Das Amarras

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– Menino, você vai cair! Desça daí, ó peste!

Apesar do receio da mãe sua vida era tirar as cascas do tronco, ou pendurar-se nos galhos da goiabeira enquanto abria as janelas aos sonhos ou descascava pensamentos…

Gostava de sonhar, de imaginar… Imaginar é sempre o melhor dos brinquedos para quem não tem brinquedo.

Um dia, quem sabe, descer a serra, empurrar um barco para o mar – esse deus de água e sal do qual tanto ouviu e ouve falar…

A vó sonhou sonho igual. E agora, sem memória, nem deve lembrar o que é sonho… A vó sonhou, mas não o viu nem vai ver; o que o menino sabe é que, não demora, a vó vai morrer…

E quando acontecer, ele há de cumprir o que, um dia, ela o fez prometer… Ver, tocar, experimentar a água do mar.

Juravam: Tem sabor de lágrima!…

O moleque, ainda lá em cima, mergulhado no gosto do amanhã; audição à deriva…

– Quem pode chorar tanto?…

A mãe, lá embaixo, no chão, esgoelando-se de tanta preocupação:

– Desça daí! Ô meu deus!… Cresça, menino, cresça!…

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ju rigoni (1989)

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