A Síndrome

Tudo o que se sabe é que a criança ligava a televisão todos os dias de manhã.

Luisinho lançou sobre as costas a toalha de banho azul, segurou-lhe as pontas e subiu no parapeito da janela do 23º andar. Embora as grades, as pessoas dos prédios em frente, – as primeiras a vê-lo lá em cima -, ficaram desesperadas. A mãe, cuja insônia já desenhara no rosto linhas que ela alegremente dispensaria, dormia sob o efeito de um barbitúrico de última geração. Hoje não era dia de faxina. E a avó de Luisinho saíra cedo para transferir do inss para a sua conta o benefício do mês.

As pessoas gritavam, pediam para o menino descer da janela, choravam, e já muitas estavam ao telefone, a ligar inclusive para a casa de Luisinho. Não podiam imaginar que, esquecida que a avó do menino não estaria em casa pela manhã, a mãe, na ânsia de algumas horas a mais de sono, colocara a campainha do telefone no “mínimo”.

Luisinho, de pé sobre o parapeito, tendo a frente apenas as grades de alumínio a conter-lhe a queda, parecia alheio a tudo. Levantava os braços a imitar os heróis preferidos e abria a capa-toalha como se a qualquer momento pudesse, finalmente, lançar-se ao vôo não menos heróico que a imaginação infantil parecia recomendar-lhe.

Durante meia hora olhava-se para ele e via-se o filho, o sobrinho, o neto, o irmão mais novo, – via-se o ente querido por um fio.

De repente… Luisinho parecia ter-se dado conta do obstáculo que a grade representava e, em sua inocência, ora a agarrava sacudindo-a, ora empurrava-a espremendo o corpo contra ela.

Já havia pessoas socando a porta do apartamento, tocando a campainha, chamando pelo interfone, mas Luisinho não se desviava da rota da sua imaginação. Não haveria turbulência em seu vôo de super-herói. Sua mãe finalmente dormia o tal sono dos anjos com o qual tanto sonhara.

Só a televisão continuava ligada.

ju rigoni (Anos 90)

Foto obtida em http://info.abril.com.br/dicas/telas/260_tomada2.jpg

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