Colocando a “panela” no fogo…

Fome não é só uma palavra.
Fome não é só um nome.
Fome é O não.
Fome é O zero -
uma letra vazia,
um número ôco.
À esquerda. Não à direita,
como o fado do Estado.
Letra e número repletos do espaço,
que o estômago de quem tem fome
já não reconhece.
Porque a fome o estreita
como um abraço…
Às avessas.

Enquanto alimento meu verso
com a sua sina,
eles morrem da prosa mentirosa
que não lhes conhece a dor.
Que não sabe o que é amor
ao próximo.

Olhe nos olhos de quem tem fome.
Eles vomitam a alma,
que já não encontra um lugar
no vácuo do corpo frágil…

A fome dói.
Literalmente.
E muito…
No corpo e no espírito.
Pergunte a quem a tem.

Alimentam-se na fé.
É o que lhes sobra:
uns comem o corpo de cristo,
outros bebem suas palavras.

Como pode multiplicar
o pão,
o vinho,
os peixes,
quem não sabe dividir?

Você comeu hoje?
Eu também.

“Eles” comeram e beberam,
mas não se lembraram da fome, -
este mal necessário
que só entra em pauta
quando faz alguma falta.

Depois…
Este assunto defunto
bem na hora do jantar?…
Ora, pelo amor de Deus!…

(Às vezes me incomoda escrever.
É pouco. É nada.
É o nada que posso fazer.)

ju rigoni (1977)

N. A. – Este texto está protegido pelas Leis de Direitos Autorais e sua reprodução é permitida (para fins não comerciais) desde que mencionada a autoria.


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  1. . às 16:56 | #1

    Oi querida,
    Só hoje estou podendo retribuir sua visita.
    E que bom poder concer um belo espaço desse.
    A fome de comida ou de sentimentos dói demais, uma acaba com o corpo fisico e a outra com o espiritual. Mas, ambas estão ligadas e precisam ser saciadas. É lamentável que tantos morram de fome.
    E há tanto desperdício não é?
    Um beijo e uma ótima semana!!!

  2. . às 6:27 | #2

    Ju

    Esse poema e essa foto doem no coração da gente. Pior é que já vi isso de perto, quando tenho que abordar algum paciente em crise (lido com pacientes psiquiátricos) e ao chegar na casa deles, a miséria é a primeira que me recebe.
    Beijos.

  3. . às 15:20 | #3

    Fortemente real em cada verso…
    Onde se perde o lirismo na realidade que nos quebra…

    Belo post, ótima semana dona moça.

    :*

  4. . às 20:31 | #4

    Ju

    Belo e triste retrato da vida a rir da impotência dos bons. A inspiração não mora ao lado. Ele fez ninho bem no centro da sua alma.
    Deus a proteja e a faça feliz

    Octávio Caumo Serrano

  5. Enio Xavier
    . às 3:52 | #5

    Adorei seu poema!!,
    transmite verdadeiramente a gravidade desse problema global, que Deus console o coração de todos para ajudar os povos famintos por uma ajuda qualquer

  6. . às 21:32 | #6

    Seu poema é “maravilhoso”. Tem a beleza que só a poesia consegue extrair mesmo das coisas mais tristes como a fome. Não importa a linguagem. O mínimo que podemos fazer é falar, mesmo que seja para nós mesmos, pois não temos a veleidade de achar que alguém leia ou se toque com isso, mas, é um alivio, um lenitivo para quem o faz. Tenho alguns blogs, e a fome tem sido um tema recorrente em meus textos, mesmo que a sensação, também, recorrente é de que só os meus ”ouvidos” e a minha alma ouvem.

  7. . às 1:22 | #7

    Desde que me lembre ser alguém que a minha mãe me vem dizendo: “Nunca deites comida ao lixo!” Se sobrou do almoço, aquece-se para o jantar.
    Sofro com as crianças da Etiópia e com esses casos que ainda à pouco passaram na televisão de pais que matavam os filhos à fome de prepósito… sim, há pessoas que dizem-se seres humanos que fazem isso.
    Enfim… com muito tristeza, despeço-me com um enorme beijo

  8. . às 20:06 | #8

    Patabéns pelo blog! É excelente!

    Bjuuu e boa quinta pra ti.

  9. . às 21:45 | #9

    Oi Ju

    Dei uma passadinha para ler suas belezas sábias e profundas.
    Como sempre, retiro-me encantado.
    A verdade, mesmo em poesia, é muito dolorosa. E se a fome do corpo dói, a fome da alma mata!!!!
    Mas vamos em frente.
    Beijo

    Octávio Caúmo Serrano

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