Eus…

pensamentos. pastel

O eu do poema
nem sempre
é o eu do poeta.
O eu do poeta,
enquanto poeta,
nunca foi seu…
O eu do poema
alimenta-se
enquanto nutre outros eus, –
é muito mais do que um único eu…
É um eu tão profundo
que não tem fundo,
não tem pouso,
nem repouso…
É um eu em pessoas, –
as primeiras,
as segundas,
as terceiras…
É um eu em queda livre,
um eu em abandono,
que não se reconhece
em um único dono…
O eu do poema
não é pastor,
é rebanho, –
é o eu de um mundo,
onde ainda há lugar
para o eu
(que não é só) do poeta
e seus poemas
de infinitos eus…
tão singularmente
divididos.

Cabe ao poeta
o improvável teorema
de um eu
que nunca lhe pertenceu…
Resta ao poeta
assinar o poema que escreveu, –
para que não se perca
de si mesmo…
do eu
que tantas vezes
pensa ser o seu…

ju rigoni (1999)

Imagem: “Pensamentos” – Pastel Seco – Tatiana Pailos

Visite também  Fundo de Mim II,   DormentesMedo de Avião.

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  1. 30/06/2009 às 21:42

    Que definição interessante. Sempre me senti assim ao escrever, mas não tinha definição.

    Achei melhor que dizer que o poeta é um fingidor. Ou eu não entendo o que o eu de Pessoa quis dizer.

  2. 03/03/2010 às 19:59

    ai, ai ai, ai ai…eu tenho tantos eus, sempre se pensando os eus certos….ando tão perdida nesse salão de pronomes….

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