor,
como a alma
e o amor ao próximo,
é lição
da qual o homem apropriou-se,
mas não aprendeu.

Nos livros da vida,
mais que nos da escola, -
mais ignota que desconhecida,
a aula de Transparência.

ju rigoni (1985)

Imagem obtida AQUI.

Visite também Fundo de Mim II e Dormentes.

Mistérios…

special

O mistério é a magia
que mantem vivo o defunto, -
o assunto das entrelinhas.

O mistério é o impulso
que leva ao jornaleiro,
à livraria, ao blogueiro
e, a bem da verdade,
ao médico e à farmácia.

Bem-vindos os véus, -
todos eles.
Bem-vindo o fel do mistério.
Da inteligência… o mel.

Quem não respira mistérios
em vida jaz…
Sozinho… Morto!

ju rigoni (sem registro de data)

Foto-Arte Bernardo Castanho.

Visite também Fundo de Mim II e Dormentes.

Um Certo Cinza…

m1

Dias nublados, chuvosos, frios,
são grandes desafios…
Nublam-se as cores,
os ódios, os amores…
Nubla-se o conhecimento,
nubla-se o pensamento…

Em dias assim,
é preciso driblar a preguiça, -
é mais difícil levantar-se da cama,
encarar a si mesmo,
erguer o corpo para enfrentar a vida, -
caminhar na corda-bamba…

Toda dor parece mais intensa
nestes dias de gargarejo
Dias de pisar o chão com cuidado, -
evitar a sujeira dos respingos…

Em dias nublados, chuvosos, frios…
Não se deve chorar,
porque as lágrimas vêm em rios
que não se pode atravessar…

Em dias nublados, chuvosos,
e tão frios,
só um desejo arde…
Que haja sol no dia seguinte…

ju rigoni (Anos 70)

Foto Mell

Visite também Fundo de Mim II, Dormentes, Medo de Avião, Navegando…

De Lírios Em Brotação…

fadas 1

Ah, como é bom
deitar no chão
e olhar as nuvens
a passear no céu…
Desenhar no azul
o que se deseja…
E quando sozinhos,
inventar amigos para conversar…
Olhar horas e horas a fio
o vôo dos passarinhos
e acreditar que um dia
também poderá voar…
Imaginar um futuro
e ter certeza que assim será…
Ver o feijão brotar
do caroço no algodão molhado…
Aprender a ler, a nadar,
a andar de bicicleta…
Sem que ninguém saiba,
vencer os degraus da escada
a escorregar pelo corrimão…
Subir em árvores,
cair, ralar o joelho…
Falar tudo que pensa
e ficar de castigo para aprender
que não se pode dizer
tudo que vem à cabeça…

No Natal,
sentar-se à mesa farta
e depois da ceia,
entre abraços e beijos,
abrir os presentes
ao pé da árvore…

Ter muitos amigos para brincar,
muitos sonhos para sonhar…
Descobrir a beleza nas coisas simples, -
nas frutas maduras a colorir o outono,
nas folhas caídas a rodopiar no chão
ao sopro da canção do vento,
no encanto do arco-íris,
na relva molhada a brilhar sob o sol,
no descascar o tronco da goiabeira,
no piscar do vagalume, (uma estrela que voa!),
no castelo de areia que a onda leva para o mar,
no banho de rio, de cachoeira,
nos raios que acendem o céu zangado
e anunciam a bronca da trovoada…
Ah, como é bom…

Quando toda criança
puder ter boas lembranças;
quando toda criança
puder sentar-se à mesa
com a família,
para comer e beber;
quando toda criança
tiver o que vestir, o que calçar;
quando toda criança do mundo
puder ir à escola,
e brincar, e sonhar,
e ter o direito de imaginar que o mundo é bom…
eu já não estarei por aqui.

Mas, o que conta foi semeado
ao longo do caminho, -
filha, neta, sobrinhos;
e o desejo… que toda criança
tenha as mesmas oportunidades,
e o mesmo quinhão de amor e carinho.

Para respirar,
preciso libertar a criança que mora em mim, -
acreditar
que esse dia há de chegar…

ju rigoni (2002)

Imagem: Lápis de Cor – Tatiana Pailos

Visite também Fundo de Mim II, Medo de Avião, Dormentes.

Asas No Chão

Pena(foto Chris Collins)

Asas No Chão

Os anos passam
e cresce a certeza:
tudo é sentimento.

A vida está quase sempre
ao alcance…
Mas os versos do dia-a-dia
são tomados de assalto
por palavras estranhas…
Sem qualquer poesia.

Os anos passam
e cresce a consciência:
tudo é dependência.

Significados conhecidos
fogem do apelo da palavra
como da cabeça o cabelo.
Às vezes o não é sim…
De outras vezes o sim é não…

A gente nasce leão
e morre tão passarinho…

ju rigoni (2001)

Foto: Chris Collins

Visite também

Fundo de Mim IIDormentesMedo de Avião.

A Espera

interrogacao-detalhe

Ele está em todo lugar.
Mas não onde deveria estar…

É um fato curioso
esse desaparecer
que, às vezes,
torna alguém famoso…

Desaparecer…
Aparecer…
Deve haver aí,
entre uma e outra palavra,
uma terceira
que também desapareceu.
Pois, como dois significantes
podem ser tão insignificantes
em seus inerentes significados
diante das autoridades?…

Felizmente, entre antônimos,
há sempre um anônimo, -
o sujeito que pratica a ação
sem demora.

A mãe que procura o filho.
O filho que procura o irmão.
O irmão que procura o pai.
O pai que procura o primo.
O primo que procura o amigo.
O amigo que procura a esposa.
A esposa que procura o tio,
que procura… que procura…
Que procura!…

E nada!

Só a esperança,
companheira de fé
das horas difíceis da vida,
e essa angústia…

Os dias… noites são.
Não há manhãs, amanhãs, -
auroras, alvoreceres…
A dor não conhece o sol!

- A qualquer momento…

Há amigos e parentes,
e gente que nunca se viu,
ecumênica reunião
em conexão com o impossível…

Há nefastas transparências,
e uma ausência que grita
- Presente!,
enquanto o tempo passa…

Há sons, -
melhor não existissem
essas palavras
que não se quer ouvir
nem em pensamentos…

Não se come,
não se dorme,
não se trabalha,
não se respira
na reflexão,
no “se”…

E se isso?…
E se aquilo?…
Comeu? Bebeu?
Chorou? Dormiu?…

O que pode estar fazendo agora?
Oh, meu Deus!
Oh, meu Deus!
Oh, meu Deus!
Está sendo maltratado?…

Está vivo? Morreu?…

Há dores de um lado
e de outro…
E, ao meio, outras dores,
que grudam no peito…
O medo, na madrugada,
insone…
velando o telefone.

Na moldura, o retrato
sob o vidro
que a mãe,
olhos marejados,
cuidadosamente limpou.
E o medo insano
do que vem
por detrás da notícia:
- Acabou!

ju rigoni (1996)

Imagem:  “Dúvida”  (detalhe)  -  Lápis seco e lápis aquarelável.

Visite  também  Fundo de Mim IIDormentesMedo de AviãoNavegando…

Flor Fatal

be1

Penetra com os olhos
a virgem orquídea,
e revela o segredo
oculto na brancura diáfana:
as crenças, os amores,
as cores…
que ao outro negamos.

Nela habitam
todos os lados,
todos os medos,
todos os nãos, -
tudo que se rega
no inconsciente,
mas à flor da mente
se renega.

(Sempre à espreita,
ávidas de mistérios
nos quais se deleitam,
lá estão as pragas
do preconceito.)

A verdade é como sereno
ao cair da noite,
(ou como o orvalho
ao levantar da aurora),
tudo se molha
para secar de vontades
ao sol intransigente
do meio-dia seguinte.

Orquídeas
vivem nas florestas,
nas rochas,
nos jardins sombreados,
entranhadas em xaxins,
ou abraçando troncos
como se abraça o ente querido.

Ao desabrochar,
encobrem flores
sobre flores,
cores sobre cores,
mas não escondem
a métrica do ser
ou do estar:
também ressecam
e morrem.

As raras
criam-se em estufas,
protegidas.
Exigem certa umidade,
certa luz, certo cuidado,
certa compreensão,
certo amor.

São milagres que se abrem
uma ou duas vezes por ano,
à reflexão,
ao olhar corajoso,
de quem sabe sua a própria vida.

ju rigoni (Anos 80)

Foto Bernardo Castanho

Visite também Fundo de Mim II, Dormentes e Medo de Avião.

Sem Trancas

Trancoso

Escova e pasta de dente,
toalhas, fio dental,
sabonetes, xampus,
cremes, pente,
manteiga de cacau,
bloqueador solar,
e a roupa oficial:
camisetas, bermudas,
maiôs, biquinis, chapéus
e sandálias havaianas…
Muito papel e caneta
pra poesia da hora…
Uma rede, um violão,
muita música do Chico,
do Caetano, do Beto,
do Milton, do Egberto,
do Vinícius, do Tom…
Muito jazz e muito blues, -
Vez em quando rock’n roll,
e, é claro, o meu amor.
Nem é preciso levar
o estoque de bom-humor…
Deixo em casa a televisão,
o celular e o computador…
E se tiver que pensar,
eu só quero compromisso
com quem sabe poetar:
Quintana, Bandeira, Clarice,
Cora, Pessoa, Drummond…
No mais, está tudo lá:
muita água de côco,
muito sol e muito mar, -
comida arretada de boa,
passeios, e mais passeios, -
uma Lagoa Azul
bem no meio do caminho
que leva ao Arraial -,
e chuva, de quando em vez,
pra não ressecar o juízo,
que é sempre muito difícil
voltar desse paraíso…

ju rigoni (Sem registro de data)

N.A. – Fico em casa de amigos,  mas se você não conhece ninguém por lá pode hospedar-se em pousadas ou hotéis. Faz tempo que não vou. Gostaria de não demorar tanto… Infelizmente, há sempre o risco de não se encontrar mais o que se espera encontrar…

Foto obtida aqui.

Visite também Fundo de Mim II e Dormentes.