Garoto de Ipanema

Ele acredita que é classe A; mora num dos mais bem (?) frequentados bairros da Zona Sul do Rio de Janeiro. Ricardinho veste as melhores grifes, bebe nos bares da moda, malha na academia da hora. Fala oi! para muitos artistas quando corre no calçadão. Tem muitos cartões de crédito. Troca de carro todo ano. Foi muitas vezes a Europa, Miami, Nova York…

Não. Ricardinho não puxa fumo. É coisa de baixa renda! Prefere cafungar. Com o excelente salário que recebe da multinacional, Ricardinho já poderia ser dono de um ou dois imóveis. Não em Ipanema, – um dos metros quadrados mais caros do Rio de janeiro, quiçá do mundo, mas talvez no Catete, na Tijuca, na Glória…

Ao invés disso, para ver através da janela do seu apartamento um pedacinho da vista mais cara do país, Ricardinho paga um aluguel semelhante a uma prestação de (uma boa) casa própria, e torra o dinheiro sem nenhuma preocupação que não seja investir em sua imagem de menino do Rio bem-sucedido.

A empresa onde trabalha já percebe que Ricardinho cafunga no banheiro. Não por acaso ele é sempre o mais acordado e bem disposto nas reuniões matinais de diretoria. Gesticula muito. E às vezes até levanta-se e fica dando voltas em torno da mesa de reuniões enquanto expõe seus pontos de vista em meio a um fôlego tão largo quanto sua inquietação. Há sorrisos fora de lugar, e qualquer contestação é rebatida com reações que beiram certa violência. Ricardinho extrapola. E extrapola-se.

Resultado: bilhete azul.

Pouco tempo depois, segue-se àquele uma ordem de despejo. Escreve para os pais, com quem vivia no interior antes de mudar-se para o bairro dos sonhos, pedindo ajuda para colocar o aluguel em dia. Os pais negam, é claro! Teriam que vender quase tudo que possuíam para cobrir as dívidas do rebento. O condomínio não vê a cor do seu dinheiro há meses. O apartamento está uma bagunça. Ultimamente não tem tido grana para bancar faxineiras. O carro quase não sai da garagem, e ele já pensa em vender para saldar algumas dívidas. A moto também. E o barco.

A geladeira está cheia. De espaço. A cama vazia. As namoradas sumiram como por encanto.

As agências de turismo entupiram sua caixa de correio com boletos de cobrança das prestações atrasadas de suas últimas viagens. Todos os muitos cartões de crédito estão bloqueados por falta de pagamento. Por enquanto vive no e do limite do cheque especial. Alguns traficantes estão na sua cola porque ele anda falando demais. Sem grana para pagar um guarda-costas o atual segurança de Ricardinho não tem um nome, mas um número: 38.

Suas noites têm sido bem diferentes. Às 22 horas já está vestido, prontinho para dividir com outros garotos e garotas “de Ipanema” alguns metros quadrados das calçadas de um outro bairro famoso, Copacabana, se oferecendo como programa imperdível.

Vez em quando sai com homens, quando em vez, com mulheres, – que pagam em dólar o prazer de desfrutar seu corpo bem definido e sua companhia nem tanto. O inglês fluente que o destacava dos demais executivos da empresa agora lhe serve para obter programas mais rendosos com turistas do mundo inteiro. Não tem sido muito agradável enfrentar homens e mulheres, – algumas vezes, homens e homens; outras, mulheres e mulheres -, quase sempre idosos, com mau-hálito, carnes flácidas, vícios nauseantes e DSTs. Mas Ricardinho precisa sobreviver…

É… As coisas estão cada vez mais difíceis para Ricardinho. E ele está tentando abrir mão de tudo. Até de cafungar! Mas de morar em Ipanema… Nem pensar!…

ju rigoni (Anos 90)

Foto-Arte Bernardo Castanho

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