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Insônia

12/12/2009 2 comentários

É voz grave e persistente
que atravessa a madrugada
traindo e abstraindo
a solidão da jornada.

A areia é sereia
em grãos.
Quando ele foge,
ela canta
o chiado encanto,
e… ei-lo de volta.

Temperamental, poderoso,
sem pudor, penetra o meu sono.
Imenso, voluptuoso,
é gozo nas minhas manhãs…
Tranquilo ou revolto
entoa o mantra azul
que fascina e ensina
que… não!
Nada se repete.

Tão cheio de vida,
tão pleno de morte.
Enchendo e esvaziando,
chegando e partindo…
Por que ele vem?
Por que ele vai?…

Esse mar,
testemunha de histórias,
é História que alimenta,
mata,
molha,
resseca,
embala.

Mar…
Ah, mar…
Gigantesco útero a céu aberto,
capaz de tanta vida
que não vem à luz…

Que poder tem esse som,
esse tom tão grave, -
essa voz em sal e água
a espantar o sono
acordando sonhos…

O sol o ilumina,
a lua o domina,
mas só ao divino se abre…

O princípio é mar,…
e o homem, fascinado,
a atravessar o verbo
sonhando com o outro lado;
a entender a vida
aprendendo a morte, -
sorte de quem respira,
destino de velho e menino.

(Velho e menino têm sedes,
mas não é de seda a rede
que pode matar-lhes as fomes…)

Mar…
Ah, mar…

Sob quartos crescentes
de luas insones
flutuam seus humores;
sal, pimenta, algum açúcar, -
calmarias e tormentas -,
sabores ao gosto
das almas despertas
dos poetas,
seus mais insaciáveis amantes;
seus eternos navegadores…

Mar,
ah, mar…

ju rigoni (1999)

Imagem: “Meu mar…” – Óleo sobre tela – Tatiana Pailos

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