A Revolução dos Pontinhos
Todo poema,
toda prosa, -
toda palavra
pode nelas se esconder.
Quantas vezes o amor,
o ódio, a inveja,
a retórica mentirosa,
a ansiada promessa,
fazem delas a sua morada?
Dúvidas de toda sorte,
reminiscências, angústias,
e até a vida e a morte.
O sinal que hoje doma
amanhã atiça a fera…
Eternamente grávidas,
gestam pensamentos e emoções
ora interrompidos, ora omitidos,
sugeridos, insinuados… embriões.
Pontos bem nutridos,
gordinhos de mistérios…
Pontinhos bandidos, safados,
amigos na exceção,
inimigos da censura,
capazes do tudo e do nada, -
a bomba que lançada ao texto
pode arrasar amizade,
amor, família, nação…
é deus na reconstrução.
Vigiai, pois!…
Que os três inofensivos pontinhos,
que lembram os três macaquinhos,
tão sutis, tão delicados,
tão bonitinhos, assim, lado a lado,
e sem qualquer movimento,
vão da ternura à amargura,
do não à revolução,
da dor à felicidade,
em tenaz velocidade
camicases que são.
- Antes reticências
que um ponto final!
Será?…
Os pontos que guardam palavras
também guardam todos os pontos…
ju rigoni (1977)
Foto Mell, em Metáforas…
A Revolução dos Pontinhos foi publicada também no “Compartilhando as Letras”. Obrigada, Sonia!.
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