A Rezadeira

– O que é que eu coso?…
– Nervo torcido, osso quebrado…
– bzz, bzz, bzz, – murmura a rezadeira sem que se possa distinguir qualquer palavra da oração salvadora, exceto a pergunta repetida inúmeras vezes. Enquanto reza, vai costurando com agulha e linha, – pontos aleatórios -, um pedaço de tecido bem branquinho.

Quando termina a oração deposita o tal paninho aos pés da imagem de São Jorge, a maior no oratório onde também estão, além de outras imagens, um copo com água e duas velas acesas. Orienta a mãe do menino a trazê-lo por mais dois dias. Segundo ela, são necessários três para que a reza surta algum efeito.

– Quanto é?
– Nada não, filha. Vai com Deus!
– Brigada, Dona Mariazinha, – diz a mulher agarrando e beijando-lhe uma das mãos.
– Pede a bença pra ela, Joãozinho!
– Bença d. Mariazinha?
– Deus abençôe ocê, meu menino, diz ela afagando a criança.

Mariazinha, os cabelos branquinhos e começando a rarear, acompanha os dois até o portão e se assusta com a quantidade de pessoas que ainda fazem fila em frente a casa.

– Vô atendê só mais dois. Ave Maria! Hoje num dá mais não. Tô cansada…

Ouve-se um certo burburinho de decepção, mas a palavra de Mariazinha é lei. E ela nunca abre exceções, a não ser para casos graves.

Contam que Mariazinha é medium-ouvinte. Além de rezar, ela muitas vezes prescreve o que “ouve”: remédios feitos à base de ervas, raízes, cascas de árvores, sementes e todo um arsenal colocado à sua disposição pela natureza.

Ganhou fama quando um político muito conhecido, desenganado por médicos brasileiros e estrangeiros, veio até ela.

– … dia, meu filho. Por que veio me procurar?
– Um tumor que cresce desenfreadamente e já tem o tamanho de uma maçã.
– Onde é que tá isso, meu filho?
– Exatamente aqui. Se a senhora colocar as mãos vai senti-lo em meio as costelas.

Mariazinha faz ligeira pressão sobre o lugar indicado e, quase que imediatamente, parece entrar num transe.

– A senhora pode senti-lo?
– Sssssss! – fez Mariazinha, olhos semicerrados, prestando muita atenção a alguém que ele não podia ver ou escutar.

Mariazinha fica assim durante uns dez minutos. Depois, bocejando, e com jeito de quem está extremamente cansada:

– Ô meu filho, você esquenta muito a cabeça… Num pode ser assim não, sabe?
– É a vida, d. Mariazinha… Mas… e então? A senhora tem algum remédio pra mim? A senhora acha que eu ainda saio dessa?…
– Depende mais docê do que de mim. Cê quer sair dessa?
– Que pergunta! Rodei o mundo antes de chegar até aqui.
– É… É assim mesmo. Todo mundo passa a vida procurando coisa que tá sempre mais perto do que a gente imagina.
– E então?…
– Cê é mesmo nervoso, hein… Olha, por hoje é só isso. Cê vai voltar a mim daqui a exatamente sete dias. Só então vou ter o seu remedinho pronto.
– Será impossível. Há uma cirurgia já marcada para segunda-feira. Eles vão abrir e extirpar o tumor.
– Não vão não. Se você operar antes, meu remédio não terá qualquer efeito.

O homem parecia estupefato. Uma mulher humilde, sem instrução, morando no meio do mato, falava-lhe com tal autoridade!… O que lhe dava tanta certeza? Como podia ela achar que o seu “remedinho” faria por ele o que os maiores especialistas do mundo não conseguiram? Que pessoa era aquela? Pediu a conta antes de despedir-se.

– Num é nada não, meu filho. Vai com Deus!

– Eu estou doido, – disse à esposa quando entrou no carro. Não sei como deixei que você me convencesse a vir até aqui…
E a mulher cheia de fé:
– Ela pode ser simplória, mas dizem que seus remédios são poderosos.

Sete dias mais tarde, e contra todas as previsões, o homem voltou. Mariazinha entregou a ele um vidrinho contendo um líquido escuro e disse-lhe que tomasse 4 gotas num pouco de água, sempre depois das refeições, durante dez dias. O homem queria que d.Mariazinha colocasse de novo a mão sobre o local onde estava o tumor para ver como havia crescido nos últimos dias. Mas a mulher não demonstrou o menor interesse. Disse-lhe apenas:

– Vá para casa e, hoje à noite, tome a primeira dose.

Contam que, quinze dias depois, quando o homem foi examinado o espanto foi geral. O tumor não estava mais lá. Ele fez e refez exames porque até mesmo os médicos não conseguiam crer no que havia acontecido.

Desde então, dona Mariazinha perdeu o sossego. Nunca mais descansou. Além das consultas, das rezas, sempre havia aqueles jornalistas chatos que ela botava a correr de vassoura nas mãos.

ju rigoni (Sem registro de data)

Imagem via google.

Este conto está publicado em meu blogue Dormentes.

Visite também Fundo de Mim II.

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