Bundalelê
No ônibus ou no trem lotados,
o trabalhador apertado
entre dores
e outros trabalhadores,
divide com motorista,
trocador, vendedor, balconista,
costureira, boy, faxineira,
o espanto da lavadeira
que nunca lavou dinheiro.
Mas a falta de vergonha
é mancha que não se lava,
nem se leva impunemente.
Nem se leva impunemente?!…
- Quanto milhão, companheiro!
Haja cueca! Haja mala! Haja dízimo!
Haja otário para tanto salafrário!!
Todos choram
a falta de sorte de acertar.
Todos coram o vermelho
pleno do cyan das idéias mortas…
Zeferinos, gonzagões, zés, marias e joões –
todos calam seus triângulos,
cerrando, da sanfona, o fole
das certezas e senões.
Mas também tem mauricinhos
e patricinhas perfumosos
chorando em cores e ao vivo
pelo mesmo motivo.
Puxa! Que evolução!
“Poetas, seresteiros, namorados, correi”…
Que todos nós,
(todos voz),
cravamos errado
e estamos escrevendo
da direita para a esquerda,
rebolando ao centro,
sem saber para onde ir…
Por sorte,
“Deixaram-nos as palavras.”*
ju rigoni
* “Saímos perdendo… Saímos ganhando…
Levaram o ouro e nos deixaram o ouro…
Levaram tudo e nos deixaram tudo…
Deixaram-nos as palavras.”
(Pablo Neruda)
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