O Chão Que Nos Protege


“…a morte, o destino,
– tudo estava fora de lugar.
Eu vivo pra consertar”.
(Geraldo Vandré e Théo de Barros – “Disparada”)


Era só um pontinho branco lá longe, na estrada improvisada que Pedro olhava sem nenhum interesse. O árido ao redor há muito estava nele. O chão duro, tão fissurado quanto as paredes que as crianças – quatro meninos e cinco meninas entre os dois e os doze anos -, futucavam com as pontas dos dedos quase sem unhas buscando o que levar ao paladar, tinha a cor da sua pele empoeirada. Ou era o contrário… Tanto fazia! Sol no quengo, sem qualquer ânimo, e quase viciosamente, que aqui não havia mesmo muito o que fazer num dia pela metade, Pedro voltou a olhar em direção ao caminho. O que era um pontinho branco tomava a forma de um homem…

– ‘bora entrá, mininos.
– ‘gora não, painho…
– Já-já, que é-vem estrangêro!…

As crianças descalças, os pés ainda mais ressequidos que os frágeis corpinhos, vestindo trapos que mãinha ganhou do beato pra mais de cinco anos, trataram de adentrar o casebre. As gotas que escorriam agora pela testa de Pedro eram um evento. Há que beber para verter tanto suor. Pedro olhou mais uma vez para a estrada. “Di hoje num passa”, pensava.

O estrangeiro, um despudorado mercador árabe perdido na poeira de um lugar totalmente estranho, vinha chegando. Calça e camisa outrora brancas, suspensórios de couro poído, o chapéu de palha surrado em uma das mãos, e o lenço branco na outra a limpar a laminha do suor com a poeira do caminho.

– ‘dia, zêo Bêdra!
– ‘dia, turco!
– vaz galor, ãn?…
– Verdadi! Tá muntio quenti, sim, sêo Tuffic…
– Duffic vem bra zabe resbosta zinhô Bêdra.
– Já imaginava…
– Zinhô Bêdra benza brobosta Duffic?
– É-vem o sinhô qu’essa indecênça…
– Non… Duffic vaz brobosta zêrio! Duffic bêzoa zêrio. Nunga Duffic vaz brobosta num bresta bra zêo Bêdra!
– Minia rerposta pro sinhô é não. Pódi tomá di vorta o seu rumo.
– Non, zêo Bedra. Duffic non anda dando dembo no esdrada bra berde o viaje. Zêo Bedra aja bôga dinêra? Duffic vaz novo overta. Duffic dá dobro gue Duffic gombina.

Pedro ficou mudo por alguns instantes. Era muito dinheiro. Não havia o que comer. O que beber. O que plantar. Nenhuma frente de trabalho pra garantir a falta de chuva. Muita boca faminta. E Joana embuchada de novo… Mas o beato disse: isso é pecado!

– Não, sêo Tuffic. Mínia rerposta é não.
– Zinhô Bedra gon dúvida, eh?… Brobosta Duffic mundo bôa. Zinhô Bêdra benza mêlho. Vai vê ninguém vaz overta mêlho. Duffic dá dinêra Zinhô Bêdra agôra. Onde Zinhô Bêdra arranja dinêra grande azin? Zinhô Bêdra benza. Disbois Duffic ba’imbora, Zinhô Bêdra arrebende…
– Arrependo não, sêo Tuffic. Num confio naquele ispanhol…
– Zinhô Bêdra deja ebanôl gon Duffic. Duffic garande môza bem dratada. Môza dem gomida, bebida, rôba bonita, mundo jóia, mundo berfume. Môza dem gaza boa, môza dem esgôla… Zinhô Bedra nem gonheze môza disbois Duffic endrega môza ebanôl.
– …entregá a minina? Joana num me pérdôa não, num sabe?
– Aaaah! Endon, broblema dona zoana… Ma gon dinêra Duffic, zinhô Bêdra dá um vida mêlho bra dona zoana. Zinhô Bedra vêcha negôzio Duffic, melhôra vida menina, melhôra vida dona zoana, melhôra vida vamília dôdo!!!
– Não, sêo Tuffic! Faç’isso não! Nem é perciso. O hômi da télevisão prometeu que vorta. E dispois que ele vai imbora sempre vem muntia comida, bebida, rôpa, sapato…
– Ômi do delevisón, enh?… Guandu dembo ela non vem gá? Ômi do televisón vem gandu brecisa goisa driste bonita bra bazá no televisón. Bra mexe no gabeza da bôvo. Bra gânha brêmio. O fome vamília Zinhô Bêdra num esbera nezezidade ômi do televisón.
– Dianta não, sêo Tuffic, pode encontrá o camínio de casa…
– A Zinhô Bêdra dem zeteza?…
– O deputado também prometeu ajudá nóis. Diz que vai mandá o caminhão cum comida pra toda a rente do lugar.
– Debudada, enh?… Debudada vaz bromeza zô no eleizon. Bra guê debudada vai ajuda eze gente disbois? Disbois debudada ganha eleizon, debudada esqueze êze gente. Borguê debudada breziza êze gente prózima eleizón, enh? Êze gente vica rica non breciza mais debudada. A zinhô Bêdra já benza nizo?
– Me convenceu não esse seu cunversê, viu seu Turco?
– Duffic amiga zinhô Bêdra, anh? Guen avisa ê amigo, anh?…
– Sêo Tuffic já tá na sua hora. é bom o senhor pegá a estrada, num sabe?
– A Zinhô Bêdra den zeteza?…

Coisa linda de se ver o que o por do sol pinta no céu do final da tarde por aqui. Um luxo a revelar as riquezas do encontro do vermelho com o vermelho. Pode o chão refletir o céu? Onde a linha do horizonte?

O azul desbotado do vestido de Joana já despontava no caminho. Vinha no passo de sempre. Sem pressa, que nem havia porque ter pressa e era preciso cuidado com o que trazia ao ventre e à cabeça.

– Mãinha! -, como em todos os dias, as crianças correram ao seu encontro.
– Painho?…
– Tá não, mãinha.

Joana alivia a cabeça depositando no chão o vasilhame disforme cheio de um líquido turvo, de cheiro estranho, e as crianças, ávidas, correm com as mãos em conchas para ele.

– Carma! Muntio cuidiado, criança! Vá pegá as caneca, Zé. Tem que durá dois dia ess’água. Painho foi donde?
– Sei não, mãinha. Mandô nóis entrá quando o Turco tava cheganu…
Joana sente um arrepio correr-lhe a espinha. Os olhos cansados, num rosto mais erodido que o chão, conferem filho por filho.

– Jésuz, óobrigada!
– Foi o quê, mãinha?
– Nada não.

Levanta fervura na lata sobre o fogão improvisado a água misturada ao estranho sal, onde Joana vai jogar a baga espinhosa de cactus que aprendeu com a avó a preparar desse jeito, – ração de dias infindáveis que merece oração de agradecimento em meio à escuridão, só amenizada pela luz da lua a penetrar o arremedo de janela.

À exceção de Joana, todos dormiam quando Pedro entrou sorrateiramente com a rede embolada debaixo do braço. E se os olhos não enganavam a mulher, era dinheiro – muito dinheiro – que ela estava vendo Pedro colocar sobre a mesa tosca, humilde.

– Que dinhêro é esse, Pedro? Tava’dondi, ômi di Deus?
– Cavanu, mulé. Pra enterrá di vêis nossa apérreação.
– Jésuz! Fez o quê, ômi?…
– Vá durmi, vá Joana!

ju rigoni (sem registro de data)

Imagem obtida em
http://www.miniweb.com.br/Geografia/Artigos/geologia/erosao.html

(O inseto foi surrupiado no Catarro Verde)

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Fundo de Mim II, Dormentes e Medo de Avião

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