Escândalo
Ele a apertou entre os braços. Em seguida, desceu devagar as mãos até os lindos joelhos e tocou-os de leve para logo, logo, ir subindo, ainda mais lentamente, pelas coxas rijas e bem torneadas, – os dedos experientes providenciando uma leve pressão aqui e ali-, enquanto, rosto no rosto, deliciava-se com o arfar da linda mulher. Ela, pura entrega. Olhos semicerrados, gemidos suaves, sem os arroubos excessivos aos quais estava habituado, parecia estar em Vênus, – ela mesma uma Vênus -, e tal era o prazer que nem mesmo preocupava-se em devolvê-lo ao parceiro. Ao investigá-la com os dedos descobriu-lhe um clitóris rijo e quente banhado em espera. Agora os gemidos eram mais intensos, mais sentidos, e ele teve certeza que era hora de sentir-lhe o gosto, devolvê-la às estrelas. Lambeu-lhe os lábios, sugou-lhe a ponta da orelha quente, que recendia a alfazema, e foi descendo bem devagar até os deliciosos seios em formato de pêra e com aréolas enormes que insistiam em convidar sua boca ardente. Ah, como seguir caminho? Chupou, lambeu, amassou e meteu-se entre aqueles peitos divinos. Mas ela não agüentava mais, – agora parecia ter pressa -, e fazia ligeira pressão para baixo em sua cabeça indicando-lhe a rota do paraíso. Ele adorava isso. Era um momento em que seu poder sobre ela soava inquestionável. Ela o queria. Desejava-o. Ansiosa, girou o corpo rapidamente e ele sentiu sua boca engolindo-lhe o pênis. Precisava resistir porque à sua frente, lindo, quente e úmido havia um clitóris a sugar e uma vagina a penetrar, primeiro com língua, nariz e dedos, depois… Não poderia ser com o que sobrasse do trabalho muito bem feito que ela estava conseguindo com língua e boca… Bem, uma coisa de cada vez, pensou, e entreabriu ligeiramente os lábios colocando entre eles o petisco gostoso e capaz de levar a parceira às nuvens. Esta imediatamente abandonou-lhe o falo para sentir com mais intensidade o carinho. Respirava forte, contorcia-se, delirando mansamente de prazer. Aos gemidos juntavam-se palavras sem afinidade com a consciência. Os verbos eram todos conjugados no imperativo. E as exclamações dividiam-se entre “ai!”, “ui!, que gostoso!” e “aí, bem aí…”, “ai, que delícia!”, “aqui, ó… assim…”
- AVE MARIA!!!
A voz da beata ecoou por toda a sacristia.
Do sessenta e nove ao onze foi um pulo.
- O senhor pode me explicar o que é que está acontecendo aqui???
O padre, ainda sob o efeito do vinho e do cheiro de sexo que exalava da mulher e lhe impregnava corpo e alma, tentava manter-se firme, de pé, enquanto ela buscava as roupas para se vestir. Em frente a ele, com olhos esbugalhados, Dodinha, a beata mais famosa da cidade, e Chico, o coroinha que, nesse momento, exibia a cara mais decepcionada que Padre Salvatore jamais vira.
Dodinha também nunca vira um “membro masculino” assim, tão de perto, ao vivo e em cores, – embora nesse exato momento parecesse mais caidinho do que imaginara.
- Padre! Não posso acreditar no que meus olhos vêem… – dizia ela num infinito benzer-se.
- Ma o guê zês dá vazendo agui êza hora?… Zês non viu nada, en!?… Zês zonhando, en!?… Ma che!?… Ninguém va agredita en vozês, en?…
- Quem diria?… E a senhora, hein dona Ercília?… Seu marido sabe disso?
- Non enje zago dona ezila, en?…
A mulher já totalmente vestida sinaliza que está de saída.
- Vá gon Deus, dona Ezila!
- Mas que cara de pau! Como é que ainda fala em Deus?… – reclama a beata.
Dona Ercília vira-se para sair, não sem antes olhar a carola e o coroinha com o furor da fêmea insatisfeita. O padre sacode as mãos continuamente como a dizer “vai, vai, saia logo para evitar maiores problemas!”
- Todo mundo vai saber disso, viu Padre? Eu mesma vou-me encarregar de contar a cada cristão desta cidade. Ora, onde já se viu?… O padre e a mulher do prefeito…
- Dona Dodinha non va dizê nada.
E Dodinha, já de saída:
- Aaaah, vai se vestir, vai… -, e mastigando cada sílaba: Sa-fa-do!
Padre Salvatore, ainda um tanto cambaleante, reúne a roupa espalhada pelo chão enquanto Chico continua parado, como que petrificado.
- Êeeee… Gue gui voi, en? Non va enbora dambén?…
- Eu te odeio! Você me traiu. E com aquela mulher ridícula…
- Vá, vá, Gico! Eu zó domê um bôco de vino alén da conta… Non vigue azi… Zabe gomo ê…
O episódio é o maior escândalo já registrado na história da cidadezinha do interior fluminense. Os paroquianos revoltados fizeram tal movimento que derrubaram o prefeito que, por sua vez, acabou abandonando a mulher. Chico, o coroinha, enforcou-se amarrando uma corda ao gigantesco badalo do sino da igreja e deixando uma carta aberta a população, onde explicava como Salvatore o iniciara nos jogos amorosos.
Alguns anos depois, Ercília virou dona de bordel em uma outra cidade para onde, por coincidência, Padre Salvatore foi transferido depois de quase ser excomungado.
O nome do novo coroinha é Neco. O prefeito é viúvo e… engraçado – as mulheres de lá não são muito carolas não!…
ju rigoni (1999)
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