
Uirapuru
Olho crianças brincando,
tão inocentes, tão puras,
os sorrisinhos felizes,
as gostosas gargalhadas,
nem sabem de passarinhos
buscando onde fazer ninho…
Nem sabem da ararajuba,
ou do cachorro-vinagre,
do lobo-guará, da ariranha,
do gato-maracujá, -
nem sabem da onça pintada…
Bororo?Yanomami?
Ticuna? Katukina?
Sateré-Maué?
Kayapó? Marubo?
Tenharim? Kulína?
Não sabem…
Não sabem da poesia
que brota da foz do rio,
gigante que vai crescendo
em vagas que empurram águas, -
levando a alma do mar
até que a lua nova
por bem o convide à calma.
Poroc-Poroc…
E quem sabe?
Filho é país, tem fronteiras!
E não as delineie não,
não lhe dê Educação -
a chance de ser feliz -,
e não mais verás um país
como este.
A Amazônia é o verde ansiado,
o verde invejado pelos que não tem verde.
É o filho do avesso
por quem pagam qualquer preço
para chamar de seu.
Pudessem… e a transplantariam
sem fila ou autorização de família.
É o filho sem pai, sem controle,
o filho em má companhia,
o filho que recende a álcool.
Que cai e não mais se levanta?…
É o alimento indigesto,
o pão do ignorante
e do pária que tem instrução
mas não tem vocação
para o dinheiro honesto.
Não têm filhos esses homens?…
De tão imponente
parece onipotente
esse deus
que cede à própria criação,
plantado em solo minado
pelo interesse estrangeiro
e pelo mau brasileiro.
No chão onde se ergueu esta nação
(Verdade seja dita!)
há mais que mistérios e lendas, -
há cura para todos os males,
exceto para a própria ferida.
Lindas, fortes,
(como aquelas crianças),
bem nutridas e indefesas,
as árvores sucumbem
à natureza do homem.
Sob o fio da ganância
caem tão dóceis,
submissas, mansas…
A idade se revela infância.
Logo ali?
Pois se ali nunca existiu tempo!, -
esse tempo em horas, dias, anos…
Porque o tempo foi ali concebido
e é ainda recém-nascido
Envia a espessa fumaça
sinais estranhos aos índios?
Aves em revoada,
animais em disparada,
as vozes da bicharada
no crepitar da morada
anunciam novo inferno.
E ao dia seguinte,
sobra o funesto castanho,
cheirando a morte matada,
manchando o divino verde
dos que reinam sem coroa…
E um olhar,
um simples olhar,
descompassa o coração
de quem já cansou de chorar.
Embora o rio que é mar,
as lágrimas em extinção…
Ora bolas, que estou fazendo?
O que podem essas minhas letrinhas
humildes, pequenininhas,
contra tão imenso drama?
O que posso além de escrever,
além de - assim impotente,
coração e mente em chamas -
arder em meus versos tortos,
solidários com a floresta?
Que posso além do desejo
de um futuro diferente
em que a neta da minha neta
aos netos possa falar
de uma história de vitórias,
boa de ouvir e contar?
A história da floresta encantada
que venceu dinheiro, arrogância,
descaso, ignorância, -
a falta da Educação -,
para reinar soberana
sobre todas as florestas, -
ainda gigantesca,
ainda poderosa,
ainda linda…
Ainda nossa.
Era uma vez um talvez…
Sem portas de entrada ou saída
e sem mais para contar.
Que posso?…
ju rigoni (sem registro de data)
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Escrito por ju rigoni

Todo poema,
toda prosa, -
toda palavra
pode nelas se esconder.
Quantas vezes o amor,
o ódio, a inveja,
a retórica mentirosa,
a ansiada promessa,
fazem delas a sua morada?
Dúvidas de toda sorte,
reminiscências, angústias,
e até a vida e a morte.
O sinal que hoje doma
amanhã atiça a fera…
Eternamente grávidas,
gestam pensamentos e emoções
ora interrompidos, ora omitidos,
sugeridos, insinuados… embriões.
Pontos bem nutridos,
gordinhos de mistérios…
Pontinhos bandidos, safados,
amigos na exceção,
inimigos da censura,
capazes do tudo e do nada, -
a bomba que lançada ao texto
pode arrasar amizade,
amor, família, nação…
é deus na reconstrução.
Vigiai, pois!…
Que os três inofensivos pontinhos,
que lembram os três macaquinhos,
tão sutis, tão delicados,
tão bonitinhos assim lado a lado,
e sem qualquer movimento,
vão da ternura à amargura,
do não à revolução,
da dor à felicidade,
em tenaz velocidade
camicases que são.
- Antes reticências
que um ponto final!
Será?…
Os pontos que guardam palavras
também guardam todos os pontos…
ju rigoni (1970)
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Escrito por ju rigoni

O pensamento nublado,
o espírito encharcado…
A chuva cai com força
aqui dentro de mim,
aqui onde não me conheço,
aqui onde tudo é segredo…
Mas lá fora o vento é brando,
e esta manhã tão azul
não combina com meu pranto.
Tento me abandonar,
sair de dentro de mim,
e caminho devagar,
bem devagarinho,
pra não espantar
esse passarinho
que parece fazer ninho
na árvore que eu plantei.
“Bem-te-vi”, ele revela.
Bem-me-viu esse amiguinho
que decide ser vizinho
num momento tão difícil…
Sento ao chão da varanda
olhando para o jardim
e pra esse bichinho tão frágil,
de corpo tão delicado,
de canto tão encantado,
que quase me rouba um sorriso.
Meu Deus! Como posso eu
em meio à tamanha tristeza
vislumbrar suavidade,
descobrir tanta beleza?
Como ouso render-me
ao hiato inevitável
que ao meu pai aponta o chão
e a mim a minha árvore
plena de vida com asas?…
Tudo que me consome
tudo que me corrói,
em beleza ou fúria,
sabe de cor a natureza.
Eu só sei do mistério.
Eu só sei do que não sei…
E eu não sei do nunca mais.
Este céu,
este gorjeio,
as ondas quebrando mansinho,
sem parar,
sem parar,
sem parar…
De janeiro a dezembro
aquele novembro que, eu sei!, voltará…
Pé-ante-pé, levezinho,
como as folhas dançam na brisa.
A saudade é passarinho
fazendo ninho
na minha ibirapitanga…
ju rigoni (Para Amyl, meu pai. 1913-2001)
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Escrito por ju rigoni

Este nariz virgulado,
esta boca entre parênteses,
e… aqui!,
entre as sobrancelhas,
dois pontos de exclamação.
No pescoço travessões -,
um para cada frase.
E com quantas reticências
o sol premiou esta face!
Há pontuação: há palavras, -
há erros e acertos há,
que este rosto é pedra bruta,
não conhece perfeição.
As memórias são tantas…
Nele perdeu-se a própria saga.
Mas ainda há vagas
para angústias de todo trato, -
hífens, asteriscos, aspas…
Destacando consoantes
há vogais
no acentuado semblante,
- grave,
cincunflexo til,
agudo trema,
crase…
E à violência de um ponto
que deveria ser final,
uma sucessão de parágrafos…
…
(O rosto bem junto ao espelho,
e ainda assim não me vejo,
quem é esta que me olha
como quem está de partida?
Quem sou eu?,
é a pergunta
que me segue pela vida…)
ju rigoni
Foto Bernardo Castanho
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Escrito por ju rigoni

"Erodindo..." - Lápis seco e lápis aquarelável.
Meu partido?…
Eu sou o que sou e sou muitos,
e me reparto entre o repartido das idéias
para me encontrar inteira em idéias várias.
Não me reparto para ser partido.
Sou partido para me repartir.
Não subtraio para somar,
nem somo para subtrair.
Divido para multiplicar
e multiplico para dividir.
Não há partidos partidos.
Há homens e idéias muitas.
Se cada homem é um indivíduo,
cada homem é uma idéia,
cada homem é um partido!
Meu partido é a verdade.
É a certeza de um mundo sem fome,
sem armas, sem preconceitos.
Meu partido não tem nome, -
tem ânima.
E a ele é filiado todo homem de bem.
Meu partido é a minha casa,
o meu bairro, a minha cidade,
o meu estado, o meu país…
É a vida mais feliz e serena.
Meu partido não tem planos ou números.
Tem homens… num mundo mais solidário,
mais humano, mais justo.
Meu partido sou eu,
a minha família, os meus amigos.
Meu partido é a liberdade
de ter ou não ter partido.
É a minha consciência em paz.
ju rigoni (em 1999)
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Escrito por ju rigoni

"Fome" - Lápis seco e lápis aquarelável.
(”…delas é o reino dos Céus!”)
Carvoarias, canaviais,
lixões, olarias, puteiros…
Crianças escravas
dos escravos do dinheiro.
- Vai drops?
- Biscoito de vento?
- Compra, moço?… Pr’ajudar!
Há vida debaixo da ponte,
nas ruas, nos sinais de trânsito,
nos becos… Sem saída!
Fuzis, metralhadoras,
revólveres, granadas,
adrenalina… Sina.
Avião, vaporzinho,
ventinho… Asas nos pés.
E mãozinha esperta
que aperta o gatilho.
Molecada de recados, -
de morte anunciada.
Escudos
cegos, surdos e mudos
nos currais do poder
que não faz o dever de casa.
Reboco, barro, capim,
lixo, cacto,
fome negra.
Cascas de frutas,
farinha de resto, de folhas, -
misturinhas da miséria
com a falta de vergonha
para embotar a fome:
quem sabe dar-lhe outro nome?…
Mastigam e engolem piedade.
O Estado é caviar, -
nunca lhe sentem o gosto!
A não ser quando transgridem
para matar o que as mata.
ju rigoni em set/1998
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Escrito por ju rigoni

"Impossível Chão" - Lápis seco e lápis aquarelável.
Palavras têm sons,
cheiros diversos,
paladar, tato, visão.
Palavras têm sexto sentido
e escondem-se em palavras
não escritas, nunca ditas,
ou expressas e malditas.
Palavras têm prosa e verso,
têm alegrias, sorrisos,
belezas, inteligências,
tristezas, incoerências.
Palavras têm emoção.
Palavras têm amigos,
amores, amantes,
palavras têm paixão.
Palavras têm sexo,
pele, espasmos, orgasmos,
palavras têm tesão.
Palavras têm intransigência,
têm poder, têm violência,
têm tortura, amargura,
rancor, dor, truculência.
Palavras têm céu e inferno,
têm coragem e têm medo,
têm dúvida e opinião,
- palavras têm purgatório.
Palavras têm delicadeza,
ternura, meiguice, leveza,
inocência, timidez.
Palavras têm fogo,
ar, água, terra.
palavras têm pai,
mãe, irmãos,
palavras têm filhos,
povos, bandeiras, nação.
Têm limites, têm fronteiras,
- palavras têm dono sim!
Precisam de proteção.
Palavras têm morte em vida.
Palavras têm muita saudade
das palavras que elas têm.
Palavras têm vida pos-morten.
Palavra que têm!
ju rigoni
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Escrito por ju rigoni
Penetra com os olhos
a virgem orquídea,
e revela o segredo
oculto
na brancura diáfana:
as crenças, os amores,
- as cores
que ao outro negamos.
Nela habitam
todos os lados,
todos os medos,
todos os nãos,
tudo o que se rega
no inconsciente,
mas à flor da mente
se renega.
(Sempre à espreita,
ávidas de mistérios
nos quais se deleitam,
lá estão as pragas
do preconceito.)
A verdade é como sereno
ao cair da noite,
(ou como o orvalho
ao levantar da aurora),
tudo molha
para secar de vontades
ao sol intransigente
do meio-dia seguinte.
Orquídeas
vivem nas florestas,
nas rochas,
nos jardins sombreados,
entranhadas em xaxins,
ou abraçando troncos,
como se abraça o ente querido.
Ao desabrochar,
encobrem flores
sobre flores,
cores sobre cores,
mas não escondem
a métrica do ser
ou do estar:
também ressecam
e morrem.
As raras
criam-se em estufas,
protegidas.
Exigem certa umidade,
certa luz, certo cuidado,
certa compreensão,
certo amor.
São milagres que se abrem,
uma ou duas vezes por ano,
à reflexão,
ao olhar corajoso,
de quem sabe sua a própria vida.
ju rigoni (Anos 80)
Preconceito de raça, credo, sexo…
é doença grave. Por enquanto,
a cura continua sendo apenas
uma esperança…
Foto: Bernardo Castanho
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Comportamento, Cultura, Literatura, Pensamentos, Poesia, Preconceito, Reflexão, Transpiração, Viagem ao Fundo..., Violência | Tagged: Literatura, Pensamentos, Poesia, Preconceito, Reflexão, Violência |
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Escrito por ju rigoni

"Caraminholas." Lápis seco e lápis aquarelável.
Os anos passam
e cresce a certeza:
tudo é sentimento.
A vida está como sempre
ao alcance.
Mas os versos do dia-a-dia
são tomados de assalto
por palavras estranhas…
Sem qualquer poesia.
Os anos passam
e cresce a consciência:
tudo é dependência.
Significados conhecidos
fogem do apelo da palavra
como da cabeça o cabelo.
Às vezes o não é sim…
De outras vezes o sim é não…
A gente nasce leão
e morre tão passarinho…
ju rigoni (2001)
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Comportamento, Cultura, Depressão, Literatura, Pensamentos, Poesia, Reflexão, Terceira Idade, Viagem ao Fundo... | Tagged: Comportamento, Cultura, Depressão, Envelhecimento, Literatura, Pensamentos, Poemas, Poesia, Reflexão, Terceira Idade |
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Escrito por ju rigoni

Procuro no que eu digo
abrigo para o meu sentimento.
Meu tempo pode não ser o seu…
Mas o que é o tempo
quando tenho diante de mim
a folha em branco, a caneta,
e esta irresistível sensação de poder?…
- Silêncio!
Quero ouvir o que você não ousa dizer.
Ouvir-lhe o coração.
Preciso olhar em seus olhos
e encontrar o que desejo:
a sua alma.
Quero-a substantivo,
concreta e minha,
muito minha,
só minha.
Preciso tocá-la,
apossar-me dela,
servi-la com adjetivos, metáforas…
Transformá-la em palavras.
Porque sei o que você busca:
meus sentimentos são “quartos desarrumados”
que, às vezes, encontro organizados
não na minha,
mas na palavra do outro.
Se isso é poesia
não escrevo poemas,
mas sim…
Sou poeta.
ju rigoni
Foto de Bernardo Castanho
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Literatura, Pensamentos, Poesia, Reflexão, Transpiração, Viagem ao Fundo... | Tagged: Comportamento, Literatura, Pensamentos, Poesia, Reflexão |
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Escrito por ju rigoni

O mistério é a magia
que mantem vivo o defunto, -
o assunto das entrelinhas.
O mistério é o impulso
que leva ao jornaleiro,
à livraria, ao blogueiro,
e, a bem da verdade,
ao médico e à farmácia.
Bem-vindos os véus, -
todos eles.
Bem-vindo o fel do mistério.
Da inteligência… o mel.
Quem não respira mistérios
em vida jaz…
Sozinho… Morto!
ju rigoni
Foto Bernardo Castanho
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Literatura, Pensamentos, Poesia, Reflexão, Transpiração, Viagem ao Fundo... | Tagged: Comportamento, Literatura, Mistérios, Poesia, Reflexão |
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Escrito por ju rigoni

"Dúvida." Lápis. Seco e aquarelável.
No ônibus ou no trem lotados,
o trabalhador apertado
entre dores
e outros trabalhadores,
divide com motorista,
trocador, vendedor, balconista,
costureira, boy, faxineira,
o espanto da lavadeira
que nunca lavou dinheiro.
Mas a falta de vergonha
é mancha que não se lava,
nem se leva impunemente.
Nem se leva impunemente?…
- Quanto milhão, companheiro!
Haja cueca! Haja mala! Haja dízimo!
Haja otário para tanto salafrário!!
Todos choram
a falta de sorte de acertar.
Todos coram o vermelho
pleno do cyan das idéias mortas…
Zeferinos, gonzagões, zés, marias e joões –
todos calam seus triângulos
cerrando da sanfona o fole
das certezas e senões.
Mas também tem mauricinhos
e patricinhas perfumosos
chorando em cores e ao vivo
pelo mesmo motivo.
Puxa! Que evolução!
“Poetas, seresteiros, namorados, correi”…
Que todos nós,
(todos voz),
cravamos errado
e estamos escrevendo
da direita para a esquerda,
rebolando ao centro,
sem saber para onde ir…
Por sorte,
“Deixaram-nos as palavras.”
ju rigoni
“Saímos perdendo…
Saímos ganhando…Levaram o ouro e nos deixaram o ouro…
Levaram tudo e nos deixaram tudo…
Deixaram-nos as palavras.”
(Pablo Neruda)
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Escrito por ju rigoni
A esperança permanece criança.
Ao que parece nunca vai crescer…
Essa criança tem fome.
E a fome a enfraquece.
Vontades não a alimentam.
Não mais!
(Há um quê de utopia
no desejo amanhecido.
Assim… Feito pão dormido.)
ju rigoni
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Literatura, Poesia, Viagem ao Fundo... | Tagged: Literatura, Poesia, Reflexão |
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Escrito por ju rigoni

"Angústia." Lápis seco e lápis aquarelável.
A métrica da estética
compõe com a ética eloqüente
do seu desejo.
Diz a mídia
que é assim
que você deve ser,
que é essa a aparência
que você quer ter.
Corpo sem a essência da alma.
Alma sem a decência
de um corpo singular,
feio ou bonito,
que faça por merecê-la.
Esse olhar oriental,
meio rasgado,
involuntariamente semicerrado,
Não é seu.
Esse seio empinado
que a paixão toca
e suga plena de tesão…
Não é seu.
Essa boca que ri
sem expressão, sem vontade,
sem os parênteses da idade…
Não é sua.
Essa bunda gostosa,
firme à cadência do passo,
pedindo o toque de mãos…
Não é sua.
Esse nariz arrebitado
no rosto recém-reformado,
quase clonado…
Não é seu.
Nem são seus as panturrilhas,
as ancas e as orelhas,
os tornozelos gordinhos,
mãos, coxas e sobrancelhas.
A quem pertencem… Não importa.
São belos
como pode ser bela a utopia.
No rito da beleza
o medo da morte
em vida.
No mito da beleza
necessária é a fé
na morte da saudade
de quem realmente se é.
No mito da beleza,
a certeza de que, finalmente,
seremos todos iguais
perante os deuses
e os homens.
ju rigoni (set/2000)
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Escrito por ju rigoni

Fome não é só uma palavra.
Fome não é só um nome.
Fome é O não.
Fome é O zero -
uma letra vazia,
um número ôco.
À esquerda. Não à direita,
como o fado do Estado.
Letra e número repletos do espaço,
que o estômago de quem tem fome
já não reconhece.
Porque a fome o estreita
como um abraço…
Às avessas.
Enquanto alimento meu verso
com a sua sina,
eles morrem da prosa mentirosa
que não lhes conhece a dor.
Que não sabe o que é amor
ao próximo.
Olhe nos olhos de quem tem fome.
Eles vomitam a alma,
que já não encontra um lugar
no vácuo do corpo frágil…
A fome dói.
Literalmente.
E muito…
No corpo e no espírito.
Pergunte a quem a tem.
Alimentam-se na fé.
É o que lhes sobra:
uns comem o corpo de cristo,
outros bebem suas palavras.
Como pode multiplicar
o pão,
o vinho,
os peixes,
quem não sabe dividir?
Você comeu hoje?
Eu também.
“Eles” comeram e beberam,
mas não se lembraram da fome, -
este mal necessário
que só entra em pauta
quando faz alguma falta.
Depois…
Este assunto defunto
bem na hora do jantar?…
Ora, pelo amor de Deus!…
(Às vezes me incomoda escrever.
É pouco. É nada.
É o nada que posso fazer.)
ju rigoni (1977)

“Colocando a “panela” no fogo…”, de autoria de Ju Rigoni, is licensed under a href=”http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/”>Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
A reprodução é permitida para fins não comerciais, desde que mencionada a autoria.
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Escrito por ju rigoni

"A Princesa e a Gaivota." Lápis seco e lápis aquarelável.
Melhor que escrever poemas
é ler os grandes poetas
e, do encontro com o perfeito,
ainda que a pena não valha,
pensar seu próprio poema.
Melhor que escrever poemas
é ousar escrevê-los.
Amar o verso maltrapilho
como ao filho que esperneia.
Melhor que escrever poemas
é acreditar que os escreve, -
imaginá-los perfeitos
apesar da imperfeição.
Melhor que escrever poemas
É ser do poeta o tema, -
a musa que inspira a paixão
que em palavras transpira.
Melhor que escrever poemas
é neles se descobrir, -
versos “sujos”, imprecisos,
de mal com a simetria.
Melhor que escrever poemas
é com a sua poesia,
que de tão sua incomoda,
sem fórceps, extrair a crítica
e ter certeza: ainda vivo!
Melhor que escrever poemas
é ter na alma a palavra
e nas mãos papel e pena, -
a árvore ainda semente…
E plantá-la tão somente
porque lhe traz alegrias.
ju rigoni
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Escrito por ju rigoni
Minha casa é meu hiato
entre passado e futuro.
Plural nas memórias,
singular na história.
Fora dela sou reticente…
Dentro sou transparente.
Minha casa é minha verdade,
lá não posso me esconder.
Minha casa é minha alma
com telhado e chaminé.
Descubro-me nela
e admito que minha casa
nunca foi minha, -
que tantos já se foram
e outro tanto ainda vem…
Mas minha casa sou eu:
Portas e janelas abertas
para minhas lembranças.
Minha casa é esperança
com jardim.
Minha casa sou eu
dentro de mim.
Me sabe pela raiz
quem conhece minha casa.
ju rigoni, em nov/2000
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Escrito por ju rigoni

"Líbera." Lápis seco e lápis aquarelável.
Quando penso ser poeta
esqueço o que aprendi.
Não me deixo aprisionar
por rítmo, métrica, rima,
- apenas respiro
em frente ao papel em branco,
e vem o que tem que vir
e é o que deve ser.
Poesia não tem regra.
Nem mesmo é pensamento!
Poesia é um impulso,
- não é cérebro, é alma -,
poesia é um momento
que capturado em papel
almeja a eternidade.
Às vezes flui feito rio
descendo montanha abaixo.
Outras vezes é pororoca,
- onda fora de lugar -,
é o nada, é o tudo,
parmênides e heráclito.
O crítico desavisado
preocupa-se em apreender
o que o poeta despreza:
um escreve por ofício
e o outro por prazer.
Um pela sobrevivência,
e o outro pelo “vício”, -
pelo dom de escrever.
ju rigoni
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Escrito por ju rigoni
A razão… Merda!
Pra que serve
esta bastarda?! -,
cheia de empáfia
e arrogância,
sem emoção,
sem calor…
Às favas a elegância!
ju rigoni
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Escrito por ju rigoni
Liberta,
a prisioneira que me aprisiona
vem por entre os lábios para a luz.
Leve…
Sinuosa…
Sutil…
Poderosa,
quase não a vejo
dançando, assim ante meus olhos cansados,
os nefastos azuis da minha sorte…
ju rigoni
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Escrito por ju rigoni

Chego em casa
e ela corre para mim com os braços abertos.
- Vovó! -, ela exclama.
Além da saudade e das lembranças,
da saúde ora frágil, ora forte,
- dos trecos…
já muito não me sobra da ascendência.
Mas quando em seus três anos de sabedoria,
ela abre os braços e espalma as pequeninas mãos,
sorrindo para esta avó-brinquedo,
é como se todos estivessem de volta.
Ganham nova vida
meu pai, meus avós, meus tios…
E eu ganho vida em vida.
Ouço seus passinhos correndo pela casa,
pelo jardim…
- Não mexa aí, querida!
Qual borboletinha feliz resiste às flores?
Quais cores resistem à luz?
Meu valioso monet,
de cabelos de anjo e único,
traz nele próprio todos os matizes.
Expectante e crente em Deus,
agradeço a ternura,
a delicadeza,
a certeza de que me apago
para escrever melhor história…
Que a memória,
não apenas na palavra,
também está no gesto,
no olhar,
no paladar das receitas de família,
nos cheiros e sons que guarda uma casa,
onde algum dia também ela me reencontrará
para descobrir que a amei
e que nela me refiz,
feliz ,
aprendiz de imortalidade.
ju rigoni (Para Zora, minha neta muito amada.)
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Escrito por ju rigoni

A barca atraca:
os homens correm,
invadem a proa
enquanto a garoa,
singrando o vento,
encharca o tempo
e as pessoas.
(Um homem absorto
vagueia no porto.
Pálido, esquálido,
semi-morto embarca…)
A barca é lenta,
a barca é parca,
prá tanta marca
da gente farta
e sonolenta.
Para um lado, para o outro…
Para cima, para baixo…
Para frente, para trás…
(ai que enjôo!)
A barca joga
com o destino,
feito a bola do menino
sentado e quieto ao meu lado.
Quem lhe ensina o movimento?
A maré, esta sábia
que seca ou enxágua,
e não quer saber
de alegria ou mágoa,
apenas do vento, da lua,
do tempo.
Bendita barca
que leva e traz
esperança, paz,
trabalho, vida.
(O homem absorto
está frio, jaz morto
no vazio da multidão sem pressa.)
Navegar é besteira,
sofrer é asneira,
apesar da manhã,
apesar do amanhã,
apesar da segunda-feira.
ju rigoni, na barca, em jun/79
Imagem obtida em
http://www.uff.br/engenharia/fotos/lista.html
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