Beco

Sentado à mesa, em frente ao copo cheio
e quatro garrafas vazias,-
olhinhos a meio palmo,
boca úmida e caída…
Não se compreende uma única palavra
dessa conversa fiada nas tramas
da doença não assumida…

Sua vida tem sido assim…
Dilui-se nas águas ardentes,
cevada no nada.

Vai ficar por ali,…
até que um amigo
ou alguém da família apareça;
ou que chegue a hora
de fechar o botequim,
e o ponham para fora.

Mas, então,…
nem há de lembrar-se
onde mora…

Desabará em qualquer sarjeta, –
a cara mergulhada no vômito -,
até que algum meliante
esvazie-lhe os bolsos,
maltrate seu corpo;
ou que um caridoso passante
tente, em vão, socorrê-lo.

Quando o dia nascer
e o sol arder em sua pele,
despertará sem saber onde está.
Levantar-se-á com dificuldade, –
tonto, enjoado… desesperado,
lembrará da família em desgosto.

Mas, antes de voltar para casa,
vai precisar parar em algum lugar,
e beber…
Tomar coragem…

ju rigoni (1995)

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  1. 22/02/2010 às 9:57

    É, a vida do alcoolista é um beco, com dificuldade de se sair dele. Belo poema, Ju. Beijos.

  2. 24/02/2010 às 21:43

    Ju, vc descreve o calvário com elegância. Triste condição do ser que perdeu quase tudo ao perder-se de si mesmo.

  3. 07/03/2010 às 19:02

    Adoro sua forma de escrever…direta, com a alma exposta. Beijos.

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