O Caso do Pinto

Em frente ao supermercado, o homem tem uma caixa de papelão sobre um caixote. Minha filha, 3 anos de idade, enlouquece, – a tal caixa está cheia de pintinhos.  Imediatamente ela conjuga aquele verbo.

- Não inventa, Mell.  Eu não vou comprar pinto nenhum.  Era só o que me faltava…  Criar pinto!

- Buááááááááááá! – começa o show.

Há muita gente passando e por conta dos safanões que ela dá em meu braço insistindo para que eu compre o bichinho, minha bolsa cai ao chão totalmente aberta. Fico abaixada por cerca de um minuto, um minuto e meio, catando os pertences que se espalharam pela movimentada calçada.

Ao me empertigar novamente, percebo feliz que Mell parou de chorar. Mas, ao olhar para o rosto do vendedor e das pessoas a nossa volta, noto que alguma coisa está errada. Sigo então a direção dos olhares, cujo destino é a linda mãozinha de minha filha e… quase desmaio.

- Mell, você esmigalhou o pinto!!!

Ela, sem noção de sua própria força, – sem entender muito porque aquele “brinquedo” desmilingüira-se assim, com tanta facilidade -, voltava a berrar. Agora chorava o choro da desaprovação e do desconforto da mão suja e pegajosa.

Uma alma caridosa ajuda-me a conduzir minha filha (em verdade me conduz também: eu estava verde!) até o banheiro do um supermercado próximo. Enquanto esse anjo sem asas lava (“com muito sabão, hein?”) as mãos da minha inocente filhinha, eu vomito sem parar.

Ah, que coisa maravilhosa são as crianças…

ju rigoni (1983)

Imagem obtida AQUI.

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