Pensamentos Lipoaspirados

A métrica da estética
compõe com a ética eloqüente
do seu desejo.
Diz a mídia que é assim
que você deve ser;
que é essa a aparência
que você quer ter.
Corpo sem a essência da alma.
Alma sem a decência
de um corpo singular,
feio ou bonito,
que faça por merecê-la.
Esse olhar oriental,
meio rasgado,
involuntariamente semicerrado,
Não é seu.
Esse seio empinado
que a paixão toca
e suga plena de tesão…
Não é seu.
Essa boca que ri
sem expressão, sem vontade,
sem os parênteses da idade…
Não é sua.
Essa bunda gostosa,
firme à cadência do passo,
pedindo o toque de mãos…
Não é sua.
Esse nariz arrebitado
no rosto recém-reformado,
quase clonado…
Não é seu.
Nem são seus as panturrilhas,
as ancas e as orelhas,
os tornozelos gordinhos,
mãos, coxas e sobrancelhas.
A quem pertencem… Não importa.
São belos
como pode ser bela a utopia.
No rito da beleza
o medo da morte
em vida.
No mito da beleza
necessária é a fé
na morte da saudade
de quem realmente se é.
No mito da beleza,
a certeza de que, finalmente,
seremos todos iguais
perante os deuses
e os homens.
ju rigoni (set/2000)
Foto Mell
N.A. – Estou republicando o conteúdo deste blogue.
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