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Posts Tagged ‘Problemas Sociais’

Amanhã… Quem sabe?…

02/05/2009 10 comentários

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Café sem leite,
pão sem manteiga…
A certeza cai da mesa
com as migalhas…
A mulher tenta varrer
a tristeza de não saber
se amanhã haverá o que comer…

Marido sem trabalho,
crianças sem escola…
Ela sabe o que é viver
de esperas e esperanças
travestidas em bênçãos, -
dívidas que a transformam
em credora de si mesma.

Aluguel, luz, água,
gás, comida…
Melhor seria esquecer
para não adoecer.

No posto de saúde,
ou no hospital do estado,
ainda que se madrugue
e se obtenha uma senha,
não existem garantias…
Mais fácil falar com Jesus, -
o que ela faz todo dia.
E de que adiantaria
avistar-se com o doutor
se a farmácia popular
nunca tem os remédios
que ele vai receitar?…

Mal de pobre é curado
com erva plantada em quintal:
cidreira, capim-limão,
boldo, arruda, quebra-pedra,
erva-de-santa luzia,
erva-de-santa maria,
erva-de-são-joão…
e toda e qualquer plantinha
que sirva a uma boa mezinha
e amenize a sua sina.

Faz-se o que se pode, -
uma ou outra faxina…
Se a patroa de ocasião -
“muito boa pessoa” -
livra-se da tranqueira,
volta com a bolsa cheia…
Roupas desbotadas,
brinquedos quebrados, -
jornais velhos, sapatos furados,
pão dormido, copos de geléia…
vazios.

Bem, pelo menos ela tem
onde servir a mágoa…
digo, uma água…
Se o cavalo é dado
não se olha os dentes!

Melhor esquecer o bolso
e enriquecer a fé, -
não esquecer de levar
o dízimo à igreja, -
àquele pregador,
que alimenta com palavras
muito bem temperadas,
o rebanho tosquiado,
e já prometeu trabalho,
se eleito deputado.

Água, fubá, sal,
e a velha colher de pau, -
a mulher prepara o almoço
cansada de saber
que todo angú,
ralo ou grosso,
por mais que se saiba mexer,
sempre guarda algum caroço…

É bem assim, à noite,
quando ela vai para a cama,
e o marido chateado, -
o dia todinho deitado -
reclama, pede um chamego…
Precisa de algum exercício…
É hora de mostrar serviço,
precisa provar que é macho!

E ela a chorar baixinho,
quando ele, aliviado,
dorme o sono pesado…
Não tem com quem dividir
tanto desasossego!
Talvez, amanhã, – quem sabe? -,
ele consiga outro emprego…

Nem bem o dia desponta,
os olhos muito vermelhos,
inchados de tanta tristeza,
pensa, desanimada,
no que levar à mesa.

Levanta-se,
destranca a tramela,
abre a janela,
mergulha no azul
e, por um momento,
entrega-se, indefesa,
à calma dessa manhã.

Crianças de pé,
…enfrentar a lida!…
Há pão dormido,
aipim do quintal,
cozido com sal,
mas… sem açúcar,
como servir o café?

Ao amargo da vida
resta a tal doce esperança…
Força para seguir adiante,
energia para enfrentar
mais um dia.

Esperar, esperar…
Viver mais um hoje
como se ontem fosse…

ju rigoni (sem registro de data)

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Conto de Fodas

09/07/2008 4 comentários
"Fome" - Lápis seco e lápis aquarelável.

"Fome" - Lápis seco e lápis aquarelável.

(“…delas é o reino dos Céus!”)

Carvoarias, canaviais,
lixões, olarias, puteiros…
Crianças escravas
dos escravos do dinheiro.

- Vai drops?
- Biscoito de vento?
- Compra, moço?… Pr’ajudar!

Há vida debaixo da ponte,
nas ruas, nos sinais de trânsito,
nos becos… Sem saída!

Fuzis, metralhadoras,
revólveres, granadas,
adrenalina… Sina.

Avião, vaporzinho,
ventinho… Asas nos pés.
E mãozinha esperta
que aperta o gatilho.
Molecada de recados, -
de morte anunciada.

Escudos
cegos, surdos e mudos
nos currais do poder
que não faz o dever de casa.

Reboco, barro, capim,
lixo, cacto,
fome negra.

Cascas de tudo,
farinha de resto, de folhas, -
misturinhas da miséria
com a falta de vergonha
para embotar a fome:
quem sabe dar-lhe outro nome?…

Mastigam e engolem piedade.
O Estado é caviar, -
nunca lhe sentem o gosto!
A não ser quando transgridem
para matar o que as mata.

ju rigoni em set/1998

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Fundo de Mim II, Dormentes, Medo de Avião e Navegando…

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