Entrelinhas

Uma das curiosidades geradas pela revolução de 64 foi um tipo de paranóia muito especial que instalou-se principalmente no meio universitário.

Alguns estudantes, – ainda que não engajados na ação política -, cientes da repressão que se seguiu, inclusive nos campi, julgavam-se observados, perseguidos, e arrepiavam-se diante de qualquer farda, ainda que fosse a inofensiva indumentária da banda de um colégio estadual. Falavam dessa pseudoperseguição com os colegas mais chegados e acabavam contaminando alguns deles, formando assim um grupo cada vez maior.

Turíbio era um desses estudantes. Aluno do curso de Direito de uma das mais importantes universidades do país, já andava inclusive freqüentando o consultório de um psiquiatra por conta daquele pânico tão peculiar. Farta do medo patológico que o assolava, a família correu a providenciar-lhe tratamento.

Era o tipo que via agente do Dops em todo lugar. Andava pelas ruas olhando para todos os lados. Não ia para casa sem antes dar voltas intermináveis pelo quarteirão para ter certeza de que não estava sendo seguido. Olhava com desconfiança o padeiro, o farmacêutico, o porteiro, os vizinhos, os pais, os irmãos, a namorada e, é claro, passava o mais longe possível dos colegas que faziam parte do diretório acadêmico. Jamais pronunciava palavras tais como ditadura, subversão, comunismo, ideologia, infiltração ou passeata. Não lia jornais, – era “perigoso”. Por isso, “O Pasquim” não entrava em casa nem embrulhando peixe. Rádio? Era ligado só para conferir a hora ou “A Voz do Brasil”, que modulara para ele as virtudes do ato institucional número cinco.

Turíbio mudou de década insistindo em identificar-se com aqueles macaquinhos famosos. Nunca ouviu um Geraldo Vandré. Não flagrou a Tropicália atropelando a Bossa Nova, ou os mineiros chegando de mansinho com suas notas para além de musicais.

Não se permitiu ler nas entrelinhas, nem percebeu o aroma entre os odores. Olhava, mas não entendia “a pedra no meio do caminho”. Não leu as cartas que Henfil enviou à mãe. Não conheceu a graúna, o Fradim, o Cumprido… Não ousou falar do bosque onde “todo balão caía, toda maçã nascia, e o dono nem via”. Exilado no medo, nem registrou a expressão nos olhos daqueles que partiram no tal rabo de foguete para longe das palmeiras e dos sabiás.

Turíbio tinha tanto medo da tortura que nem pressentia o quanto se torturava. Passava ao largo da repressão exercendo-a contra ele mesmo. Perdeu, tadinho, o bonde da sua própria história. Tinha tanto horror à morte naqueles porões que nem percebeu que estava mais morto do que jamais estaria.

ju rigoni (Anos 80)

imagem via google

Visite também Fundo de Mim II, Dormentes e Medo de Avião.

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