Alguma Verdade

O pior cego é mesmo aquele que olha... e não vê.
As águias,
sorrateiras,
voltam a sair do ninho.
Pesadas penas
que deitam ao chão
parentes e amigos…
É um som estranho,
grave,
tenebroso,
o dessa ave de rapina.
Este não é o melhor lugar
para a música,
mas é a nota improvisada,
quase um falsete,
o lembrete amigo
que conduz ao abrigo…
É o que está escrito, em árabe,
na recém-chegada mensagem
do filho, um maestro,
agora desbatutado,
apresentado a outra música.
Caneta, lágrimas, medo -
a mãe fere o papel em branco
sem saber se a missiva,
a salvo alcançará o seu alvo…
E o tempo passa
em compasso de eternidade…
Dúvidas a demolir súplicas
em meio ao murmurar de orações…
Que poder teriam suas preces
contra teclas, botões, gatilhos,
capazes de, a um simples toque,
aniquilar crianças!.. mulheres… civis…
inclusive seu amado filho?…
- Guerra desdruir ôdra vez
gasa nôzo vamília.
Mundo zoldado, mundo guerrilha.
Nôzo vida zer zembre o mesma…
Zerá minha bôvo non der baz?
Uma carta, outra mais,
e ela chora, ora,
invoca aflita…
- Zalva, zenhor, a minha vilho!
Zalva o gende do meu derra!
Bor gue den existir guerra?…
O coração… calor e frio…
amor e dor…
E mãos preparando a comida,
o prato predileto, -
olfato e paladar
levam-na para mais perto…
Mas, as cartas
já não vêm…
A teia do poder
não encontra haver
na mulher simples,
nascida e criada
na pequena aldeia…
a léguas e léguas daqui,
e que, ferida na alma,
sucumbe
a um infarto fulminante.
Distante do front,
tão longe da sua terra,
morre na mesma guerra…
Como entender o que é calma,
tranquilidade, -
e até mesmo tédio… -
quando se nasce
em certos países
do Oriente Médio?…
Quando se tem
a desconfortável primazia, -
“abençoados” pela proximidade,
ou por sentar-se sobre reservas de energia -,
de estar à mercê
da mais cruel tecnologia?…
Cristãos ortodoxos, judeus,
maronitas, muçulmanos sunitas,
xiitas, drusos…
Diferentes crenças… etnias…
Pessoas… Seres humanos…
Indivíduos…
mais confusos do que crentes
no conflito de interesses
que ultrapassa oceanos…
Que mãe palestina, israelense,
libanesa, iraniana.
curda, iraquiana…
não anseia pela paz?
Todas as mães
do mundo árabe
oram, ainda esperançosas,
por essa dádiva
escorregadia.
A sina de muitas
é gerar filhos
que, dia a dia,
de um modo ou de outro,
conviverão com armas…
Filhos sobreviventes
de uma infância doente,
que nem bem adolescem
e logo estão a lutar
por muito menos
do que pensam lutar;
por muito menos
que uma terra
para chamar de lar;
por muito menos
que defender
um chão
que todos os lados
acreditam seu…
Por muito menos
que palavras, -
sagradas? -
há milênios rabiscadas.
Líbano, Israel,
Iraque, Palestina…
nada além de peças
de um jogo,
onde cada movimento
é alimento,
não apenas de indústrias
e interesses ocidentais,
mas… do poder, das fortunas pessoais
de lideranças locais
engordadas a cada guerra…
Por um lado, doações
de nações irmãs e simpatizantes,
Por outro, países arrogantes,
que abrem-se em vantagens
para manter vivo o conflito…
Há muito mais de um hitler
em toda essa história…
Nada é
o que aparenta…
De um lado e de outro,
soldados, pobres coitados!,
que pensam lutar
pelas mesmas causas
dos seus generais…
Radicalismos fundamentalistas,
fanáticos, homens-bomba,
crianças em armas?…
Existem sim.
O terror vende jornais,
catapulta audiências, -
mantem vivo
o que deve morrer.
Acomoda o mundo ocidental à cama
ou ao sofá da sala,
bem em frente ao ostracismo,
à luz e ao som da inércia…
Conta com as bocas da ignorância
para mirar e lançar ao alvo
os mais poderosos mísseis
que se conhece…
O pior cego
é mesmo aquele que olha
e não vê…
(À família paterna e amigos
espalhados pelo mundo árabe.)
ju rigoni (sem registro de data)
Visite também
Fundo de Mim II, Dormentes e Navegando…











Lamento o holocausto palestino.
Sem palavras…
Ju, vim comunicar que tem selinho pra vc lá no blog amiga.
FELIZ ANO NOVO!!!!
beijão
Olá Ju. Saudade de você.
Espero que o final de ano tenha sido de paz e saúde.
Poucas vezes deixamos que nossa alma realmente se aprofunde em alguma coisa. Poucas vezes a deixamos mergulhar seja no mar de corais, seja no mar de lama.
Mas você… Você consegue levar minha alma ao profundo.
Um E-NOR-ME BJo.
Que o ano, iniciado entre tiros e crises, seja mais doce ao se desenrolar, um papiro onde as letras não sejam gravadas a fogo, ferro e sangue, mas à harmonia, paz e saúde.
Margareth
Ju, que triste esta guerra. Aliás, todas as guerras são lamentáveis. Linda homenagem que fizeste!
Bom, vim atrasada (férias provoca isso), mas te desejo tudo de bom neste 2009, qu ele te traga muitas novidades e alegrias, sem guerras e sem tristezas!
Beijos.
JU
bastante comovente o seu poema desabafo, deste mundo conturbado, insano, onde os valores andas esvanecidos.
bjs.
JU Gioli
Quando era criança um dos meus tios disse-me:
“Onde pensas que é o inferno? Debaixo do chão?? Não! O Inferno é aqui na Terra.”
Acho que tem razão…