Agonia e (quase) êxtase…

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O corpo está cansado. Exausto. E embora deitado sobre a cama, os olhos estão muito abertos… Pregados no teto. O corpo quer dormir. A mente não. Está acesa. Indócil. O corpo trabalhou muito. A mente parece ter acordado agora. Consegue estar ligada simultaneamente em vários assuntos tão diferentes entre si… Vez em quando a consciência grita “Preciso dormir!”, mas é logo invadida por inúmeras outras questões tão mais importantes… O corpo quer fugir. A mente quer enfrentar. As forças de tão iguais, embora tão opostas, são imensuráveis… Mas já se passaram duas horas e a mente vai vencendo. Num golpe de mestre tira o corpo da cama e obriga-o a um passeio pelo jardim. Às três da madrugada. O ar frio, cortante, o mantem de pé. Pra lá, pra cá, passos incertos, como a marcar a cadência do pensamento… Os cães dos vizinhos latem desesperadamente. Estranham a presença tão conhecida exalando angústia. “É preciso dormir”, clama novamente o corpo. A mente ignora e o leva novamente para dentro de casa. Primeiro para a cozinha. A porta da geladeira é aberta. Hummm! Presunto e queijo no pão… Mexendo a boca, quem sabe?… Depois para o sofá da sala. Ah, sentou-se sobre o controle remoto. Liga a televisão. Alguém está falando sobre um abaixo-assinado para o cupincha do “homem”. Escritores, músicos, cineastas, teatrólogos, cartunistas, artistas do teatro e da tv o assinaram. “Nossa! Inacreditável…” Há uma tentativa de manutenção da atenção na notícia. Mas presunto, queijo, pão e corrupção definitivamente não combinam. Dá náuseas. Náusea também não combina com o desejo de repouso do corpo. A mente dispara por outros caminhos. Mais pessoais. Tão difíceis quanto… Novamente o corpo atende à ordem interior, levanta-se do sofá e perambula pela casa. No corredor do andar térreo todas as portas estão fechadas. Todos dormem. Inveja, geme o corpo. Alquebrado pela batalha inglória com a mente, sobe as escadas. Ao passar pela janela que encima o patamar vislumbra os primeiros raios de um sol que aí vem prometendo calor e mais desgaste físico. A mente, confusa com tanto em que pensar, nem percebe que o corpo está novamente deitado sobre a cama. Ponto para o corpo. E o tempo vai passando… As janelas ainda abertas deixam penetrar os primeiros raios de sol. Estes, por sua vez, entram pelos olhos que se rendem à luz, cerrando-se. Agora, talvez, o corpo vença. Um certo torpor, uma moleza, – os pensamentos já não se encadeiam tão rapidamente, ao contrário parecem desmilinguir-se para dar lugar a um único pensamento que também ameaça dissipar-se. Um cansaço além do conhecimento atinge também, e finalmente, o oponente. Agora parecem ser um só. Delícia das delícias… “Uuaaaaaaaaaa… Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…”

– Prrrrrrrrrr!… Prrrrrrrrrrr!…
– Aaaalô?…
– Acordei você???

ju rigoni

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Fundo de Mim IIDormentes, Medo de Avião.

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