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Alguma Verdade

05/01/2009 8 comentários
O pior cego é mesmo aquele que olha... e não vê.

O pior cego é mesmo aquele que olha... e não vê.

As águias,
sorrateiras,
voltam a sair do ninho.
Pesadas penas
que deitam ao chão
parentes e amigos…

É um som estranho,
grave,
tenebroso,
o dessa ave de rapina.

Este não é o melhor lugar
para a música,
mas é a nota improvisada,
quase um falsete,
o lembrete amigo
que conduz ao abrigo…

É o que está escrito, em árabe,
na recém-chegada mensagem
do filho, um maestro,
agora desbatutado,
apresentado a outra música.

Caneta, lágrimas, medo -
a mãe fere o papel em branco
sem saber se a missiva,
a salvo alcançará o seu alvo…

E o tempo passa
em compasso de eternidade…
Dúvidas a demolir súplicas
em meio ao murmurar de orações…

Que poder teriam suas preces
contra teclas, botões, gatilhos,
capazes de, a um simples toque,
aniquilar crianças!.. mulheres… civis…
inclusive seu amado filho?…

- Guerra desdruir ôdra vez
casa nôzo vamília.
Mundo zoldado, mundo guerrilha.
Nôzo vida zer zembre o mesma…
Zerá minha bôvo non der baz?

Uma carta, outra mais,
e ela chora, ora,
invoca aflita…

- Zalva, zenhor, a minha vilho!
Zalva o gende do meu derra!
Bor gue den existir guerra?…

O coração… calor e frio…
amor e dor…
E mãos preparando a comida,
o prato predileto, -
olfato e paladar
levam-na para mais perto…

Mas, as cartas já não vêm…

A teia do poder
não encontra haver
na mulher simples,
nascida e criada
na pequena aldeia…
a léguas e léguas daqui,
e que, ferida na alma,
parte
num infarto fulminante.

Distante do front,
tão longe da sua terra,
morre na mesma guerra…

O que é tédio, – o que é calma -,
quando se nasce
em certos países do Oriente Médio?…

Quando se tem
a desconfortável primazia, -
“abençoados” pela proximidade
de grandes reservas de energia -,
de estar à mercê
da mais cruel tecnologia?…

Diferentes crenças,… etnias…
Pessoas… Seres humanos…
Indivíduos
mais confusos do que crentes
no conflito de interesses
que ultrapassa oceanos…

Que mãe não anseia pela paz?
Qual mãe não ora,
esperançosa,
por essa dádiva escorregadia.
A sina de muitas é gerar filhos
que, dia a dia,
de um modo ou de outro,
conviverão com armas…
Filhos sobreviventes
de uma infância doente,
que nem bem adolescem
e logo estão a lutar
por muito menos do que pensam lutar;
por muito menos que uma terra
para chamar de lar;
por muito menos que defender um chão
que todos os lados acreditam seu…
Por muito menos que palavras, -
sagradas? -
há milênios rabiscadas.

Líbano, Israel, Iraque, Palestina…
nada além de peças de um jogo,
onde cada movimento é alimento,
não apenas de indústrias e interesses ocidentais,
mas… ainda,
das fortunas pessoais de lideranças locais
engordadas a cada guerra…
Por um lado, doações
de nações irmãs e simpatizantes,
Por outro, países arrogantes,
que abrem-se em vantagens
para manter vivo o conflito…

Nada é o que aparenta…
De um lado e de outro,
soldados, pobres coitados!,
que pensam lutar
pelas mesmas causas
dos seus generais.

Radicalismos fundamentalistas,
fanáticos, homens-bomba,
crianças em armas?…
Existem sim.
O terror vende jornais,
catapulta audiências, -
mantem vivo o que deve morrer.
Acomoda o mundo ocidental à cama
ou ao sofá da sala,
bem em frente ao ostracismo,
à luz e ao som da inércia…
Conta com as bocas da ignorância
para mirar e lançar ao alvo
os mais poderosos mísseis
que se conhece…

O pior cego
é mesmo aquele que olha
e não vê…

(À família paterna e amigos
espalhados pelo mundo árabe.)


ju rigoni (sem registro de data)

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