Fascínio e Pacto

Livro+aberto+e+c%C3%A9u+(LINDO)

Algumas páginas
misturam lágrimas…
Outras… suor, saliva…
Todas têm bordas amassadas,
fustigadas…
O caos em digitais…

Pálido, sebento, enrugado, -
muito mais que personagens,
situações, paisagens  -,
esse senhor guarda o segredo
de um frescor eterno,
inusitado…
Rebento e rebentos
saltam de suas páginas
a ressaltar sentimentos
tão singularmente conquistados…

Emprestá-lo
é emprestar-me…
Desde que o li
(e o reli, reli, reli…)
ele vive em mim;
nunca mais o esqueci.
Mas vou, sim, permitir
que também você o leia…
e misture a tantos outros
o seu dna, -
saliva, suor, lágrimas…
e a mais prazerosa das expectativas…

Outra vez
terei certeza que há mais alguém,
além de mim
e de todos que o leram,
que saberá que esse
não é um livro qualquer…
Há muitas histórias
nessa história única,…
na urdidura de suas linhas
e entrelinhas
que não se revelam
à primeira leitura.

Leia-o, sim. Pense.
Releia-o. Pense…
Só não esqueça
que embora a(s) história(s)
não seja(m) minha(s), -
e ainda que você
reconheça nela(s)
sua própria história -,
o livro pertence a mim.
E, queira ou não queira,
terá que devolvê-lo.

ju rigoni (1992)

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De(se)feito…

O Canto

Escrever-lhe ou não?…
Não sei como
interpretaria minhas palavras…
Está triste…
Experimenta o amargo
da rejeição…

Talvez, procure e encontre
em minhas entrelinhas
o que não existe…
Parco em carnes
e largo em carinhos, -
sempre amigo -,
é o meu ombro…
Mas, o ser humano é estranho…
Sob o véu da depressão
só consegue ver, perceber,
ouvir, acreditar… no não.

Escrever, não escrever…
Mas, talvez, – quem sabe? -
as letras ergam-no da cadeira,
e o conduzam a inúmeras portas
que abrir-se-ão
como aquelas flores
que só se abrem
ao anoitecer…

Na adrenalina da indecisão,
faz-se em mim
o milagre do sim

E minhas palavras correm…
(bilhete de loteria?)
na contramão do tempo
ao encontro do coração ferido.

Foram-se.

Contudo,… nelas ainda penso…
Como e em que dose
ele há de bebê-las?…
Remédio ou veneno?…

Mas já não há lugar
para arrependimento…

ju rigoni
(1998)

Imagem: AquarelaTatiana Pailos

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Da Cor Inexistente…

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Meus olhos negros
são tão azuis quanto os seus, -
olhos da cor do mar,
negros como os meus.

Mas o mar é mesmo azul?
Pergunte ao céu!
Pergunte ao sol!

Minha pele morena
conta histórias de outras peles,
outros ares…
outras terras,
outras línguas…
Aromas, paladares, -
deidades
que na paleta da natureza,
mãe de todas as cores,
comungam a mesma verdade.

Cores…
À luz, revelam-se,
mas em sua ausência
amam-se, -
unem-se em emoção única.

Meu sangue é brasileiro,
libanês, italiano, africano,
português, boliviano,
francês, japonês…
Meu sangue é só isto…
Só sangue!

Palavras
dão nome à cor sim.
Mas palavras
não têm cor, não.
Palavras são
como deveriam ser
todos os homens
que insistem em dar cor,
números, fronteiras
a palavras e Homem.

Minha cor
é fruto da árvore
- ora amor, ora libido -
que cresce em tantas outras…
Florestas que se plantam
não apenas em camas,
ou em chamas ardentes
que, indiferentes,
aquecem e deitam ao chão
tantas questões à mesa.
Florestas também semeadas,
paridas,
no leito do preconceito.

De um modo ou de outro,
florestas que multiplicam-se
ininterruptamente…

Minha cor
é a cor do mundo.
Minha cor
e todas as cores
que a ignorância,
travestida em poder,
transforma em arma cruel
para distinguir seres humanos
de seres humanos.

Cor,
como a alma
e o amor ao próximo,
é lição
da qual o homem apropriou-se,
mas não aprendeu.

Nos livros da vida,
mais que nos da escola, -
mais ignota que desconhecida,
a aula de Transparência.

ju rigoni (1985)

Imagem obtida AQUI.

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Mistérios…

special

O mistério é a magia
que mantem vivo o defunto, -
o assunto das entrelinhas.

O mistério é o impulso
que leva ao jornaleiro,
à livraria, ao blogueiro
e, a bem da verdade,
ao médico e à farmácia.

Bem-vindos os véus, -
todos eles.
Bem-vindo o fel do mistério.
Da inteligência… o mel.

Quem não respira mistérios
em vida jaz…
Sozinho… Morto!

ju rigoni (sem registro de data)

Foto-Arte Bernardo Castanho.

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Um Certo Cinza…

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Dias nublados, chuvosos, frios,
são grandes desafios…
Nublam-se as cores,
os ódios, os amores…
Nubla-se o conhecimento,
nubla-se o pensamento…

Em dias assim,
é preciso driblar a preguiça, -
é mais difícil levantar-se da cama,
encarar a si mesmo,
erguer o corpo para enfrentar a vida, -
caminhar na corda-bamba…

Toda dor parece mais intensa
nestes dias de gargarejo
Dias de pisar o chão com cuidado, -
evitar a sujeira dos respingos…

Em dias nublados, chuvosos, frios…
Não se deve chorar,
porque as lágrimas vêm em rios
que não se pode atravessar…

Em dias nublados, chuvosos,
e tão frios,
só um desejo arde…
Que haja sol no dia seguinte…

ju rigoni (Anos 70)

Foto Mell

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De Lírios Em Brotação…

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Ah, como é bom
deitar no chão
e olhar as nuvens
a passear no céu…
Desenhar no azul
o que se deseja…
E quando sozinhos,
inventar amigos para conversar…
Olhar horas e horas a fio
o vôo dos passarinhos
e acreditar que um dia
também poderá voar…
Imaginar um futuro
e ter certeza que assim será…
Ver o feijão brotar
do caroço no algodão molhado…
Aprender a ler, a nadar,
a andar de bicicleta…
Sem que ninguém saiba,
vencer os degraus da escada
a escorregar pelo corrimão…
Subir em árvores,
cair, ralar o joelho…
Falar tudo que pensa
e ficar de castigo para aprender
que não se pode dizer
tudo que vem à cabeça…

No Natal,
sentar-se à mesa farta
e depois da ceia,
entre abraços e beijos,
abrir os presentes
ao pé da árvore…

Ter muitos amigos para brincar,
muitos sonhos para sonhar…
Descobrir a beleza nas coisas simples, -
nas frutas maduras a colorir o outono,
nas folhas caídas a rodopiar no chão
ao sopro da canção do vento,
no encanto do arco-íris,
na relva molhada a brilhar sob o sol,
no descascar o tronco da goiabeira,
no piscar do vagalume, (uma estrela que voa!),
no castelo de areia que a onda leva para o mar,
no banho de rio, de cachoeira,
nos raios que acendem o céu zangado
e anunciam a bronca da trovoada…
Ah, como é bom…

Quando toda criança
puder ter boas lembranças;
quando toda criança
puder sentar-se à mesa
com a família,
para comer e beber;
quando toda criança
tiver o que vestir, o que calçar;
quando toda criança do mundo
puder ir à escola,
e brincar, e sonhar,
e ter o direito de imaginar que o mundo é bom…
eu já não estarei por aqui.

Mas, o que conta foi semeado
ao longo do caminho, -
filha, neta, sobrinhos;
e o desejo… que toda criança
tenha as mesmas oportunidades,
e o mesmo quinhão de amor e carinho.

Para respirar,
preciso libertar a criança que mora em mim, -
acreditar
que esse dia há de chegar…

ju rigoni (2002)

Imagem: Lápis de Cor – Tatiana Pailos

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Asas No Chão

Pena(foto Chris Collins)

Asas No Chão

Os anos passam
e cresce a certeza:
tudo é sentimento.

A vida está quase sempre
ao alcance…
Mas os versos do dia-a-dia
são tomados de assalto
por palavras estranhas…
Sem qualquer poesia.

Os anos passam
e cresce a consciência:
tudo é dependência.

Significados conhecidos
fogem do apelo da palavra
como da cabeça o cabelo.
Às vezes o não é sim…
De outras vezes o sim é não…

A gente nasce leão
e morre tão passarinho…

ju rigoni (2001)

Foto: Chris Collins

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A Espera

interrogacao-detalhe

Ele está em todo lugar.
Mas não onde deveria estar…

É um fato curioso
esse desaparecer
que, às vezes,
torna alguém famoso…

Desaparecer…
Aparecer…
Deve haver aí,
entre uma e outra palavra,
uma terceira
que também desapareceu.
Pois, como dois significantes
podem ser tão insignificantes
em seus inerentes significados
diante das autoridades?…

Felizmente, entre antônimos,
há sempre um anônimo, -
o sujeito que pratica a ação
sem demora.

A mãe que procura o filho.
O filho que procura o irmão.
O irmão que procura o pai.
O pai que procura o primo.
O primo que procura o amigo.
O amigo que procura a esposa.
A esposa que procura o tio,
que procura… que procura…
Que procura!…

E nada!

Só a esperança,
companheira de fé
das horas difíceis da vida,
e essa angústia…

Os dias… noites são.
Não há manhãs, amanhãs, -
auroras, alvoreceres…
A dor não conhece o sol!

- A qualquer momento…

Há amigos e parentes,
e gente que nunca se viu,
ecumênica reunião
em conexão com o impossível…

Há nefastas transparências,
e uma ausência que grita
- Presente!,
enquanto o tempo passa…

Há sons, -
melhor não existissem
essas palavras
que não se quer ouvir
nem em pensamentos…

Não se come,
não se dorme,
não se trabalha,
não se respira
na reflexão,
no “se”…

E se isso?…
E se aquilo?…
Comeu? Bebeu?
Chorou? Dormiu?…

O que pode estar fazendo agora?
Oh, meu Deus!
Oh, meu Deus!
Oh, meu Deus!
Está sendo maltratado?…

Está vivo? Morreu?…

Há dores de um lado
e de outro…
E, ao meio, outras dores,
que grudam no peito…
O medo, na madrugada,
insone…
velando o telefone.

Na moldura, o retrato
sob o vidro
que a mãe,
olhos marejados,
cuidadosamente limpou.
E o medo insano
do que vem
por detrás da notícia:
- Acabou!

ju rigoni (1996)

Imagem:  “Dúvida”  (detalhe)  -  Lápis seco e lápis aquarelável.

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