Reflexos

Técnica Mista - Tatiana Pailos
Seu espelho é cruel
como uma criança…
Só diz a verdade.
Ela acende as luzes
e encosta o rosto
para enxergar melhor.
Toda vez que está diante dele
é assim: um susto.
“Deus, como envelheci!…“
Depois… o surto.
“Não, esta não sou eu!…“
Rímel, delineador, sombras, batom -
armas para abrir um caminho
que a leve até aqueloutra,
que ainda mora nela.
É preciso pintar
e encorpar cílios,
sobrancelhas,
refazer o contorno dos lábios…
Escurecer
para reduzir pálpebras…
Disfarçar as marcas do tempo!
E ela diz: Oh!, -
faz biquinhos,
estica-e-puxa
em busca da musculatura
de outrora.
E assim,
meio olho,
meia boca,
tudo ao meio
e abaixo, -
um poço de imperfeições -,
vive o seu circo particular.
Não pode deixar de rir…
Lá está ela,
por detrás de um rosto
que não é o dela.
Pincéis, espátulas, esponjas…
(Toda mulher nasce artista plástica?…)
Trabalho pronto,
sua face é no máximo
uma paleta muito usada, -
jamais uma obra de arte.
(Respeitável público:
vem aí a alegria,
a apreensão,
o medo,
a graça,
a beleza,
a surpresa,
a ilusão,
a destreza.
O vôo,
a dança,
o humor,
as artes
do impossível…
…e uma platéia
que se compraz
em aplaudir
a si mesma…)
Mas, – veja só, que ironia! -
por dentro,
é ainda aquela menina de tranças,
tão cheia de idéias,
de esperanças…
E o inimigo
a apresentar-lhe,
todos os dias,
a mulher que desconhece…
A campainha…
Ela corre à porta
como quem precisa de ar…
- Amiga, que saudade!
Tantos abraços…
“Eu ainda sou ela.” – pensa
diante de olhares
que vêem além de qualquer espelho…
E uma brisa suave, -
um sopro de felicidade -,
vai levando para longe
a angústia da ausência do viço, -
disso que, atrevida,
ironicamente,
chamam melhor idade…
(Para Carla)
ju rigoni
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