A Hora

I

Ela venceu a corrida da vida.
E ao vencê-la destruiu todos os adversários.
Ela entrou, ou metade dela,
no óvulo macio que lhe permitiria A viagem.

Por que ela venceu?
Como foi que conseguiu isto?
Nunca foi de vencer nada nem ninguém!…
Provavelmente seus adversários
eram todos uns incapazes…

Um dia, mergulhada no lago
de águas mornas, viu a luz.
Era um ponto pequenino
que ia crescendo, crescendo
e, num repente,
banhava-se nela.

Mal a enxergara
e estava cheia de perguntas
cujas respostas vagam pela eternidade.
Sabia que não haveria tempo suficiente
para desvendar tanto mistério…

Nem bem chegara
e já trilhava o caminho de volta.

A mãe-palavra permitia-lhe o mínimo:
farejar…
Perceber que nascer,
ler,
morrer,
é uma peça em três atos
tão solitários!…
Nunca se está tão sozinho
ainda que haja uma multidão ao redor.

II

Eu sei que nasci para viver a minha vida.
Que leio para viver e morrer outras vidas.
E que, em algum momento, eu também vou morrer,
mergulhar na escuridão, no vazio, no nada, -
no mistério em que, para resistir, procuro não pensar,
fingir que não existe.

O amanhã é sempre fera desconhecida
que é preciso domar no dia de hoje.

Temo o que não conheço.
Tenho medo dela sim!
Não sei como me revelará sua face.
Não sei se haverá dor, consciência, -
sofrimento.

Já vi como é,
mas não sei como é.

Ela já esteve pertinho de mim
para levar outra pessoa.
E nenhuma palavra, -
nem a poderosa palavra -,
foi capaz de afastar a feiticeira.
Maldita feiticeira
a quem só podemos assistir…
Impotentes.

Provavelmente ela me sorriu
e eu nem vi,
apavorada que estava.

Não quero pensar.
Mas como não pensar
no que há de mais certo na vida?
Como aceitar esta certeza
que é minha e de todos os seres humanos?

Viver é tão bom…
Eu adoro!

Aproxima-se o dia seguinte
no qual não estarei.
Cada dia é menos um dia.
Cada dia pode ser o último.

Não quero pensar.
Mas penso!
Logo o barqueiro
me estenderá sua mão.

Quando o fizer
ainda estarei cheia de dúvidas
e não me será dado escolher.
Terei que navegar o negro e gelado mar, -
os olhos no cais que se afasta
fixos na mesma luz
na qual um dia mergulhei
que, então, rapidamente multiplicar-se-á
em milhares, miúdos e negros sóis
para em seguida
apagar-se completamente.

ju rigoni

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