Perfume de Mulher
Helga entrou no aerobarco e sentou-se à janela. Ao seu lado havia dois lugares vagos.
O da ponta estava sendo ocupado por um senhor alto, de cabelos grisalhos, mas nem bem sentou-se e uma mulher que parecia ter uns trinta anos, – saltos altos, blazer sobre camiseta e jeans -, apontou-lhe o assento do meio. O homem poderia ter passado para a cadeira ao lado de Helga, mas preferiu levantar-se e esperar que a desconhecida lá se acomodasse para sentar-se no lugar originalmente escolhido.
Tudo não passaria de uma cena absolutamente comum naquela sexta-feira não fosse o perfume fortíssimo que exalava da tal passageira. Helga tentou distrair-se com a paisagem mas, droga!, esquecera e sentara-se no lado oposto àquele em que as janelas da embarcação servem de moldura para o Pão de Açúcar, o Corcovado, o Aeroporto Santos Dumont, a Escola Naval… O jeito era contentar-se com a visão da ponte Rio-Niterói.
O aerobarco já estava a meio caminho do ancoradouro da Praça XV, navegando na altura do vão central da Ponte, quando Helga percebeu que alguma coisa não ia bem com sua cabeça, seu estômago, o ritmo de sua respiração…
Disfarçou e apertou o nariz procurando respirar pela boca para tentar neutralizar a terrível reação que o perfume da tal mulher, sentada ao seu lado, estava lhe causando. Mas só piorou. Quando olhou pela janela novamente viu a histórica Ilha Fiscal começando a apontar na paisagem, que agora estava cheia de minúsculos pontinhos pretos que iam se fechando
gradativamente… De repente, a escuridão.
O mal-estar de Helga não passou despercebido, e foi a estranha do perfume quem deu o alarme:
- Acho que a moça aqui desmaiou…
Segurou-lhe a bolsa, a pasta de documentos, e passou um braço ao redor de sua cabeça, acreditando que isso lhe traria algum conforto.
Helga, – coitada! -, não poderia recobrar os sentidos. Sua glote estava se fechando cada vez mais por conta daquela “inofensiva” fragrância.
Quando o barco atracou, o passageiro sentado na extremidade prontificou-se a desembarcá-la, levando-a em seu colo. A mulher, então, entregou os pertences de Helga ao comandante e foi embora.
Lá fora, a brisa marinha permitiu que Helga, pouco a pouco, voltasse a si. Uma médica, surgida de não se sabe onde, parou para tomar conhecimento do que estava acontecendo e prestar socorro.
- Está se sentindo melhor? O que houve?
- Ainda não sei muito bem… Isto nunca aconteceu comigo! Acho que foi por causa do perfume de uma mulher que sentou-se ao meu lado…
- Pode ser… Você tem algum tipo de alergia?
- Não que eu saiba…
- Conte-me o que aconteceu.
- Eu senti aquele cheiro forte e fiquei zonza… Minha cabeça começou a rodar e a doer. E tive fortes náuseas. De repente, senti como se alguma coisa me fechasse a garganta e não vi mais nada.
- Olha, eu a aconselho a procurar o seu médico. Acredito que você tenha desenvolvido uma alergia a perfumes, ou a algum de seus componentes. Para uma primeira reação acho que foi muito violenta. Eu diria que você teve sorte. Mais algum tempo junto da tal passageira e as conseqüências poderiam ter sido muito mais sérias.
- O que você quer dizer com “muito mais sérias”?…
- Alguns casos, por causa da ação sobre a epiglote, terminam em óbito.
Assustada com a revelação, e ainda meio tonta, mas já de pé, Helga pegou a bolsa e a pasta e tomou o caminho do trabalho prometendo a si mesma nunca mais sentar-se à janela de qualquer meio de transporte, a não ser que estivesse com algum conhecido.
Atravessou o Paço Imperial e entrou pela Avenida Sete de Setembro procurando manter o máximo de distância possível de qualquer pessoa. À noite, ao telefone, depois de me contar o ocorrido, disse que estava com falta de ar porque, apavorada, passara o dia prendendo a respiração toda vez que alguém se aproximava.
Alguns dias depois seu médico confirmou a reação alégica a um certo fixador utilizado na fabricação de perfumes franceses.
Uu-lah-lah!
ju rigoni (sem registro de data)
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