O Pajé

Desde que completara quarenta anos andava cheio de dúvidas sobre a vida, – sobre as pessoas, sobre quase tudo que o cercava. Viera para tratar alguns índios acometidos por uma doença rara, contraída depois dos primeiros contatos com civilizados. Desde que chegou à aldeia, o que mais o impressionava eram os sons que cortavam o silêncio da noite.

Certa madrugada, estava sentado ao chão sob a luz do luar. A aldeia dormia, e ele lá, exposto à inédita sinfonia, cismando… Orlando pensou estar tendo uma visão quando o índio saiu detrás de uma das árvores, – o peito brilhando de suor, a tinta ao redor dos olhos, os adornos cobertos de penas recolhidas do chão na mata.

– Por que irmão não dormir? – perguntou.
– Eu estava aqui, pensando…
– Que pensar irmão?
– Questões que, acredito, afligem todos os homens civilizados que chegam a minha idade.
– …?
– Me procuro desde que nasci, – em tudo e em todos…

O pajé puxou com força e lentamente uma espécie de cachimbo. Quando finalmente soltou a fumaça, aquele pedaço da aldeia ganhou em magia. O índio olhava com interesse para Orlando que continuava a expor sua angústia.

– …Pergunto-me por que estou no mundo?… E por que, sem respostas, terei que me ir?…

O pajé, um sábio que preocupado em manter viva a cultura de sua tribo estivera estudando na cidade, apontou para o alto. Orlando olhou na direção indicada e ouviu a voz grave, forte, ecoar pela aldeia adormecida.

– Por que irmão e índio debaixo mesmo céu?…

Orlando tinha um ar de espanto. O amigo surgido das trevas soltou nova baforada, e continuou:

– Lágrima salgada água do mar? Riso doce água do rio? Rio e mar juntos final da jornada.
– Ibirapitanga ter espinho. Também ter flor amarela cheiro bom. Toda beleza ter espinho.
– Lua amar sol. Sol amar lua. Lua e Sol mesmo céu. Lua e Sol nunca junto. Sol ter luz maior. Luz lua ser luz lua. Lua chegar perto luz Sol, lua não ser lua. Lua ser outra lua. Se lua ser outra lua, lua amar sol? Sol amar lua?…

Orlando permanecia em silêncio, olhando com muito interesse aquele homem tão diferente a recitar algo que soava como um conselho. Agora, enquanto falava, o pajé parecia procurar alguma coisa no céu.

– Irmão apreciar brilho estrela? Estrela acende. Estrela apaga. Acende… Apaga… Toda luz guardar muita escuridão. Escuridão também ter muita luz.

– Muito tristeza viver no alegria. Irmão homem feito. Irmão chora porque conhecer alegria.

O médico parecia inebriado pelas palavras ditas assim, em meio à fumaça azulada que o pajé providenciava fumando o tal cachimbo, enquanto seguia com a prosa, redundando poeticamente.

– Índio não chorar o que índio não saber. Dia ser dia, noite ser noite. Sol ser sol… Índio viver natureza. Índio natureza. Índio chorar natureza… Nada mais.

– Natureza manda muito água pra lava céu e chão. E azul vem de novo. Luta índio luta natureza, – natureza índio conhecer. Índio ver no cidade: grande homem cidade pensar tudo saber. Que homem cidade fazer?… Matar natureza!

Dito isto, apertou na boca do cachimbo algumas ervas que Orlando ainda não conhecia. Acendeu-o, deu uma, duas, três longas baforadas acima da cabeça e dos ombros de Orlando. Em seguida, segurou-lhe uma das mãos, colocou nela o cachimbo.

– Agora vez irmão…

Orlando não poderia recusar. Seria uma ofensa. Jamais havia fumado qualquer coisa… mas sugou com força. Tossiu muito, os olhos vermelhos e lacrimosos, enquanto o pajé olhava com ar divertido. Tentou novamente. Outra crise de tosse.

– Irmão tem puxa devagar! Não pressa.

Orlando novamente pitou a erva. Desta vez, lenta e cuidadosamente. Os olhos pesaram. Seu corpo estava tão relaxado que julgou que fosse cair. Repentinamente, a descoberta do que parecia um milagre: todos os seus medos haviam desaparecido.

O pajé olhava-o nos olhos. Orlando, entre o prazer que experimentava e o susto, só conseguia pensar no que estava ao seu redor, no que parecia poder alcançar facilmente. Até mesmo as estrelas… que ganhavam muito em brilho e beleza. Tudo parecia estar magicamente ao alcance. Porém, sua mente ainda insistia numa reação:

– Diga-me, o que exatamente está acontecendo?…

– Índio não poder ajudar irmão. Irmão olhar dentro irmão. Irmão encontrar resposta.

O índio tomou-lhe das mãos o estranho cachimbo, sorriu de maneira estranha mas afetuosa e, como surgiu, desapareceu: misteriosamente.

Orlando então, corpo e mente cada vez mais relaxados, decidiu que era hora de recolher-se.

Já deitado, sobre uma espécie de esteira que em nada lembrava o conforto de sua cama na cidade, pensou na simplicidade, na beleza, na sabedoria das palavras que ouvira do amigo… E Orlando, um homem que sempre teve mais, muito mais do que poderia admitir para si mesmo, imaginou-se um índio… e dormiu, finalmente, o sono dos injustiçados.

ju rigoni (1983)

Imagem obtida AQUI.

Visite também  Fundo de Mim IIMedo de AviãoDormentes.

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  1. 11/05/2010 às 14:29

    ótimo conto

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