O Cobrador

O que será que pretendem
estes nobres cavaleiros
do apocalipse de todos os dias?
Transformar-nos em pó?…

Pois quando “eu” virar pó
vou grudar em suas peles.
Partícula do ar que respiram,
estarei lá, bem debaixo dos seus narizes.

Estimularei  sua asma,
bronquite,
enfizema…
Prometo fazê-los chiar!

Serei pó permanentemente úmido, –
estarei no môfo de suas casas.
E incomodarei, incomodarei…
Incomodarei!

Estarei depositado
não apenas em sua comida,
mas em suas contas,
sobre os documentos escusos, –
em tudo que roubam de mim e de meus irmãos.

Embaçarei o cromo alemão dos seus sapatos,
e empoeirar-lhes-ei  os ternos, as gravatas…
As bravatas.

Nada saberão de mim:
minha raça, meu credo, meu sexo, –
e me carregarão sorrindo,
felizes como idiotas.

Se beberem à minha partida
estarei em seus lábios, –
o pó na borda do copo.

Serei dor, –
afta, herpes, cancro,…
castigando a mucosa das bocas
onde plantam as sementes da miséria.

De um jeito ou de outro,…
hão de pagar!

Ameaçarei o “brilho” de suas mentes,
dormentes mandatários de países
que transformam países em pó.
Porque serei pó, –
o pó sob o qual serão sepultados
com todas as suas mentiras.

Vingar-me-ei  das guerras,
da fome,
da sede,
das doenças,
da violência,
da ignorância na qual nos cevaram.

Livre,
seguirei ao sabor dos bons ventos
o cortejo que os conduzirá
à última morada:
um curral de trevas
de onde jamais sairão,
pois já não haverá promessa,
cabresto,
memória que a eles remeta.

Hão de deitar-se sob a terra úmida
que por minha vontade
secará, secará, secará…
E de tal maneira enrijecerá
que nunca lhes será possível
ao pó retornar.

Não lhes serei leve
porque não lhes permitirei nada.

Nem mesmo ser pó.

Exausto,
deixarei que a brisa me sopre
e me deposite sobre a areia
para ver o sol despontar por detrás do mar,
e assistir, finalmente,
ao nascimento desse novo dia…

ju rigoni

(Não há registro de data. Mas essa “coisa estranha” tomou conta da minha mente após um papo regado a (muita) cerveja, com um amigo, que os estranhos chamavam louco, e a quem apelidei de “cobrador”. Ele já virou pó e deve estar muito pau da vida porque nasce sol, morre sol, e provavelmente ele ainda aguarda aquele tal novo dia. Fico contente por haver conseguido guardar algumas de suas tantas vezes tragicômicas idéias, ainda que em versos tão capengas. Meu amigo é vivo no incômodo pó desses versos que tentam reproduzir suas palavras. Morrer é ser esquecido. E jamais esqueço dos meus amigos. Que saudade!…)

Foto Bernardo Castanho

 

 

Visite também  Fundo de Mim II,   DormentesMedo de Avião Navegando…

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  1. tistu
    22/08/2008 às 2:04

    uhm… gostei bem! Parabéns!
    Um abraço!

  2. 22/08/2008 às 3:56

    Eu venho de mansinho muitas vezes a este teu cantinho. Como já disse adoro as suas prosas, mas este “bateu o recorde”, que sentimento mais esquesito que tive, uma raiva mas ou mesmo tempo uma alegria ao ler. Lindo, simplesmente lindo!!
    Hoje estou mesmo assim, que nem o que esse poema quer dizer!!
    Continua minha querida, com este teu trabalho. Obrigado por me fazeres companhia nestas minhas noites, ora tristes ora felizes.
    Bejinhos e parabéns!!

  3. 22/08/2008 às 5:03

    Lembrar dos amigos, mesmo aqueles que já tenham virado pó, sempre é muito bom.

    bjs

  4. 22/08/2008 às 20:27

    Ju, boa tarde!
    Recentemente enviamos pra você um e-mail à cerca de uma proposta sobre um blog que estamos estruturando.
    Blog esse, que reúna diversos poetas.
    Poderia nos dar retorno se recebeu?

    Ficaremos aguardando! Obrigado e um abraço.

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