Na Casa de Noca
Tião sobe de três em três os degraus, esculpidos no barro, até alcançar o portãozinho vermelho da casa de Noca. Ainda ofega quando atravessa a sala, o pequeno corredor que dá para dois quartos e a porta da cozinha, aberta para uma outra escada. Novamente engole os degraus com as pernas.
Lá em cima, na laje da casa de favela, o pagode corre solto.
Tião segura a barra da camiseta puxando-a para cima e livra-se dela rapidamente exibindo o corpo negro, suado, malhado em diferentes canteiros de obras.
Violões, cavaquinhos, pandeiros, latas de cerveja cheias de arroz, cuícas, caixinhas de fósforos, unem-se para garantir rítmo cadenciado a um grupo de mulheres que gingam naquele passinho manemolente, gostoso, que mexe harmoniosamente com todo o corpo…
“Vou apertar,
mas não vou acender agora..
Vou apertar,
mas não vou acender agora…” *
Sobre a mesa comprida, improvisada com tábuas de andaime, aipim e batata fritos, garrafas de cerveja, e copos, muitos copos, dividem espaço com celulares, munição, armas de vários calibres e um sem-número de papelotes e trouxinhas que serão entregues em domicílio mais tarde. Bebe-se muito. Mas ninguém faz uso das drogas.
As casas vizinhas, todas de portas e janelas fechadas, contrastam com o sorriso escancarado dos participantes da alegre reunião, – uma festa de aniversário para comemorar os três anos de idade da filha do chefe. A menina – linda! – está sentada sobre a mesa, amparada pela mãe. Bem ao lado daquele incrível arsenal obtido no mercado negro. Ri e canta feliz, totalmente alheia aos significados que a rodeiam. Embora a festa seja para ela, não há qualquer outra criança à vista.
Tião descobre Rita em meio à mulherada. Abre caminho e puxa-a pelo braço. A negra bonita, cheia de curvas libidinosas, parece irritada.
- Vê se me erra, Tião! Já disse que tô em outra…
- Nêêêga! Não me provoca… Não quero saber de você rebolando no meio dessas aí, tá ligado?
- Aaah, me larga! Pra você ninguém presta!…
- Nêêêga…
Rita lhe dá as costas e recomeça o mexe-mexe, – a bunda saliente, um convite ao olhar. Vez por outra espalma as mãos sobre os quadris como a exigir atenção e, sempre dançando, desce até o chão. Ao subir, no compasso da música, e ainda de costas para Tião, inclina o corpo para a frente e, com as mãos sobre os joelhos, parece ressaltar ainda mais as fartas nádegas. Imediatamente Tião abaixa-se para enlaçar a cintura da moça, cobrindo com o próprio corpo o objeto de cobiça, – os lábios alcançando as orelhas de Rita:
- Mulher, você me deixa doido…
Ela ri, desvencilha-se dele, ergue os braços, gira a cabeça para um lado, para o outro, e reinicia o ritual sedutor. Muitos outros olhos estão sobre os predicados de Rita. Com todo respeito! Olhar não tira pedaço e, aqui, há códigos rígidos a serem observados.
De repente, a música pára.
- Aaaaaaaaah! -, fazem todos. Mas a esposa do chefe, arrancada da família aos quatorze anos, quando Noca se apaixonou por ela, já está no alto da escada que dá acesso à laje com um bolo nas mãos. A aniversariante, ainda sentada ao lado das armas, e agora amparada por uma tia, bate palminhas, sorrindo.
O pai levanta-se e o convite mais parece uma ordem:
- Vamos cantar o parabéns!
Obedientes, todos circundam imediatamente a mesa onde está sendo colocado o bolo. Alguém pede um isqueiro para acender a velinha, mas… Não há tempo. Um primeiro rojão risca o céu, seguido de outro, e mais outro…
- OS ÔMI TÃO SUBINO… -, berra Tião já de olho nas lentes de um binóculo.
A maioria das mulheres desce afoita a escada. A criança, agora ao colo da mãe que busca um abrigo, chora inconsolável:
- Não vai ter parabéns, papai?
Mas Noca tem outras preocupações… Armas e munições já não estão sobre a mesa, mas nas mãos de homens, mulheres, – incluindo Rita -, e pré-adolescentes que se preparam para mais uma batalha. Alguns se benzem. Outros beijam medalhinhas que pendem de cordões. Outros ainda riem excitados como se a festa estivesse começando agora.
Rita nem parece a mesma mulher, – com a metralhadora pendurada num dos ombros e duas pistolas enfiadas no duplo coldre que, em diagonal, lhe atravessa o belo colo.
Já entrincheirada, procura os olhos de Tião. Ela sabe que este pode ter sido o último pagode…
* Malandragem, dá um tempo – Bezerra da Silva
ju rigoni (2002)
Foto: Bernardo Castanho
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mais um conto perfeito! Adoro estes teus contos, não sei o que eles tem de tão especial que quase que fico obececada por eles quando os leio.
Parabéns e quando editares um livro avisa, quero um!!
Oi, Ju, passei aqui rapidinho só para deixar um abraço, mas não resisti e, apesar da pressa, acabei lendo teu conto todinho! Ah, minha querida, se eu escrevesse como tu, ia acabar ficando com o bumbum quadrado, pois passaria o tempo todo sentada, escrevendo… Ando numa baita correria, início de fevereiro vou me submeter a uma cirurgia e terei de ficar um bom tempo “de molho”, em recuperação, assim, toca correr agora para deixar minha vida organizada o máximo possível para os próximos dois meses. Grande abraço. Tudo de bom.
Beijos.
Eloah
eu sou sua fã incondicional, mais uma vez um belo conto!
Bonita narrativa.
A transfiguração das personagens soa a real.
Parabéns e um beijo,
Milouska
humm quanto tempo né querida, acho que eu sumi do mapa…
mais hj eu estou passando para avisar que tem selo para vc lá no meu blog, depois passo para ler o post
beijãoo
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Hi friend I have added your link to mine…. please add my blog’s thanks..
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Hoping a reply from you friend..
Ju, parece um filme… Gosto como vc passeia em todos os temas, em todas as suas indagações, sempre transformando yma coisa noutra.