Da Serpente Interior…

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Havia algo de muito especial naquela mulher. Fragilidade, talvez… Uma reserva qualquer, que não se podia decifrar. As mãos, assim, à distância, pareciam ter dedos longos e finos, como as de um pianista, – e, naquele exato momento, estavam uma sobre a outra protegendo do sol os olhos que ele nunca soube se azuis, castanhos, pretos, verdes ou amarelos… Os traços delicados no rosto bonito que admitia os quarenta anos… Ah! Isso dava para perceber. O tecido leve dos vestidos que usava, como o desta tarde, – rosa-pêssego -, de linhas soltas, dançando com a brisa e revelando as curvas do corpo. Perfeitas.

Quem a visse assim, olhando o mar, os cabelos negros, longos e aparentemente muito finos, ondulando ao vento, provavelmente sentiria vontade de eternizá-la em verso, em prosa, em música… Festa divina para a alma admirá-la em contraponto com as maravilhas que a natureza dedicou ao lugarejo. Santa contemplação! A dela e a de quem a contemplava.

Quem seria? Quem era aquela mulher que todas as tardes pa(i)rava sobre a pedra grande para olhar o mar?

Pedro andava tomado por aquelas aparições. Sentava-se para escrever em sua velha Olivetti e ali, da varanda envidraçada, olhava com olhos de uma admiração infinda aquela imagem de sutilezas. E a linha do pensamento era corda-bamba onde tentava equilibrar-se, apesar de dividido ao meio. Razão ou emoção? Ora, pois… Paixão, não. Talvez um “amor de passarinho”, como aqueles de que o pai lhe falava…

Pensou muitas vezes em levantar-se, abrir a porta, e caminhar até onde ela estava. Imaginou o que lhe diria. Mas o que lhe diria? Que palavras caberiam?… Macular com palavras aquela visão tão necessária as suas tardes? Não. Melhor estar onde estava. De perto… Melhor não correr o risco.

Dois anos se passaram exatamente assim. Pedro já não produzia como antes. Precisava escrever, mas tudo o que conseguia fazer era esperar por aquele momento do dia em que poderia apreciar, a uma certa distância, a bela borboleta de asas delicadas e vôos desconhecidos. Nunca vira alguém assim, exceto nas telas de grandes pintores ou nas linhas e entrelinhas dos mestres da literatura.

Quem seria? Quem era aquela mulher que todas as tardes pa(i)rava sobre a pedra grande para olhar o mar?

Ela não veio ontem. Nem hoje. Ela nunca aparece quando chove. Mas não choveu. Pedro inquietou-se. No terceiro dia abriu a porta da varanda e caminhou até a pedra. E pisou finalmente o solo sagrado, o lugar onde sempre vira a mulher misteriosa. Olhou o mar como ela o fazia. Viu como as vagas vinham, e vinham, e juntavam-se formando uma única e imensa onda. Sua mente foi invadida pela imagem que o acompanhara nesses dois anos, e sua imaginação de escritor viu uma daquelas enormes ondas arrastando-o dali. Nossa! Seria uma ironia do destino… Melhor voltar para a varanda… Pensar, em segurança. Em todo esse tempo Pedro nunca se deu conta do perigo ao qual sua musa se expunha todos os dias, ali, sobre a pedra grande. Teria ela vindo num horário diferente em que ele não a estivesse velando, e sido arrastada pelo mesmo mar que tanto a seduzia?…

Quem seria? Por onde andaria? O que estaria acontecendo com ela?…

Considerou a possibilidade de sair pelo lugar perguntando sobre a desconhecida. Mas admitiu para si próprio que não estava preparado para ouvir qualquer coisa diferente do que desejava ouvir. Abandonou a idéia. Preferiu ficar com suas recordações. Eram belas. Eram as que ele precisava ter. Decidiu protegê-las. Preservá-las; lembranças estão em extinção.

E assim foi.

Pedro nunca deixou de vê-la. Todas as tardes. No horário de sempre. No mesmo lugar. Viu-a tanto que quando, seis meses depois, a desconhecida voltou a frequentar a pedra grande para olhar o mar, Pedro não se deu conta. Continuou acreditando-a fruto da sua imaginação.

ju rigoni (sem registro de data)

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Foto-Arte Bernardo Castanho

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  1. 15/10/2008 às 14:14

    Quando é que vc resolve publicar em livro todos os seus belos escritos ?

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