Sutilezas do Poder

cerveja_0910

O homem não estava bêbado, mas trêbado. E, como tal, fazia muito bom uso da situação. Chegou sozinho ao bar por volta das 19 horas. Estava de cara limpíssima. Alto, porte atlético, bem vestido, pediu uma cerveja. Depois outra. E mais outra… E outra…

Ninguém que o tenha visto chegar o reconheceria agora. Mal conseguia manter-se sentado. As bochechas vermelhas e inchadas, os braços estirados ao longo do corpo, – toda vez que se levantava para ir ao banheiro era aquele passinho incerto e o óbvio balança-mas-não-cai. Quando falava, exibia a dislexia característica do alcoólatra, – z em lugar do s, d ao invés de t, enfim, aquele misto de voz pastosa com língua que já não encontra seu lugar dentro da boca.

– Draz oudro jopp, gombanhêrum!

Vez em quando dava de cantar:

– Dorneeeeeeeeeeeeei-me um évrio/na vevida vusgo ez(i)quezer/aguela ingraaaaaada que me amava e que me avandonou…

– Cala a boca aí, ô pudim de cachaça!

– Vá cantar em outra freguesia, bebum!

Os protestos vinham de várias mesas.

– Uuus ingomodados gui zi mudem!

– Pára de beber, ô chato inflamável!

– Eeeeu vevo zim/Esdou vifeeeendo/dem zente gue naum veve esdá morreeendo, eu vevo zim…

– Vai morrer em casa, ô pé-de cana!

E assim a noite foi passando. O homem bebendo, indo e voltando trôpego do banheiro, e
desfiando o repertório que lhe vinha à mente avariada pelo álcool até que, de repente, entra no bar um grupo de funcionários que trabalhavam na empresa do tal bebum.

– Caraca! Olha o estado em que se encontra o dr. Inácio! – aponta um deles.

Neste momento, o bêbado estava todo retorcido na cadeira, um lado do rosto “mergulhado” numa travessa contendo restos de aipim frito. Os companheiros, penalizados, aproximam-se e sentam-se à mesa onde “jaz” Inácio. Este imediatamente levanta-se, torto como ele só.

– Oiiiiiiii, bezoal! Agora vai vigar melhor. Iiizo meschmo! Zentem agui gomigo…

Alberto está desolado com as condições do chefe.

– O que é que está acontecendo com o senhor, dr.Inácio? Por que é que bebeu tanto?…

– Iiiiih! Zá vou me arrebender de der gonvidado vozês bra zentar…

E o Toni:

– Não quer que eu peça um café bem forte?

– Ô gara! Já jega o gafé gue a gente doma lá naquela borra de esgridório… Garzon! Draz jopp agui bra rabaziada! Dudo bor minha gonda…

E a Lena, noiva do Toni, preocupadíssima.

– Dr.Inácio, o senhor bebeu à-beça e não se alimentou direito ainda. Não seria bom comer alguma coisa?

Inácio, a cara já inchada, olhos vermelhos a meio palmo, aquele sorrizinho sacana de canto de boca:

– Zó ze vor bra gomer vozê, dozinho, – he-he…

– RESPEITO COM A MINHA NOIVA, HEIN!!! O fato do senhor estar bêbado e ser nosso superior no trabalho não lhe dá o direito de extrapolar. Não vem que não tem! O senhor não está assim tão inconsciente. E se estiver, posso refrescar sua memória com uma porrada.

A turma do deixa-disso logo interfere.

– Deixa pra lá, Toni! Não vê que ele não está aguentando nem com ele?… O vento da
porrada já seria suficiente para derrubar o homem!

– Calma, meu bem! – Lena tenta amenizar – ele está muito ruinzinho…

Enquanto isso, Inácio já está tropeçando nas pernas para alcançar novamente o banheiro. Vai passando por entre as mesas, apoiando-se no espaldar de uma cadeira aqui, outra ali, sob os protestos de seus ocupantes, – vez em quando mete involuntariamente o cotovelo na cabeça de alguém sentado.

– Gueeeira me desgulbar…

Quando retorna à mesa os ânimos já foram contidos. Todos têm uma tulipa ou um caneco cheio de chopp diante de si. Mas em frente ao lugar de Inácio está uma chícara de café fumegando.

– Guem voi gue bediu eza meeerda? Voi vozê, dozinho?

– DOCINHO É A MÃE! Vamos cessar as intimidades com a minha noiva…

Pronto! Começa tudo de novo. E a noite, que era para ser agradável e relaxante, gira em torno do porre de Inácio que, sem a censura do consciente, vira-e-mexe arranja uma confusão.

Hora de ir embora, o trêbado ressonando, agora com a cara enfiada num prato com restos mortais de um frango à passarinho, precisa da ajuda dos amigos e garçons para ser levado até um rádio-táxi. De posse do endereço, o motorista despeja o ébrio aos pés do porteiro do edifício onde mora.

Dia seguinte, Inácio muito sério, a elegância habitual, abre a porta do escritório que dá para as mesas de trabalho dos companheiros de noitada.

– Bom dia a todos! – E como se nada tivesse acontecido:

– Reunião às onze! Quero todos os relatórios prontos. Não vou admitir atrasos ainda que me apresentem justificativas, ouviram bem? E por favor falem baixo que, estranhamente, hoje acordei com muita dor de cabeça…

ju rigoni

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