A Bunda

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Tarsila cresceu ouvindo calorosas menções ao seu derrière.

Na escola primária sofrera com toda espécie de apelidos: Tanajura, Almofadão, Tatá-Bundão, Bochechão, e tantos outros que a perversa imaginação infanto-juvenil engendrava.

Em casa, conversando com a mãe, – de quem herdara o incômodo -, reclamava:
– Será que eu vou ter sempre essa bunda tão grande?… Quando eu crescer quero uma bunda normal. 

– Reclama não, filha. Deus castiga! A gente deve sempre agradecer o corpo que Ele nos deu. Importante é ter saúde.

E Tarsila recolhia-se ao quarto, onde passava a maior parte de sua vida, para evitar mais olhares e comentários. Perdeu a conta de quantas vezes sofreu com torcicolo porque ficava horas e horas de costas para o espelho a entortar o pescoço tentando analisar melhor aquela entidade que parecia fazer tanta diferença em seus relacionamentos.

No ginásio, os apelidos não eram ditos em voz alta, mas na entrada e saída da escola, e principalmente durante os recreios, Tatá sentia um certo calor no traseiro, tamanha era a energia dos tantos olhares a percorrerem o tremendo planeta que trazia às costas. E, é claro, ela não ouvia, mas tinha certeza que sua bunda fazia, virtualmente, parte do lanche dos inquietos colegas adolescentes.

Amigas? Não. As meninas da escola sempre correram dela como se foge de alguém com uma doença contagiosa. Todas sabiam o que os meninos pensavam e diziam a seu respeito, e mantinham o máximo de distância possível. Não ocorria a Tatá a possibilidade da inveja maldosa, aquela que mantem o outro em distância considerável para que não haja a chance da comparação.

Porém, na escola, o que mais incomodava Tarsila eram as aulas de ginástica, quando tinha que vestir o uniforme, que se compunha de calça e top de helanca, e que destacava ainda mais a sua bunda tipo exportação, – ou quando algum professor pedia que fosse ao quadro-negro, e ela podia quase ouvir o rumor velado a percorrer a sala-de-aula.

O primeiro namorado, uma decepção! O menino só queria passar a mão na sua dita-cuja, e apertava-lhe tanto as fartas nádegas que estas ficavam vermelhas como tomates maduros.

A primeira vez que sentiu vontade de transar com alguém descobriu, na hora agá, que o objetivo do rapaz, por quem estava apaixonada, não eram os canais competentes e sim “a outra”. Aquele indivíduo que, definitivamente, não fazia parte do seu eu.

– Me solta! Não quero mais…

– Quê isso, benzinho? Volta aqui. Eu te amo! Você é a minha paixão…

– Pode parar! Minha bunda não tem ouvidos!

Episódios como este fizeram com que Tarsila repensasse a sua sina. Não era mais como na infância quando o máximo que poderia acontecer seria ter que submeter-se ao vexame dos maldosos apelidos. Os problemas não eram os mesmos. Estavam se modificando. Ganhando mãos afoitas, elogios e caretas cada vez mais obscenos. Os olhares dos vizinhos mais velhos, que outrora achavam “tão engraçadinha essa pequenininha de bumbum arrebitado”, estavam diferentes… Heitor o vizinho de frente, que já devia estar lá pelos cinquenta anos, agora, olhava para ela sem aquele sorriso franco, mas com uns olhos pidões, caidinhos, narinas febris e abertas como a farejar caça.

Foi sempre uma excelente aluna. Primeiro lugar em todos os vestibulares prestados, sofria também na faculdade com a estressante abordagem de alunos e professores provocada pela companheira inseparável. O assédio sexual era uma constante em sua vida.

Graduou-se, pós-graduou-se, já estava a trabalhar, e a bunda lá, a atormentá-la. Paz? Só quando estava sentada. Bastava levantar-se para que o big airbag traseiro atraísse para si todas as atenções.

Estava assim, quietinha, pensando na sua infância, na adolescência, na vida, quando o dr. Mauro surgiu na porta do quarto.

– E então, Tarsila? Animada?…

– Nem tenha dúvidas, dr. Mauro. Não acredito que finalmente vou ver meu sonho realizado.

– Ótimo! Vou mandar vir a enfermeira para providenciar a assepsia. Depois, você vai tomar dois comprimidinhos pra ficar um pouco mais relaxada. Breve nos encontramos no centro cirúrgico, ok?

– Está bem, doutor! Mal posso esperar…

Enquanto era preparada para a cirurgia sua mãe chegou. E ao ingerir a tal droga trazida por uma outra enfermeira ainda a ouviu dizer:

– Minha filha, isso é uma grande bobagem. Você é uma mulher linda! Não compreendo essa sua insistência na cirurgia… Não sou médica, mas acredito que algumas sessões de análise poderiam ajudar muito mais. Além disso, quando todo mundo quer aumentar a bunda você quer diminuir… Acho que eu estou ficando velha…

Tarsila apontou a própria cabeça com o dedo indicador.

– Quero ser notada pelo que está aqui.

A mãe, ansiosa, cheia de culpa pela herança genética que Tarsila tanto rejeitava, fumou quase dois maços de cigarros enquanto esperava que a filha voltasse da cirurgia. Pensava em quão difícil era a sua vida, e com que orgulho vira a filha chegar até onde ninguém de sua família chegara. Tarsila era absurdamente inteligente e, no entanto,… o tamanho de sua bunda parecia fazer toda a diferença do mundo.

A porta do quarto se abriu. “Finalmente, pensou, minha filha está livre do seu pior tormento.” Porém, foi um dr. Mauro de ar muito grave, quem entrou. Um tremor percorreu-lhe o corpo. Sentiu que o chão lhe faltava.

– O que foi, dr. Mauro? Minha filha?… Está tudo bem, não é?

– Sente-se aqui, senhora.

O médico segurou-a pelo braço, conduzindo-a até uma cadeira.

– Doutor, eu estou muito nervosa. Diga logo… Minha Tarsila está bem, não está?…

– A senhora precisa ser forte…

– Ai, meu Deus!…

– Infelizmente, já ao final da cirurgia, sua filha teve uma parada cardíaca e embora tenhamos esgotado todos os recursos, não conseguimos trazê-la de volta.

A mãe de Tarsila, talvez para dividir um pouco a tal culpa que insistia em carregar, processou o médico acusando-o de imperícia pela morte da filha, mas ele foi considerado inocente.

Os jornalistas não fizeram por menos. Deram à história um enfoque infernal. Um deles inclusive publicou-a sob o título “A Bunda Assassina“.

Para Tarsila já não fazia diferença. Apesar de tudo, livrara-se da aberração. Finalmente encontrara o céu…

ju rigoni (sem registro de data)

A Bunda foi anteriormente publicada em Medo de Avião.

Visite também Fundo de Mim II e Dormentes.

  1. 29/04/2010 às 9:38

    Ju excelente conto. Muito bem desenvolvido.

  2. natanael
    12/05/2010 às 8:12

    Muito bom! Em tema e arquitetura! Bunda bem feita! O conto, claro.

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