Fim de Caso (Ira)

Carvão - Tatiana Pailos

Carvão - Tatiana Pailos

Talvez
é tatear no escuro,
caminhar sobre um muro
de dúvidas…
Talvez
é uma ilha perdida
num mar de interrogações…

Talvez
é um céu nublado…
Amanhãs que se repetem,
infinitamente iguais, –
janelas fechadas,
desistências veladas,
entre insistência e acaso, –
talvez é reticências
no lugar errado…

Morrer em vida
e não se reconhecer morto.
Ignorar o cais,
perder de vista o porto, –
navegar no mar do medo
de enfrentar certezas.

Talvez, talvez, talvez…
Ondas turbulentas…
que arrastam rimas,
violentam a alma.

(Razão… Merda!
Para que serve
esta bastarda?! -,
cheia de empáfia
e arrogância,
sem emoção,
sem calor…
)

Às favas a elegância!

Quem consegue
viver com um talvez?…

Talvez
é acomodar-se nas facilidades
de uma medíocre
eternidade.

Masturbe-se.
Muito. Sempre.
Descarte a comunidade,
a cidade,
o país,
o faz-de-conta
que vive nos seus talvezes…

Descarte-os
e descarte-se, –
e, pela primeira vez,
terá prestado um grande favor,
não apenas a mim,
ou a si próprio,
e sim,
sem qualquer talvez,
ao mundo.

ju rigoni (1997)

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  1. 17/02/2009 às 4:05

    Oi, Ju. Saudades de vir aqui. Amei tua Ira pelo Fim de Caso. Ninguém vive bem com talvez. Uma bela poesia, como sempre escreves com a alma. Beijos.

  2. 18/02/2009 às 5:13

    Acho que o talvez e a razão só existem para nos fazer nos perder de nossas proprias certezas….

    bjus, aline

  3. 20/02/2009 às 19:06

    Mas a razão às vezes nos traz de volta para nós mesmos…

  4. 22/02/2009 às 2:10

    Belíssimo poema!
    Os “talveses” são horríveis, mas as demasiadas certezas também…
    Um beijinho,

    Milouska

  5. 22/02/2009 às 19:40

    Ju, boa tarde!

    Coisa boa é voltar a essa casa e encontrar a sala pegando fogo.

    Estou aqui fascinado com a beleza desse poema que, além de lindo, tem imensa e precisa posição filosófica.

    Eu sou de extremos. Então o ‘talvez’ me irrita, com certeza. Detesto situações que não se definem, meias-palavras, respostas evazivas e o irritante infinito comum aos absurdos.

    A meu ver, ‘talvez’ é a maneira que os hipócritas e os covardes têm de dizer ‘não’.

    Você continua precisa em seus poemas, e tudo isso sem perder a beleza dos versos.

    Um beijo pra você, POETISA!

  6. 08/03/2009 às 23:30

    Olá, Ju!

    Passei para saber de novidades, dar um “oi” e desejar-lhe um bom dia da MULHER.
    Um beijo,

    Milouska

  7. 09/03/2009 às 8:11

    É isso, Ju – quando se trata da própria vida, às favas com a elegância! Ninguém vai viver por nós, não é mesmo?
    Beijo e outro beijo pelo nosso Dia.

  8. 10/03/2009 às 0:34

    Oi, Ju!
    Que coisa danada de boa receber presença em meu cantinho.
    Querida, eu quase não tenho entrado na internet, mas sabe que ontem, quando loguei lembrei demais de você com saudades?
    Queria vir mais aqui, é um prazer enorme ler-te pois adoro sua poesia. Esse é lindo demais, parabéns!

    Beijus, Poetisa!;)

  9. 10/03/2009 às 1:03

    JU Rigoni
    lindas “marcas coreográficas”, pensar em todas elas.

    Obrigado pelos sensíveis comentários no dis-cursos.

    Sempre bem-vinda.

  10. 10/03/2009 às 1:07

    Viver no TALVEZ não é viver, é vegetar, submeter-se cobardemente às convenções socais que nos amordaçam.
    Gostei do seu grito pela liberdade.
    Beijo

  11. 10/03/2009 às 3:29

    Oi, Ju!

    Muito bom te rever e saber que tudo está bem. Quanto ao Talvez, eu sempre lembro de uma canção que o Caetano Veloso criou, acredite, com o Maikóviski, que começa assim: “Talvez, quem sabe, um dia, por uma alameda do zoológico ela também chegará. Ela que também amava os animais, entrará sorridente assim como está na foto sobre a mesa”.

    bjs

  12. lili laranjo
    11/03/2009 às 3:44

    Adorei passar por aqui…

    beijos

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