Ô… Abre Alas!
Viva o B!,
essa letrinha tão sensual…
Uma viradinha, -
noventa à direita -,
e essa beleza rotunda
lembra a maiúscula bunda.
Lá, no fim do alfabeto,
diante de tal fenômeno,
o ipsilone, sacana,
vira de ponta cabeça.
Que me venha esse B beleza,
com derriére de cabrocha -
e eu vou mostrar o pau
sem matar aquelas cobras
que me chamam de broxa!
Finalmente, algum alívio…
Orgasmo,
ao invés de marasmo.
E no entrevero
do enredo,
mexendo daqui
e dali,
em extremidades opostas,
o gingado que é malícia
revela os melhores passistas.
Inédita coreografia
emprestam ao alfabeto…
Lua e sol,
tentando alcançar
um ao outro…
Sambam as letras,
expondo o coloquial
da língua
universal…
ju rigoni (1997)
Leia também Da Abundância e Sua Apoteose, em Fundo de Mim II.
Amigo(a) Visitante:
Férias + Feriadão = Amigos hospedados em minha casa. Volto a publicar a partir do primeiro domingo após o Carnaval.
Um bom feriado!
Bjs e inté!
Visite Navegando… e Dormentes.
Nó Cego
Certo pensamento
cria pele tão áspera,
tão substantiva,
tão concreta…
Hiperboliza-se,
a ponto de anular pessoas
despronomizando verbos, -
imobilizando-os sob apertados nós
que se pretendem universos…
ju rigoni (2008)
Foto-Arte: Bernardo Castanho
Visite também Fundo de Mim II, Dormentes e Navegando…
Sol em Ré
Quando as bestas se juntam
para avivar as chamas do preconceito
não se reconhecem no animal
irracional…
Nem poderiam!…
Encurralam-se em seus espelhos,
para, em nome de uma pretensa moral
nutrida por seus maus costumes,
tentarem aniquilar
o sentido mais humano
da palavra igual, -
aquele que deveria derramar-se
sobre todos os homens…
O igual que é também o diferente;
ponto de encontro divino,
capaz de transformar em amor
o que deveria ser nada mais
que um significado em oposição,…
um mero antônimo.
Palavras são usadas, sim.
Elas não agem sozinhas.
Há mentes a pensá-las
para todo e qualquer fim.
Mas palavra palavra
não tem preconceito, não.
Têm mais alma
que muitos homens…
Palavra!
ju rigoni (1997)
Amigo(a) Leitor(a),
minha poesia está sob o olhar de Eliane F. C. Lima, do Literatura em Vida 2, Convido você a clicar num dos linques para conhecer o blogue, ler o post e, se desejar, deixar lá o seu comentário. Obrigada! Bjs e inté!
O desatar das exceções…
Para chegar a esta vida
precisei vencer uma grande corrida…
Penetrar um óvulo,
sair de um mundo,
entrar, e adaptar-me a outro,
dividindo-me,
multiplicando-me, -
até estar pronta
para abrir os olhos
à uma primeira luz.
Quando respirei pela primeira vez
já havia cometido muitos atos políticos…
E ao fazê-lo, mergulhei
neste grande repartido
que é o mundo,
para, a partir de mim mesma,
pelo menos tentar,
tomar partido do outro…
Nem bem fui concebida,
e já podia afirmar
que não se vive,
não se existe,
sozinho.
Respirar pela primeira vez
não foi mais difícil
que repartir-me, -
que continuar respirando…
Política, sim.
Não a ignoro.
Não jogo ao lixo
minha capacidade de pensar,
meu direito e dever
de agir para transformar.
Procuro não confundir
política com politicagem,
ou politicalha!
Política está em quase que faço
e que sinto…
Qual ser
humano
é capaz de estar diante da fome,
da guerra, da miséria,
das catástrofes que aniquilam pessoas,
desgraças resultantes
do descaso dos poderosos,
sem reagir, pelo menos…
em pensamento?…
Política!
Ela está em minhas escolhas, -
em meus prazeres e ódios;
na música que aprecio;
em todas as manifestações artísticas,
e no meu olhar sobre elas;
ela está no que desejo àqueles
que ainda estão sobre a linha de partida,
mas que um dia, igualmente,
venceram aquela corrida.
Ela vai à minha mesa,
deita-se à minha cama,
passeia nas linhas e entrelinhas
do que leio e do que escrevo,
está na minha decisão
de sentar-me diante da tela
da tv ou do computador.
E procuro não esquecer:
sou eu quem os liga e desliga, -
sou eu quem dou e retiro
poder.
Já não vivemos no mundo de Platão,
que, em seus discursos de estrutura política,
afirmava que o tamanho certo de uma cidade
poderia ser medido pelo número de pessoas
ao alcance da voz de um orador…
Política…
Afogada num mar de ações
que multiplicam suas definições,
alteram-lhe o estado,
naufraga, sem qualquer socorro,
seu mais humano e belo significado…
ju rigoni (2002)
Foto-Arte: Bernardo Castanho
Visite também
Na Redoma…
Não lhe pergunte
o porquê deste medo;
qual é o segredo
que ele esconde
e nutre tão fortes
e poderosas raízes…
Se ela soubesse,
seria livre.
Como sair de onde
não se sabe
como se entrou?…
Que chave é capaz de abrir
uma porta que não existe?…
ju rigoni (2003)
Foto-Arte: Bernardo Castanho
Visite também Fundo de Mim II, Dormentes e Navegando…
Eu Comigo
Minha casa é meu hiato
entre passado e futuro.
Plural nas memórias,
singular na história.
Fora dela sou reticente…
Dentro, sou transparente.
Minha casa é minha verdade, -
lá, não posso me esconder.
Minha casa é minha alma
com telhado e chaminé.
Descubro-me nela,
e admito que minha casa
nunca foi minha, -
que tantos já se foram,
e outro tanto ainda vem…
Mas, minha casa sou eu:
portas e janelas abertas
para minhas lembranças.
Minha casa é esperança
com jardim.
Minha casa sou eu
dentro de mim.
Me sabe pela raiz
quem conhece a minha casa.
ju rigoni (nov/2000)
Visite também Fundo de Mim II, Dormentes e Navegando…
Velho Ano Novo Velho
A esperança permanece criança.
Ao que parece nunca vai crescer…
Amadurecer,… realizar-se!
Essa criança tem fome.
E a fome a enfraquece.
Vontades não a alimentam.
Não mais!
(Há um quê de utopia
no desejo amanhecido.
Assim,… feito pão dormido.)
ju rigoni (sem registro de data)
Visite também Fundo de Mim II, Dormentes e Navegando…
Re-Partos…
O poeta,
que uns acreditam Deus,
outros, profeta,
revive…
Mas ainda encontra
entre os homens
o mais temível deserto…
Por eles, morreu.
Por eles,
sempre renasce…
Novamente, é perseguido,
xingado…
traído…
São muitos, os Pilatos
a lavarem as mãos
nas águas poluídas
e malcheirosas
dos novos maus tempos.
Outra vez, é açoitado;
com espinhos, coroado.
Sofre…
É crucificado.
(Eles ainda não sabem o que fazem?)
E na hora sexta
morre,
outra vez.
Agora, não uma,
inúmeras lanças atravessam-lhe o corpo.
Ainda não há,
e jamais haverá -,
quem lhe quebre os ossos…
Que homens
eram aqueles?!
Que homens
são esses!?…
Milênios se passaram,
e a pergunta é a mesma:
Que mal ele fez?
Que mal ele faz?…
Nem o tempo
nem o avanço da ciência
amenizaram a violência,
a intolerância do homem, -
menos ainda a culpa que insiste
em pesar nas consciências…
O céu e a terra passarão.
Sua poesia,
nunca.
Jamais.
Não.
Deus ou profeta,
ele é o poeta,
e o poema…
Em qualquer tempo,
a paz ao alcance
da prece.
Alegria dos homens,
merecedores, ou não,
todos os anos,
humilde e pacientemente,
se faz menino
para tentar, novamente,
ensinar a lição
que é emoção,
mas também é razão.
Ele, o caminho.
Ele, a verdade.
Ele, a vida.
Ele, a poesia.
Tratamento
e cura
para todas as feridas…
ju rigoni (sem registro de data)
BOAS FESTAS
E
FELIZ 2010!
Que em 2010 tenhamos a chance de viver num mundo mais solidário, mais humano, mais justo.
Bjs e inté!
Visite também Fundo de Mim II, Dormentes e Navegando…
Insônia
É voz grave e persistente
que atravessa a madrugada
traindo e abstraindo
a solidão da jornada.
A areia é sereia
em grãos.
Quando ele foge,
ela canta
(chiado sedutor, solene,
a reclamar atenção)
e encanta,
trazendo-o de volta.
Temperamental, poderoso,
penetra o meu sono.
Imenso, misterioso,
inunda minhas manhãs…
Tranquilo ou revolto
entoa o mantra azul
que fascina e ensina
que… não!
Nada se repete.
Tão cheio de vida,
tão pleno de morte.
Enchendo e esvaziando,
chegando e partindo…
Por que ele vem?
Por que ele vai?
Esse mar,
testemunha
de histórias,
é História
que alimenta, mata,
molha, resseca
e embala.
Mar…
Ah, mar…
Gigantesco útero
a céu aberto,
capaz de tanta vida
que não vem à luz…
Que poder tem esse som,
esse dom,
esse tom,
esse monstro de sal e água
a enxaguar-nos
da alma o mal?
O sol o ilumina,
a lua o domina,
mas só ao divino se abre…
O homem está lá
a olhar o mar…
A apreender a vida
aprendendo a morte, -
sorte de quem respira,
destino de velho e menino.
(Velho e menino têm sedes,
mas a seda da rede
só pode matar-lhes a fome.)
No olhar… o mar,
esse monte de lágrimas
a inundar o planeta,
a despertar minh’alma.
ju rigoni
Imagem: “Meu mar…” – Óleo sobre tela – Tatiana Pailos
Visite também Fundo de Mim II, Dormentes e Navegando…
Domingo
Olhos perdidos
na linha do horizonte,
vêm-me em ondas
os pensamentos…
Mergulho em ocenos
os meus oceanos…
Respiro o coloquial
da brisa marinha…
Sento-me à areia
branquinha,
e a água alcança-me
os pés…
Beija-os,
lambe-os…
Dúvidas, esperanças,
tormentos,
agradecem o carinho.
Quão sábia é a natureza!…
Minha neta
brinca na areia…
Enche e esvazia
o baldinho…
Constrói, feliz,
seus castelos
que, em algum momento,
a água há de levar…
É só uma criança
aprendendo a vida
diante do mar…
Ah, mar…
Obra divina,
encantadora,
poderosa,
que, em humores
e tamanho,
só comparo
aos meus medos
e aos meus sonhos…
ju rigoni (2004)
Foto Mell
Visite também Fundo de Mim II, Dormentes e Mira na Rede.
No Céu da Memória
Cabelos ralos,
tão branquinhos,
ao vento leve
da noite clara…
Olhos lá em cima,
na lua antiga…
O pescoço dói,
a mente flutua,
o tempo gira
fora do eixo…
Saudades
da dona do dedo
que apontava
o santo e o dragão…
Velho e cansado
o corpo treme,
espreme-se em memórias,…
liquidifica o pensamento
e qualquer palavra
que se diga…
Saudades da dona do dedo
que apontava o caminho…
Quanto mais trêmula a voz
mais bonitas as histórias…
Dias de pura magia…
Céu coalhado de poesia
e ingênua esperança…
Infinitas estrelas…
Quase tantas
quanto os sonhos
de criança…
(Entre um cochilo e outro,
a voz que é estorvo e carinho:
- Vovó! Dormindo de novo?!
- Não! Não estava dormindo!
Só estava recordando…
- Lembrar pode doer, vovó…
- Querida,
já tenho idade para saber
que toda saudade
combina dor e prazer…)
Saudades
da dona do dedo
que apontava o santo,
o dragão,
o caminho…
A lua, as estrelas, o céu,
o jardim…
nunca mais serão os mesmos…
(- Vó, vamos entrar…
A noite está ficando muito fria…)
ju rigoni (2002)
Para Dora, minha inesquecível avó materna.
Visite também Fundo de Mim II, Dormentes e Navegando…
Papas na Língua
Palavras…
Ah! As palavras…
Carícias prévias,
quentes, úmidas, -
tão escorregadias
no ardor da criação…
Aflição legítima
que leva ao gozo,
em momentos diferentes,
vítima e algoz, -
escritor e leitor.
Orgasmos…
Embora o parceiro de espasmos
nunca se está tão só…
ju rigoni (1984)
Foto Mell
Visite também Fundo de Mim II e Dormentes.






















