À deriva…

foto mell

Quando tudo foi tentado;
quando mais nada restar
e não houver o que fazer,…
você vai rezar.
Eu juro que você vai rezar.

É fácil dizer: Eu não!
Mas é o que lhe sobrará, –
a fresta que se abrirá,
a única mão estendida
para contra-atacar
os tantos avessos da vida.

Eu não! – você diz.
Rezar para quê?
Mergulhar em fraquezas?
Rezar não é nada além
de um mecanismo de defesa!…

Eu mesma sou poço de dúvidas
quando vejo alguém sofrer…
Um faminto, uma criança,
um doente sem esperança…
Mas penso que há algo ou alguém
grande demais, – um poder,
uma mensagem,
um código complicado,
que a ciência não alcança
e eu não posso compreender…

Incrédula, humana, impotente,
também esbravejo, blasfemo,
revoltada contra tudo
que vai contra o meu desejo…

Deus?
Que posso eu dizer?…
Neste mundo torturante,
escola de sofrimento,
– guerras, fome, pobreza…
Onde? Onde ele está?…

Diante de tanta evidência,
é tão pouco inteligente
admitir sua existência!…
Ora, não se pode vê-lo,
tocá-lo, ouvi-lo… entendê-lo!…

(Crianças têm medo de escuro.
Adultos vivem no escuro…
Crianças choram, esperneiam.
Adultos, não. Escondem
em falsos sorrisos
o medo da escuridão…)

Não é preciso ir a igrejas…
Nem ficar de joelhos…
Não é preciso consultar
padre, rabino ou pastor…
Rezar é um ato íntimo.
Momento de olhar para dentro…
Rezar é um ato de amor.

Esbraveje! Grite!
E eu volto a afirmar:
um dia você vai rezar.
Ainda que acredite
que não há de surtir efeito,
a ausência de solução,
a impotência da ciência,
o gemido do ente querido,
a dor a apertar-lhe o peito,
hão de lhe apresentar
o elo, há muito, perdido,
o mais poderoso desconhecido…

E não se preocupe
com a sua reputação…
Diz-se que Deus é amor,
é justiça, é perdão…
mas é também discrição.

Um dia você vai rezar, –
eu juro!
E dê certo, ou não,…
ninguém há de saber.
Só Deus…
e você.

ju rigoni (2001)

Foto: Mell

Visite também  Fundo de Mim II,   Dormentes e Medo de Avião.

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  1. 06/08/2009 às 0:41

    No quiero redundar ni repetir lo que he leído, lo que has escrito. Sólo quiero expresarte mi total acuerdo con tus palabras, te aprecio “muito” JU..sos una gran mujer. Cariños
    Osvaldo

  2. 06/08/2009 às 17:14

    Nem grande nem pequena, Osvaldo! Apenas uma mulher, mãe e avó que, como tantas outras mulheres, ainda tem alguma esperança, – ainda crê na força das palavras… e que “tudo vale a pena se a alma não é pequena.”

    Obrigada! Adorei tê-lo novamente em um de meus blogues. Ando muito atarefada com o trabalho e os afazeres domésticos, e tenho me descuidado muito dos meus queridos amigos virtuais, mas espero que logo possa voltar a blogar com a frequência de antes. Bjs e inté!

  3. 06/08/2009 às 20:56

    Ufa! É exatamente assim a vida. Sempre haverá aquele momento entre nós e Deus. É singular, é privativo, é íntimo. É do recôndito de nossa alma para os Céus e vice-versa. Belo poema

    Beijos

    Ariadna Garibaldi

  4. 06/08/2009 às 22:22

    Oi, Ariadna!

    Esse texto foi escrito após conversa com um amigo de longa data, biólogo, convicto de que a existência de um deus é algo impossível.

    Contou que, em determinado momento de sua vida, ao ver o pai muito doente e experimentando muita dor, pela primeira vez buscou algum conforto – para o pai e para si próprio (não sei se necessariamente nessa ordem) – na possibilidade de uma existência divina e… rezou. Ao seu modo, porque jamais havia rezado antes, mas rezou. Entretanto, não foi isto que mais me chamou a atenção nesse episódio, e sim o fato dele ter contado o ocorrido em tom vexado, falando muito baixinho, como se estivesse a revelar um segredo de estado. Disse-lhe: Mas por que tanta reserva? E ele, ainda em voz baixa, preocupadíssimo e sempre pedindo que o assunto morresse ali: “Cá pra nós: a gente faz coisas inacreditáveis nas horas de aperto…

    Obrigada pela sua visita e pelo seu comentário. Bjs e inté!

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