Funk Yourself!

(O polêmico funk de rua)

A luz especial que vem de uma pickup estacionada ao lado do carro de som e derrama-se sobre a multidão em transe, vibra libidinosamente no compasso da música que lembra uma antiga buzina de automóveis.

Fon-fon

fon-fon fon-fon

Fon-fon

fon-fon fon-fon…

E a menininha geme a letra. Um dos braços envolve a própria cabeça, – a mão acarinhando o rosto. Na outra mão um microfone surgido não se sabe de onde…  A bunda já não lhe pertence… Ao contrário das sambistas, que ao dançar requebram tudo que está abaixo dos quadris para um lado e para o outro, as funkeiras conduzem suas nádegas para frente e para trás, num frenesi único, capaz de deixar atônito qualquer expectador desavisado.

À voz da menininha que canta juntam-se todas as outras vozes. Parece uma oração. Nem numa quadra de escola de samba a gente vê tanta gente cantando. É certo que as letras são muito mais descomplicadas do que qualquer samba-enredo. Algumas se repetem infinitamente… Mas o que impressiona é que são cantadas com o coração que pulsa nos genitais.

Tô ficando atoladinha,

tô ficando atoladinha,

tô ficando atoladinha…

– Calma! Calma, foguentinha!” *

A rua está toda tomada. Hordas de moças e rapazes em fila. Bundas, pênis e “pererecas” bem pertinho uns dos outros, mexendo para frente e para trás, ininterruptamente, às vezes descendo até o chão.

Não dá para fazer qualquer comentário com os acompanhantes. Até pensar o que está diante de nós é difícil, porque os decibéis muito provavelmente superam os de cinco quadras de escolas de samba em dia de ensaio. O chão vibra mais do que quando se está logo atrás de um trio elétrico e é preciso mexer-se para que o corpo agüente tanta pressão. A sensação deve ser a mesma provocada por um terremoto…

Todo mundo canta junto. Mas é todo mundo mesmo. Exceção feita apenas a “estrangeiros”, como eu e meus amigos, e a estrangeiros como os quatro americanos que estão parados bem na nossa frente literalmente de boca aberta, e os dois alemães que tentam encaixar suas parcas bundas européias entre duas negras altas e lindas num dos trenzinhos, – “bonde” na linguagem funk-, que estão bem á sua frente. A letra é tão elaborada que até os gringos conseguem num curto espaço de tempo, embora com alguma dificuldade, reproduzi-la.

Ora, mas estamos falando só em bundas… Isto é preconceito. Pode-se olhar também sob um outro ângulo: o da perereca.

Perereca-pra-frente

Perereca-pra-trás

Perereca-pra-frente

Perereca-pra-trás

Perereca-pra-frente

Perereca-pra-trás

Perereca-pra-frente

Perereca-pra-trás” **

Para os namorados, ou ficantes, sinal livre. As mãos ávidas do rapaz depositam-se sobre o derriére da moça, que levanta os braços e imediatamente inicia o ritual sugerido pela música. O rapaz olha pra ela cheio de tesão, a língua babona para fora. Aqui não rola preconceito mesmo. Algumas vezes é o contrário, – é a moça que segura firme o bum-bum do mocinho fagueiro. O sangue sobe rápido e, apesar dos organizadores garantirem que tudo rola num clima de muito respeito, mais parece que estão treinando na vertical o que a maioria faz na horizontal. E quem liga pra isso?!…

Mas nessa festa é só zoeira, é só zoeira, é só zoeira

Funk, pagode e cerveja

A noite inteira, a noite inteira, a noite inteira” ***

Sabe índio? Lembra um pouco seus rituais de dança, – a, digamos assim, coreografia de algumas tribos.. Só que o ritmo é mais frenético e a ingenuidade passa longe. Ou melhor: nem passa. Aqui tudo é malícia.

Esquece o índio! Coitado do índio…

Geral zoando e dançando

Esse som que é demais

A galera agachando

O balanço vem e vai…” ***

Bem ali, à esquerda, há um “bonde” só de mulheres. Todas giram o rosto para a direita e levam a mão espalmada, com as pontas dos dedos apontando para o chão, até abaixo do quadril, que vai-e-volta para frente e para trás ininterruptamente. Em frente, estão cerca de quinze rapazes que se contorcem como minhocas, – parecem ter mola na cintura. Meu amigo quase não acredita na conversa, aos berros, que acabou de ouvir:

– Como? Sem calcinhas? Elas estão sem calcinhas?…

Um “anfitrião” de ocasião explica que se trata da letra de um funk que endeusa as funkeiras “virgens sem calcinhas”. Mas que as ortodoxas, virgens e não virgens, dispensam mesmo aquela peça íntima em meio ao “pancadão”.

Aqui e ali dá para perceber que rola um “negocinho”. Mas a maioria está dançando de cara limpa. Muita menininha e menininho de família boa. O funk, como qualquer outro movimento que envolva sexo, drogas (ainda que alguns não façam uso delas) e/ou rock and roll é uma das válvulas de escape para muitos jovens rebeldes de hoje. E não pense que se está falando só do morador da favela não. Mauricinhos e patricinhas aos borbotões também participam dos “bondes”. E nem caia no equívoco de pensar que não há vida inteligente em meio as bundas e pererecões funkeiros.

“Uh! Pererecão…

Uh! uh! Pererecão…”

Segundo informação de um amigo, cerca de quinze por cento dos frequentadores do “batidão” funk são universitários. Trinta por cento têm o segundo grau completo. E há “cachorras”, “preparadas” e “cambaxirras” (as feiosas) que têm curso superior, pós-graduação e mestrado.

“… vai pra…

Puxa, como você é feia!!!”

A sirene do carro da polícia cala o possante equipamento de som “malocado” na traseira de um automóvel novinho em folha. Imediatamente os jovens espalham-se pela rua passeando, disfarçando como se nada estivesse acontecendo. Provavelmente os donos das casas vizinhas à zoeira do funk gostariam muito de dormir… A rua antes abarrotada esvazia-se em pouquíssimos minutos. Parece mágica. O som interrompido assim, de repente, deixa-nos ainda mais surdos.

Vamos para casa ouvindo só os nossos próprios pensamentos. E já é muita coisa…

ju rigoni (Baseado no relato de uma amiga. Fevereiro de 2003.)

Foto-Arte: Bernardo Castanho

* Atoladinha

Bola De Fogo

** Perereca pra frente perereca pra trás

Mc MDY

***Só Zoeira

Mc Leozinho

Visite também

Fundo de Mim II, Dormentes, Medo de Avião, Navegando…

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: