Bem-Me-Vi
O pensamento nublado,
o espírito encharcado…
A chuva cai com força
aqui, dentro de mim;
aqui, onde não me conheço;
aqui, onde tudo é segredo…
Mas, lá fora, o vento é brando,
e esta manhã tão azul
não combina com meu pranto.
Tento me abandonar,
sair de dentro de mim,
e caminho devagar,
bem devagarzinho,
para não espantar
esse passarinho
que parece fazer ninho
na árvore que eu plantei.
“Bem-te-vi”, ele revela.
Bem-me-viu esse amiguinho
que decide ser vizinho
num momento tão difícil…
Sento-me ao chão da varanda
olhando para o jardim
e pra esse bichinho tão frágil,
de corpo tão delicado,
de canto tão encantado,
que quase me rouba um sorriso!
Meu Deus! Como posso eu,
em meio à tamanha tristeza,
vislumbrar suavidade,
descobrir tanta beleza?…
Como ouso render-me
ao hiato inevitável
que ao meu pai aponta o chão
e a mim a minha árvore
plena de vida com asas?…
Tudo que me consome,
tudo que me corrói,
em beleza ou fúria,
sabe de cor a natureza.
Eu só sei do mistério.
Eu só sei do que eu não sei…
E eu não sei do nunca mais.
Este céu,
este gorjeio,
as ondas quebrando mansinho,
sem parar,
sem parar,
sem parar…
De janeiro a dezembro
aquele novembro que, eu sei!, voltará…
Pé-ante-pé… Levezinho,
como as folhas dançam na brisa.
A saudade é passarinho
fazendo ninho
na minha ibirapitanga…
ju rigoni (Para Amyl, meu pai. 1913-2001)
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Adorei!! Lindos versos… Este particularmente me encantou….
“Meu Deus Com posso eu
em meio à tanta tristeza,
vislumbrar suavidade,
descobrir tanta beleza.”
PArabéns!
Adorei Ju! É assim que eu gosto, blogs com autoria.
Valeu
Abs.