Ô Cliente Difícil!…

(ou Haja Paciência!…)

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Minha amiga trabalha numa agência de publicidade de médio porte. Adorei nosso último encontro. Especialmente quando ela, entre a diversão e o desânimo, contou-me sua  saga com alguns dos clientes cujas contas estão sob sua responsabilidade no que se refere ao atendimento. Divido com o leitor uma tentativa de reprodução do que ouvi sobre um cliente (que ela chama) de primeira viagem porque nunca havia investido em publicidade. Os nomes foram alterados, e alguns detalhes omitidos,  para evitar problemas para a minha amiga.

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- Não, não gostei desse outdoor, não!…

- Sr. João, o que o desagrada na peça?

- Olha, Luísa, acho que precisa ser mais picante, para chamar a atenção… Talvez, fosse interessante colocar uma modelo, ou uma atriz, – não importa quanto vai-me custar -, com um biquini bem pequenininho, – desses que entram no rabo… Aí sim, todo mundo iria olhar…

- Sr. João, nós estamos preparando uma campanha para vender
apartamentos!…

- É, mas o negócio hoje é mulher pelada, entendeu?…

- Nós não estamos vendendo biquinis, ou revistas masculinas…

- Mulher pelada vende qualquer coisa, Luísa!

- Sr. João, perdoe-me, mas este é um conceito equivocado… Nós estamos vendendo apartamentos. E num outdoor, num busdoor, é preciso exercer a síntese, a objetividade… Dar o recado rapidamente. O cérebro tem poucos segundos para processar a informação…

- Não há cérebro que resista a uma bela bunda!…

- Sr. João, se fizermos do jeito que o senhor está sugerindo, as pessoas muito provavelmente não vão ver a marca da sua empresa, muito menos preocuparem-se em reter qualquer outra informação por mais objetiva que seja… E ainda que estejam parados diante do outdoor, tudo que irão lembrar-se depois é da tal mulher pelada… Pense bem!…

- Lá isso é verdade… Quem consegue esquecer uma bela bunda?…

- Além disso, a campanha não é direcionada somente ao público masculino… Mulheres também compram apartamentos! Talvez sintam-se agredidas diante de uma imagem assim…

- Tá! Tá bom! Você já me convenceu. Que a agência ponha no tal outdoor a imagem que achar melhor… Mas tá faltando muita informação aí, sabe?… É preciso colocar mais detalhes, explicar tudo direitinho…

- Sr. João, conforme já lhe disse, um outdoor é uma peça singular… Não é possível colocar ali muita informação… Seria um investimento inútil… Imagine!… Se eu pedir ao pessoal da criação para inserir no outdoor todas as informações que o senhor sugere… Vamos pensar juntos?… O cliente potencial está passando por uma estrada a 80 quilômetros por hora… Está lá, ouvindo uma musiquinha, conversando com a esposa,…

- Com a amante!

- …ou com os filhos quando, de repente, percebe aquela peça enorme, com uma bela imagem e cheinha de informações que já-já, assim que ele entrar na próxima curva, vão sair do seu campo visual… Sr. João, para que ele tomasse conhecimento de tanta informação, teria que parar o carro, saltar, quem sabe tirar uma cadeira de praia do porta-malas e sentar-se para ler…

- Aaaah, entendi! Eu nunca havia pensado assim…

- Pois é, seu João! O senhor está pagando a agência para pensar em tudo…

- Lá isso é verdade!…

- Então, o outdoor está resolvido?!

- Tudo bem…

- Vamos passar à próxima peça…

Veja! O anúncio vai ficar assim…

- Está bonito, Luísa, mas eu acho que estas informações aqui poderiam ser colocadas em outro lugar…

- Sr. João, provavelmente o pessoal da criação posicionou-as aí para reforçar a assimilação…

- Ah, vocês são cheios de histórias!…

- Sr. João, quando se está folheando  páginas de jornal ou revista, o olho humano bate primeiro no canto superior direito da página.

- Depende! Ponha lá uma bela bunda e vamos ver aonde vai bater o tal olho…

- Sr. João, já falamos sobre isto… E, acredite, toda esta campanha foi criada por pessoas com muita competência, muita responsabilidade,  muita preocupação com o retorno do seu investimento…

- Bem, pelo menos hoje mandaram-me um alguém do Atendimento que não está falando aquela língua que eu não consigo compreender…

- Podemos passar à outra peça da campanha, sr. João?…

ju rigoni (1992)

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