Anatomia de uma saudade…

Eu não era apenas eu…
Conhecê-lo revelou-me outras tantas…
Multipliquei-me
para além do improvável,
e em meio
aos antônimos anônimos
perdi-me, feliz,
nos heterônimos de mim.
Hoje, acordei-me
uma delas…
Aquela para quem,
sem você,
tudo é falta…
Preciso saber-me,
dizer-me a que vim…
reencontrar-me…
Não há fim
que justifique o meio
que o conduziu
ao maior dos mistérios…
Estamos,
eu e todas as outras
que moram em mim,
mais sozinhas
do que jamais estivemos…
Ainda vivo
(eu e elas)
sob o circunflexo
da sua proteção.
Quantas de minhas letras
poderiam se haver
sem os seus agudos acentos?…
Língua sem sal…
Eis o que sou
sem você, -
sem o bem
que é o mal…
sem o mal
que é o bem
da minha vida…
Sobra-me o tempo
e seu passar
arrogante, pleno, poderoso, -
no cultivo da saudade
o mais amoroso dos amantes…
Sempre escrevemos juntos.
Eu, no papel…
Ele, em meu rosto.
Não posso avaliar
quem de nós mais se atreve,
mas asseguro
que suas linhas
não são como as minhas,…
não são fáceis de apagar.
Linhas retas, curvas, tortas,
que em verdade
são tão suas quanto minhas,-
são eu e você,
as nossas lembranças…
Ah, não tenha ciúmes
de um amor metrificado
em horas, meses, anos…
Quanto mais o tempo avança
mais nos aproximamos…
Em tudo que ele em mim escreve,
sua ausência é a marca mais presente.
Meu amor por você
foi e continua sendo
a grande procura
por mim mesma, -
meu maior achado!
Meu amor por você
é a única marca da minha vida
que não merece ser apagada…
É o sulco profundo
no qual vivo mergulhada…
para, ainda agora,
olhos fechados,
senti-lo mais perto…
e novamente experimentar
ser muitas,
ser todas numa só.
Meu amor por você
é o sim ao desconhecido,
é o não à estética,
ao padrão,
do que se acredita amor.
Memórias…
providência
e reencontro,
linhas vivas da emoção
nas entrelinhas
da razão,
que insiste no papel
de fiel escudeira
da morte…
Mas eu sou as tantas
que você
ensinou-me a ser,
e estamos todas
onde você está…
Fomos,
somos
e seremos,
doa a quem doer,
eternamente um.
E nenhum ciúme,
nenhum despeito,
nenhuma vingança,
nenhum Direito, -
ninguém…
nada, -
nem o abraço
cada vez mais apertado
do tempo,
nem o beijo gelado
da cruel feiticeira
conseguirão apagar.
ju rigoni (1991)
Foto Mell, em Metáforas…
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nem me fale em saudades, em memorias, estou muito sensivel a isso ultimamente, achei simplesmente perfeito isso tudo que vc escreveu…
estava com saudades.
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