Cala-te Boca!

Convidei a comadre Sebastiana
Pra dançar e xaxar na Paraíba.
Ela vei’ cuma dança diferente
E pulava que só uma guariba.
Ela vei’ cuma dança diferente
E pulava que só uma guariba.

E gritava: a, e, i, o, u, ipsilone…
E gritava: a, e, i, o, u, ipsilone…

Já cansada no meio da brincadeira
E dançando fora do compasso
Segurei Sebastiana pelo braço
E gritei: Não faça sujeira!
O xaxado esquentou na gafieira,
Sebastiana não deu mais fracasso.

Mas gritava: a, e, i, o, u, ipsilone…
E gritava: a, e, i, o, u, ipsilone…

(“Sebastiana” – Rosil Cavalcanti – Vídeo AQUI)

Jesuíno era louco por Jackson do Pandeiro. Pobre, morava na periferia de Duque de Caxias, na baixada fluminense, e dia não havia em que não colocasse para funcionar a sua vitrola antiga acoplada a grandes caixas de som encontradas num lixo de bacana, e não acordasse a vizinhança com a voz do baixinho arretado no máximo de decibéis que a “tocadera” , como ele a batizara carinhosamente, conseguia alcançar.

À noite, quando voltava da obra onde trabalhava, era a mesma coisa. Quando ele embicava na esquina, a molecada saía correndo pela rua e alertando:

– Êvem ele aí…

Os vizinhos tratavam logo de fechar portas e janelas na tentativa de isolar o som que Jesuíno insistia em dividir com a vizinhança. Não havia quem morasse perto de Jesuíno que não conhecesse vida e obra de Jackson do Pandeiro. As músicas todos sabiam de cor, e mesmo com o incômodo de não poderem escolher o que e a quem gostariam de ouvir era só surgirem os primeiros acordes e se pegavam cantando, sem querer, as letras das músicas tantas vezes executadas.

– Pelamordedeus, Jesuino! Chega de ouvir esse xoxotero!
– Ói cumé qui ôce fala do Jáquison… Num é xoxotero, é rei do xote, do côco, tumém cunhecido cumo rei do forró.

E a rapaziada caía na gargalhada.

A verdade é que ninguém suportava mais ouvir Jackson (que Deus o tenha!) do Pandeiro… Aos sábados, domingos e feriados era Jackson do Pandeiro no café da manhã, no almoço, no jantar, na cama… Nem o seu Manel, o português dono do bar da esquina, agüentava mais.

– Eu cá já estou a perder freguesia. Não se pode deixar continuar as coisas como estão…

Jesuíno, por conta da idolatria ao “xoxotero” já tinha virado uma espécie de celebridade às avessas no lugar. Certa feita até repórter, de um destes programas que exibe povo como produto, apareceu por lá pra entrevistá-lo.

Um domingo, durante uma cervejada no bar do seu Manel, os vizinhos decidiram que já era hora de dar um fim àquele tormento. E foi assim que, dia seguinte, mal Jesuíno saiu para trabalhar, arrombaram uma das janelas, levaram e esconderam sua vitrola nos fundos do bar.

Quando Jesuíno chegou e percebeu o que havia acontecido saiu gritando pelas ruas, desesperado, como se tivesse perdido um membro da família.

– Me robaro a tocadera! Me robaro a tocadera!

Perguntava aqui e ali sobre aquela verdadeira catástrofe que se abatera sobre a sua vida e… ninguém sabe, ninguém viu!

– Ma num é pussivi qui ninguém viu nada. C’a luz do dia… A tocadera é grande. Só se fô cego!

Por conta da desconfiança os vizinhos, para acalmá-lo, deixaram-no entrar em suas casas. Manobra que talvez o convencesse de que não haviam sido eles os responsáveis pelo desaparecimento da vitrola.

Nunca houve tanta paz nas redondezas. Cada um ouvindo o que bem desejasse em suas casas. Seu Manel, animado, comprou até uns cds novos para finalmente fazer funcionar, agora sem concorrência, o seu três-em-um vestido de uma poeira gosmenta, costurada por fios de teias de aranha.

Uma semana se passou sem que Jesuíno fizesse outra coisa que não fosse chorar o desaparecimento da “amiga” que trazia todos os dias para dentro de sua casa o ídolo nascido em Alagoa Grande, na Paraíba que, ao lado de Luiz Gonzaga, fora responsável pela nacionalização de canções nascidas em solo nordestino.

Três semanas depois ninguém via mais o Jesuíno nas ruas. Dona Filó, cuja língua tinha alcance maior que os decibéis da tocadera, descobriu que ele andava muito doente. Preocupados, os vizinhos se reuniram no bar para discutir o assunto.

– Coitado do Jesuíno! Vamu devolvê a geringonça dele.
– Tá doido, Zé? É a primeira vez que a gente consegue assistir uma novela que não esteja dublada pelo Jackson do Pandeiro. Nem pensar!
– Mas ô Máique, o bichinho tá muito doente. Num sei não… Nós lá em casa tamu até nus sentino culpado…
– Eu penso que não se deva fazer absolutamente nada, ó pá! Logo el se lebanta, esquece essa história e bai à luta.
– Mas, sêo Manel, ele nem tá comeno direito! Ainda ôtro dia a Chica foi até lá na casa dele levá uma comidinha gostosa e o ômi nem olhô o prato…
– Rapá, se a gente recuá agora nunca mais vai tê sussego. É ô vai, ô racha!…

E a discussão seguiu por vários dias, sempre dividindo as opiniões. Já havia até quem admitisse que andava com saudade das músicas do artista que misturava a malandragem, a malícia do samba carioca, com o suingue das emboladas e dos cocos nordestinos.

Certo dia, Almira, nome que Jesuíno dera a sua cadela em homenagem à primeira esposa, companheira de palco de Jackson do Pandeiro, desandou a latir desesperadamente. Os vizinhos de frente acreditando que o animal estivesse com fome ou sede, providenciaram água e comida, como faziam todos os dias desde que Jesuíno se recolhera, e atravessaram a rua em sua direção. Nem bem chegaram em frente ao portão da casinha humilde e sentiram aquele cheiro que desperta estômagos e almas.

Jesuíno já não faria questão da tocadera.

E só houve mais tristeza no lugar no dia em que sua família veio buscar-lhe os pertences: um fogãozinho de duas bocas, um bujão de gás, uma mesa, uma cadeira, um colchão velho, uma tv pequena e quebrada, quatros mudas de roupas surradas, uma sandália havaianas cuja sola de tão gasta parecia folha de papel, um sapato velho de sola furada, um poster amarelado do ídolo, os discos de Jackson do Pandeiro e a tocadera, que fora devolvida ao seu lugar original dia seguinte ao enterro.

Sêo Manel adotou Almira e preparou-se para enfrentar um silêncio que gritava as suas culpas.

Faz tempo não se ouve a voz de Jackson nas rádios do sudeste maravilha. Mas os vizinhos de Jesuíno não conseguirão esquecê-la. Jamais!

ju rigoni (Sem registro de data.)

Foto: Monumento em bronze em homenagem a Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, em Campina Grande, Paraíba. (Imagem obtida aqui.)

Visite também  Fundo de Mim II Dormentes.

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