Céu no Chão

Uirapuru

Uirapuru

.

O verde da grande floresta
é um verde ansiado, –
um verde invejado.
É o filho do avesso
por quem pagam qualquer preço
para chamar de seu.
Pudessem,… e a transplantariam.
(Sem fila ou autorização de família.)

É o filho sem pai, sem controle,
o filho em má companhia,
o filho que recende a álcool.

É o alimento indigesto,
o pão do ignorante,
e daqueles que têm instrução
mas não tem vocação
para o dinheiro honesto.

Não têm filhos esses homens?!…

De tão imponente parece onipotente
esse deus desde sempre plantado
em solo minado pelo interesse estrangeiro
e pelo mau brasileiro.

No chão onde se ergueu esta nação
(Verdade seja dita!)
há mais que mistérios e lendas, –
há cura para todos os males,
exceto para a própria ferida.

Não. Ninguém dá ouvidos
aos gritos aflitos da mãe-natureza…
Jogam-lhe ao colo as filhas mortas, –
tão lindas e tão indefesas.

Dóceis, submissas, mansas,
sob o fio da ganância,
as árvores caem.

Machado, serra, fogo…
Eis a cruz
e a mater dolorosa.

Envia a espessa fumaça
sinais estranhos aos índios…
Aves em revoada,
animais em disparada…
As vozes da bicharada
no crepitar da morada,
anunciam novo inferno.

E ao dia seguinte,
sobra o funesto castanho,
cheirando a morte matada,
manchando o divino verde
dos que reinam sem coroa…

Um olhar,
um simples olhar,
descompassa o coração
de quem já cansou de chorar.

Ali, o rio que é mar;
aqui, as lágrimas…
em extinção.

Ora bolas, que estou fazendo?
O que podem algumas letrinhas
miúdas, pequenininhas,
contra tão imenso drama?
O que posso, além de escrever,
além de, assim, impotente, –
coração e mente em chamas -,
arder nestes versos tortos,
solidários com a floresta?

O que posso além do desejo
de um futuro diferente
em que os netos dos nossos netos
aos netos possam falar
de uma história de régias vitórias
boa de ouvir e contar?

A história da floresta encantada
que venceu dinheiro, arrogância,
descaso, ignorância, –
a falta de Educação -,
para reinar soberana
sobre todas as florestas…

Ainda gigantesca,
ainda poderosa,
ainda linda…
Ainda nossa.

Era uma vez um talvez,
sem portas de entrada ou saída,
e sem mais com quem contar…

ju rigoni (sem registro de data)

Visite também Fundo de Mim II e Dormentes.

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  1. 18/08/2008 às 18:06

    Nossa Ju, que lindo! Tão rico! Fico impressionada com a riqueza cultural dos teus versos! Parabéns! bjus

  2. 19/08/2008 às 3:11

    Ju,

    Muito bacana o poema que você deixou lá no Recanto das Palavras. Em se tratando do mesmo assunto, você conhece um da Adélia Prado, chamado “Objeto de Amor”?

  3. 19/08/2008 às 9:00

    …Aos borbotões.Parabéns!

  4. Erica
    20/08/2008 às 16:09

    Querida Jussara, além de jornalista, compositora, e cantora, também és poetisa… Que lindo, gostei muito, muita sensibilidade e uma forma culta de mostrar a sua indignação..

    Beijos 10000

  5. 20/08/2008 às 17:18

    Não tenho o hábito de ingerir nos pensamentos que sobrevêm à leitura dos meus escritos capengas. Mas não pude resistir ao último comentário. Compositora, cantora?… ho-ho-ho… Que coisa engraçada, Eriquinha! Faz tanto tempo… Dêem o devido desconto à amiga querida, lá da adolescência, de quem tenho muita saudade, e eu prometo que jamais vou submetê-los à minha pretensa música ou à minha voz de taquara rachada. Mas devo admitir: bons tempos aqueles…
    Um beijo enorme a todos que me lêem e aos que vão além e deixam aqui seu comentário. Nem têm idéia de quanto me fazem feliz…

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