Parábolas

mell6

Quarenta dias no deserto
e ei-lo desperto,
mas ainda ao chão.

Levanta-te e anda! -
ordena o poeta ao poema…
E a palavra se cumpre.

Infinitos poemas
em um só.

Num mesmo poema,
o poema do poeta
e o poema
que o leitor interpreta.

Num mesmo poema
universos estranhos
ao seu autor…
e tão íntimos
do mais íntimo
de cada leitor…

O autor lambe
e libera a cria
e o leitor a recria -
somando poesia
a poesia.

Um poema
é pão e é vinho, -
é milagre da multiplicação,
o milagre dos milagres.

O autor de um poema
é papel em seu papel.
Ferramenta que desperta
inconscientes poetas
sob um conhecimento
formal ou mutilado,
ou, na falta deles, na agonia
do parco entendimento…
na simplicidade de um saber
que é pura emoção.

Ao escrever um poema
o poeta comete o pecado
da sedução, -
conduzir o leitor
para dentro de si mesmo
a desvendar,
revelar
sua própria e latente poesia.

Poemas não têm asas,
poemas são asas…
De grande envergadura.
Revestidas das penas da liberdade…
de interpretação, -
vôos
acima, abaixo, ou ao nível
da intenção do autor
de um poema.

Um poema é sol
a lançar sua luz
em maior ou menor intensidade.
É possível sabê-lo
sem sequer olhar para ele.
É possível tê-lo diante dos olhos
e não vê-lo.

Poemas não são bons filhos, -
à casa jamais tornarão.
Não como dela saíram…

Já não sabe o poeta
por onde anda o poema…
aquele poema…
o seu poema…
o poema que escreveu.

Atingido
por uma, dez, mil…
experiências diferentes -
desavisadamente poéticas -,
perdeu-se
onde devem perder-se
todos os poemas
do mundo…

Levanta-te
e anda!

ju rigoni (1992)      

Foto Mell

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  1. . às 15:32 | #1

    Ju, bom dia!

    Em seu belo poema você diz…

    “O autor lambe
    e libera a cria
    e o leitor a recria -
    somando poesia
    a poesia.”

    Sempre pensei isso. Pra mim, metade do poema é o que está escrito e a outra metade é a interpretação do leitor. E o leitor acrescenta, redimensiona o poema, conforme sua carga cultural e emotiva. Tem leitor que descobre facetas numa poesia, que nem o autor sabia que havia. Isso é maravilhoso.

    E você, como sempre, surpreendendo e encantando.

    Grande abraço, Poetisa!

  2. . às 0:31 | #2

    Ju, é tarefa por demais ardua não desejar sentir seus poemas, comê-los.
    Caramba, esse então!!!

    Talvez o que mais me identifiquei, até agora… coisa de descompasso de coração.

    Que o poeta supremo possa, no renovar das misericórdias, te encobrir de versos, versos e mais versos.

    bjsssssss

  3. . às 1:12 | #3

    Realmente fico encantada com sua poesia, sua maneira clara de dizer em versos sentimentos tão diversos. Não me cansarei de repetir isso.
    Levantou-se e andou, e vai comigo numa pedaço dessa estrada.
    ABÇão.
    Margareth Duval

  4. Samantha
    . às 2:39 | #4

    Nossa Ju…
    sem fôlego eu estou diante de suas palavras… sábias palavras.. DOM DE DEUS.
    Um poema é tudo mesmo, é pão, é vinho, é luz, é sol, é filho… enfim…
    Qdo eu crescer e for gente grande, quero escrever que nem vc amiga hehehehe
    beijão

    PS.: tenho acompanhado o Metáforas, mas não consigo postar meu comentário lá :(

  5. . às 7:44 | #5

    É verdade, Ju. Por onde andam os poemas perdidos? Criaram asas para nos encontrar e nos encantar. Adorei o poema! Beijos pra ti.

  6. . às 7:45 | #6

    Ah, esqueci de dizer: linda a fotografia da Mell!

  7. . às 15:17 | #7

    Talvez eu esteja sensivel hj, ou talvez esse seja uns dos poemas mais lindos que já li! A obra do poeta, o maior de todos os poetas, o criador de todos os poetas…. linda homenagem! Parabéns! Bjus

  8. . às 3:12 | #8

    Querida Ju, cheguei aqui para agradecer tua visita e tuas palavras, e encontro “Parábolas”, essa beleza de poema, no qual nem sei bem se me encontrei ou se me perdi… Dizer o quê?! Já disseste tudo que poderia ser dito… Parabéns, minha amiga, aplaudo de pé!
    Grande abraço.
    Bjs.

  9. Samantha
    . às 22:37 | #9

    Oiê…
    dei uma sumidinha, mais to de volta
    Passa lá no blog amiga… tem MEME pra ocê de novo tá rsrsrs
    beijão

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