Travessia

A barca atraca,
os homens correm,
invadem a proa,
enquanto a garoa
singrando o vento,
encharca o tempo
e as pessoas.
(Um homem
vagueia no porto.
Pálido, esquálido,
semimorto, embarca…)
A barca é lenta,
a barca é parca,
pra tanta marca
da gente farta
e sonolenta.
Para um lado, para o outro…
Para cima, para baixo…
Para frente, para trás…
(Ai, que enjôo!…)
A barca joga
com o destino,
feito a bola do menino
sentado e quieto ao meu lado.
Quem lhe ensina o movimento?
A maré, esta sábia
que seca ou enxágua,
e não quer saber
de alegria ou mágoa,
apenas do vento, da lua,
do tempo.
Bendita barca
que leva e traz
esperança, paz,
trabalho, vida.
Maldita barca
Que traz e leva
desdita, dor,
desespero, morte.
(O homem do porto
está frio, jaz morto
na manhã de segunda-feira….
no vazio da multidão sem pressa.)
ju rigoni (na barca, jun/79)
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