Mordaça

Aprisiona-se a língua para inibir idéias,
libertar armas, apagar identidades
e identidade.
Ao povo, a borracha, – a borrasca,
a mudez,
que, mais que à vítima,
condena à nudez o algoz.

E começa tudo outra vez…
Porque, agora sim, é preciso ter voz, –
aprender a ler e a escrever
nas entrelinhas, –
ousar, em torturado e magro vocabulário,
dar à luz essa história.

Sem palavras… Sem alma!
Corpo em calma induzida,
num jazigo qualquer
no cemitério da vida que é imposta.

Sssss!
Silêncio! – eles ditam.

Condenar à inexpressão o homem,
é dar a ele arma poderosa, –
contra a dura dita palavras ao ouvido,
discrição de amantes…

No restaurante, na mesa de bar,
na porta de casa, em casa de amigos…
falar
sobre o que se deve
falar
é uma arte.

Ao pé do ouvido decide-se um destino;
em voz baixa, contrito,
o fiel conversa com deus;
em voz baixa ditam-se ordens
que fazem gritar o mundo;
em voz baixa tortura-se…
Em voz baixa conspira-se.

É do silêncio imposto,
do silenciar de muitos
e de cada um,
que brota a luz que revela
palavras
no front da batalha,
vestidas de novos significados,
mirando o presente,
abrindo caminhos para o amanhã.

O silêncio pode ser o melhor estímulo
à reflexão, ao pensamento, –
ao momento em que escorre
pelo papel em branco,
para dar vida à palavra,
o sangue da caneta
do homem de bem.

Sssss!!!

ju rigoni (Anos 70)

Visite também
Fundo de Mim IIDormentesNavegando…Medo de Avião.

Anúncios
  1. 24/09/2008 às 15:47

    Adoro essa liberdade as palavras, deixá-la fluir é necessário! bjus

  2. 24/09/2008 às 23:24

    Desconhecia esta sua faceta, gostei, tão logo possa, voltarei para ler com calma.

  3. rosanafreitas
    25/09/2008 às 5:45

    muito bom!!!!

  4. 26/09/2008 às 22:08

    muito bom voltar sempre ao teu blog. Me inspira. Gosto daqui.
    Tenha um belo final de semana.
    maurizio

  5. 27/09/2008 às 3:53

    Linda poesia. Como tu mesmo disseste, a mordaça apaga identidades (adorei essa parte). O “engolir” , o amordaçar, só faz mal à alma. Às vezes nós mesmos nos amordaçamos, até por medo do que os outros irão pensar, precisamos exercitar essa liberdade de opinião, de palavras, não dói. E deixar fluir o que é bom, a energia positiva precisa circular. Beijos e um ótimo final de semana pra ti, Ju!

  6. 27/09/2008 às 22:36

    Gostei muito de tudo que consegui ler aqui até o momento – gostei demais de “Melado, Queijo e Rapadura”, mas dei boas risadas com “Meu querido pênis”. Parabéns, você é ótima!
    Eloah

    Nota: deixei este mesmo comentário em “Meu queriodo pênis” (risos), que lhe peço o favor de excluir, porque houve problemas com o envio e meu email ficou exposto. Obrigada.

  7. Fátima Ferreira
    10/10/2008 às 11:21

    O Rio de Janeiro, o Brasil e o mundo inteiro por aí, estão cheios de Jesuínos e Jesuínas.
    As pessoas têm que ser fortes e determinadas, diante da covarde mordaça da discriminação e intolerância. Se não, elas se definham aos poucos, até morrerem afogadas.
    Ninguém daquela periferia fluminense teve a idéia de integrar o Jesuíno à sociedade. Um bom começo poderia ser através do repórter que foi entrevistar o pobre “xoteiro”.
    Espero que algum autor (novelista, produtor, cineasta, diretor, teatrólogo) possa ler essa triste história contada por Ju Rigoni. Depois, tenha em mente que esse fato possa virar, no mínimo, uma bela peça teatral.
    Se a vida imita a arte ou vice-versa, vai aí, a sugestão.
    Meu faro jornalístico agradece

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: