Poetas a Passarinho

by_sotoxic

“A arte ama o acaso.”
(Aristóteles)

Chopp, uísque, suco de laranja e caipirinha…  Quatro amigos, amantes da poesia, conversam, sentados à mesa de um bar.

Um deles gesticula muito e ao expor qualquer pensamento o faz como se antevisse a crítica. O outro é animado, risonho, e percebe-se que, enquanto ouve, sua mente fervilha, provavelmente procurando o lado bem-humorado, ou ácido, escondido na prosa. O terceiro é muito observador, e não perde uma palavra, um gesto, um piscar de olhos, ou qualquer outro detalhe que revele o que está por detrás do que está sendo dito. O quarto poeta… ouve. Mas, é como se lá não estivesse…

– Excessivamente coloquial. Não. Eu não gosto.
– Pois eu o achei inspiradíssimo.
– Lá vem você… A inspiração é só a mãozinha do acaso… E normalmente ocorre quando já se está no meio do processo criativo, e muito consciente, de um poema… Ninguém guarda a consciência na gaveta enquanto escreve…
– Já viu o Chico escrevendo? É genial! Consegue fazer a gente se sentir um lixo! Semana passada eu estava com ele e alguns amigos lá no Castelo e vi a coisa acontecer… De repente, ele passou a mão numa caneta e num guardanapo e, rapaz!… Você precisava ler o poema que o cara escreveu… E estava bêbado, hein!… Tinha tudo ali: inspiração, acaso, rítmo, criatividade, imagens belíssimas, mas… consciência…
– Ele é muito coloquial, e isto torna tudo mais fácil.
– Fácil? Está brincando? Eu estou falando dos poemas do Chico. Desculpe, mas não dá para comparar com os poemas que você escreve…Você é de um minimalismo extremo…
– Está querendo dizer que meus poemas são uma merda?
– Não distorça! Você entendeu.

.

– Tonho! Mais um chopp.
– Aproveita e me traz outra dose de uísque.
– Pois não! E o senhor? Quer que eu lhe traga mais uma caipirinha?
– Não. Chega de caipirinhas por hoje. Traz uma cerveja.
– Posso lhe trazer mais um suco de laranja?
– Não adianta falar com esse aí, Tonho. Está em alfa. Apesar do suco de laranja, parece ter sido quem mais bebeu…

.

– Pois eu estou convicto de que o poema foi escrito muito conscientemente…
– Eu nunca vi nada tão espontâneo…
– Quando escrevo à luz da consciência não consigo ser espontâneo. De jeito nenhum! E se tenho um ataque de espontaneidade e disparo a escrever, minha consciência entra em férias…
– Isso que você acredita ser excessos de coloquialismo é só um estilo. Nada a ver com ignorância das normas…
– Quanta bobagem! Pode-se escrever de modo espontâneo, mas consciente…
– Se você estiver pronto a escrever conscientemente vai perder muito em espontaneidade…
– …abobrinhas!…
– Por exemplo, tenho minhas dúvidas sobre o modo como você escreve… Gosto muito de alguns dos seus poemas. Outros, eu detesto.
– É que você se acredita um erudito.
– Eu? Eu não sou um erudito. Sou um erodido.
– Ora, se formos analisar por aí, todos temos que nos colocar na berlinda… Nenhum de nós – ninguém, nem os mais consagrados poetas – é perfeito o tempo todo.
– Nisso, eu tenho que concordar com você.
– É verdade. Alguns dos textos que escrevi entram e saem da gaveta da escrivaninha há anos, e eu não consigo resolvê-los.
– Pronto! Falei em bom, em consagrado, ele se identifica logo…
– A verdade é que escrever no pique da espontaneidade pode resultar num tombo.
– Por que? O texto do Zé respira espontaneidade e sempre sai vencedor… E os poemas… Meu Deus, que perfeição!
– Vencedor, é forte… Porque não é assim… É inegável o seu talento para escrever desse modo. Cá entre nós, já tem cara de método. Mas, eu sei que depois que escreve, ele passa longo tempo repensando o que escreveu. Mexe aqui e ali até decidir que não há mais o que fazer… Isto não tem a ver com espontaneidade, com acaso, com inspiração – é pura consciência.

.

– Olha só quem está entrando!…
– Cada dia mais linda…
– Que olhos!…
– Que boca!…
– … e a inteligência!…
– Vá até lá e convide-a para sentar-se conosco outra vez…
– E por que não vai você?…
– Porque você é o poeta bonitão que sabe convencer as mulheres…
– Sei… E você é o poeta espertinho… Eu vou lá, convenço a moça… Ela vem, e você… créu!
– Escrevi uma coisinha prá ela…
– Manda aí, queremos ouvir.

Cabelos soltos,
pretinho básico,
batom vermelho
e salto agulha.

Sinta o perfume…

Olhar de lado,
cruzar as pernas,
sorrir de leve,
morder os lábios,
falar baixinho,
bem de pertinho.

Sinta o perfume…

Fazer de conta
que nada sabe,
deixar ao gesto
a função do verbo,
fingir surpresa
quando a beleza
é soprada ao ouvido.

Sinta o perfume…

Beber pouquinho,
e de pilequinho,
cair em braços
bem escolhidos.

Infinitos infinitivos
em busca
de um imperativo gerúndio…

– Gostei!
– Tá de sacanagem… Que coisa pobre!…
– Tem muito rítmo. Posso até dizê-lo, ouvindo o som que o salto agulha tira do calçadão enquanto ela caminha…
– Não havia pensado nisto…
– Continuo não gostando. Singelo demais. Olha bem para aquela mulher. Tem certeza que isso aí combina com ela? Falta muita coisa… Parece mutilado…
– Mais: será que não deveria ser “em busca de um gerúndio imperativo” ao invés de “um imperativo gerúndio“?…
– Mas aí muda tudo…
– E aquele “cair em braços bem escolhidos” também me incomoda…
– Não gosto, não gosto e não gosto! Principalmente dessa brincadeira com o olfato. Tá ridículo esse “Sinta o perfume…”
– Poderia ser repensada para ganhar mais força… Posso dar meu pitaco aí?
– Claro que não!
– E o título? Qual seria?
– É hoje!
– É hoje, o quê?
– É o título: É hoje!
– Ah! Do título eu gostei.

.
.
– Ih, olha lá! Já tem um boi na linha… Quem é aquele sujeito? Alguém conhece?…
– Nunca vi.
– Ele não é aquele colunista?…
– É… É muito parecido.
– Parecido nada. É o próprio!
– Aquele lá é outro que eu detesto ler. Aquele cara não sabe nada de escrever…
– Iiih! É nisso que dá mexer com a musa…
– Quem vê até pensa…
– Aquela pelo menos é uma musa de verdade, e não um dos seus heterônimos…
– Lá vem você…
– Eu também não entendo isto… Por que você não assume que aqueles poemas são seus?… Para dizer a verdade, eu sou apaixonado mesmo é por aquele seu lado feminino.
– Eh… Sai pra lá!
– Brincadeiras à parte, eu também penso assim. Acho que você deveria resolver isto. Não vejo onde está o problema…

.

– Olha só! Aquele cara não está com nada. Ela está olhando para cá…
– Esquece. Hoje aquela linha está ocupada. Você demorou muito a se decidir…-
– Vocês estão falando de quem?…
– Ih, ele acordou! Volta aí pra sua contemplação que você está entrando no último vagão do trem desta história…
– Porra, cara! Você vive no mundo da lua…
– Hoje não estou nos meus melhores dias e, vocês já estão cansados de saber que, de vez em quando, fico assim…
– De vez em sempre. (risos)
– Estamos aqui, sentados, conversando há um tempão, e você aí… flutuando.
– Hoje, você está encafifado com o quê?!
– Já desisti de tentar falar com vocês sobre o assunto. Vocês não me levam a sério…
– Ah, tadinho… Hoje ele tá muito carente… Conte aqui para os seus amiguinhos: o que é que está incomodando tanto?
– “Encosta a sua cabecinha no meu ombro e chora…”
– Engraçadinho!…
– Já sei! Ele está, de novo, preocupado com aquela história do ectoplasma poeta… Adivinhei?
(gargalhadas)
– Não acho graça nenhuma. Vocês podem não acreditar, mas eu juro que, às vezes, leio meus poemas e tenho a sensação de que não fui eu quem os escreveu…
– Agora entendi tudo.  Ele não estava simplesmente contemplando… Estava num transe mediúnico!
(mais gargalhadas)
– Vocês podem rir, mas eu duvido que, em algum momento, vocês não tenham se sentido assim em relação ao que acabaram de escrever…
– Eu,… nunca.
– Rapaz, você precisa mesmo é de um bom divã.
– … e uma gostosa, como aquela que está ali.
– Acho mesmo é que você anda bebendo muito suco de laranja… (risos)

.

– Tonho! Traz um suco de laranja com vodka pro rapaz aqui…
– Pode trazer, Tonho. Mas sem vodka!
– Traz também uma vela e uma outra cadeira…
– …Farofa…
– …E cachaça! Nosso amigo não bebe aqui, mas, com certeza, deve beber lá em cima, nas altas rodas…
(gargalhadas)
– Como assim, senhor?… A cachaça é pra quem?…
– Ah, deixa prá lá, Tonho!… Esquece a cana, a farofa e a vela.
– Pois não, senhor! Vou buscar a cadeira…
– Não, Tonho! Esquece a cadeira também.

.

– Eu sei que parece estranho, mas é verdade! É assim que eu me sinto. Vocês podem rir, fazer piadas, mas é o que acontece comigo.
– Cara, eu já disse várias vezes, e repito: de nós quatro, você é o melhor. O que você tem é uma séria dificuldade para reconhecer o próprio talento…
– Também acho. O que você tem de doido, tem de talentoso…
– Até já estou acreditando naquela teoria de que para escrever boa poesia é preciso vinte e cinco por cento de talento, vinte e cinco por cento de transpiração e cinquenta por cento de loucura…
– A sério: talvez fosse interessante você fazer análise. Para mim… tem dado muito certo…
???
– Ih, esquece! Ele já não está ouvindo. Entrou em transe outra vez… Deve estar se queixando de nós com o talzinho…

.

– Ô Tonho! Vai lá e pede ao Carlinhos pra tirar essa merda de música do meu ouvido.
– O Carlinhos foi despedido. Agora, quem cuida do som é o Luís.
– Pô, logo vi que alguma coisa estava errada…
– Fala pro dono desta geringonça aqui, que se ele não readmitir o Carlinhos nós vamos mudar de bar.
– Sim, senhor!
– E vai lá, nesse tal Luís e diz pra ele botar um Tom, um Chico, um Gismonti… uma música decente… que a gente não está aguentando mais esse baticum aí, não.
– Pois não, senhor!

.

– Olha só! O sujeito foi embora e agora tem mais duas gostosas com ela…
– Obaaa! Minhas chances aumentaram…
– Vai logo lá, poetinha!
– Vai, vai, vai…

– Se eu ficar frente a frente com o gol, não me venham tomar a bola, hein…
– Devo lembrar: eu vi primeiro. Eu escolho.
– Ei, psiu! Desce das nuvens, companheiro, pelo menos para ser educado, cumprimentar as moças que estão vindo aí…. Depois, eu até canto pra você subir junto com o seu amiguinho, – que o baião é de três, mas nós somos quatro…

ju rigoni (1992)

Foto-Arte Bernardo Castanho

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