Conflito em Maior

Ore,
consulte ciganos,
benzedeiras,
tarôs, pajés.
tábuas, orixás…
Arrie ebós!

Invoque as forças
da natureza:
ventos,
trovões,
tempestades, –
raios
que repartam
em partes iguais
alguma felicidade.

Convoque gurus,
padres, pastores, –
doutores em pobreza, –
para alimentar
com orações
àqueles
que os alimentam.

Acenda velas.
Ponha fogo à lenha…

Mais que pobreza e riqueza
há pobres de espírito
fazendo a corte a reis
que transformam tronos
em nobres vasos sanitários.

A realeza precisa de bobos…

E pobreza
sempre é boa pauta.

Perceba como o assunto
reveste de importância
até os tortos e pobres versos
de uma desconhecida escriba!…

Sinto-me como
a usá-la,
embora não haja conforto
em tentar descrevê-la,
vê-la de perto,
ouvi-la,
sentir seu cheiro,
seu gosto,
suas faltas…

Quem já a experimentou?

Quem já estendeu
a caneta,
o pão, –
a mão –
a um pobre?

Que caneta?
Que pão?
Que mão?

Sobras… Restos.

Verdade seja dita:
dá-se
o que já não se necessita,-
o que é velho,
estragado,
usado,
amanhecido.
Ou o que pode ser trocado
por algum interesse.
Os pobres só são ricos
no que têm de mais seu…

Pobreza.
A palavra é escrita,
pronunciada,
não tantas vezes
quanto é ignorada.

Vencer a pobreza
é utopia
que nutre a demagogia, –
erva daninha
semeada por vento
que não dá trégua.

Pobres de nós, –
pobres mortais! –
que buscamos
a extinção de uma espécie
tão necessária à perpetuação
do poder que se conhece.

Mudam as décadas,
os séculos, os milênios,
mudam os “homens”,
muda a cor do dinheiro,
mas os pobres…
estes hão de permanecer.
Ainda que com outra finalidade.
Ainda que com outro nome.

Não há o igual sem o diferente.
Só há mentiras porque há verdades.
Se alguém tem que mandar,
deve haver quem obedeça.
É preciso conceituar,
com exatidão e presteza,
o que denominam pobreza, –
pobre significante
tão rico em significados…

Ainda que jamais falte
o teto, a escola, a comida,
decerto sempre haverá
o que escolhe
e o que é escolhido…

Ah, esses mortos-vivos,
de tantas nacionalidades,
assim…
encurralados
no tempo…
Fermento
que faz crescer
a riqueza, o poder.

E a tal igualdade?…
A pirâmide será um quadrado?
Um círculo? Uma reta?
Na geometria da dúvida,
nua e crua, a verdade.

Há pobreza
porque há riqueza, –
porque sempre haverá
dominador e dominado.

Pobres pobres!…
Que dos ricos só experimentam
promessas
que os condenam
ao eterno pesadelo
da esperança.

Pobreza…
Música triste
de uma só nota.
Uma única
e insistente nota
a tocar o coração de muitos
e abarrotar
com outras notas
uns poucos cofres…

Uma
única
nota…

ju rigoni

Imagem:
“A esquerda da direita e a direita da esquerda.” – Técnica: Pastel seco. – Tatiana Pailos

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  1. Sonia Regly
    15/10/2008 às 18:43

    Ju,
    Já linkei esse Blog, vc viu?? Ainda estou aprendendo, estou levando uma surra. Obrigada por me visitar, gosto muito daqui,acho seus textos inteligentes e bem construídos.Eu aos poucos estou me aperfeiçoando.Volte sempre,me senti muito honrada e feliz.Beijinhos do Rio!!!!!!

  2. 17/10/2008 às 22:47

    Como sempre seus versos, são meio canções, meio poesias, meio contos, meio protestos… uma mistura de tudo que eu adoro! Bjus

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