Um Tango

Aos primeiros acordes,  ele – alto, porte elegante – estende as mãos à dama. Ela, flor nos cabelos negros e presos em coque, caminha em sua direção. Olhos nos olhos, iniciam a dança. E embora assim, de perto e de frente, não se tocam. Um passo pra lá, outro passo pra cá, – pouco a pouco vão girando sobre si mesmos, cada vez mais próximos, até estarem de costas um para o outro. Movem-se ainda lentamente e, de repente, ele a toma em seus braços voluptuosamente e risca em passos hábeis, decididos, a calçada onde encenam o trágico da paixão.

Tan-tan-tan-tan/tan-tanranranran/tan-tan-tan-tan/tan-tanranranran/tan-tan-tan-tan/tan-tararanran/tan-tan-tan-tan/tan-tararanran/tan-tan-tan-tan/tan-tararanran/tan-tan-tan-tan/tan-tararan-ran/tan-tan-tan-tan/tan-tararan-tan-tan/tan-tan-tan-tanranran.

Na calle, a platéia composta em sua maioria de turistas estrangeiros a tudo assiste fascinada. A música, misteriosa e forte, domina-a. E basta olhar em seus olhos, que não perdem um único movimento do casal de dançarinos, para ter certeza que embora imóveis, em êxtase, todos dançam.

Todas as espectadoras deixam-se levar nos braços do garboso portenho, seguindo intuitivamente seus passos fortes, viris. Todas são a dama e envergam o sensualíssimo vestido de costas nuas e fendas profundas a revelar belíssimo par de pernas. Todas têm nas pálpebras o preto pesado da maquiagem que simula as olheiras das noites maldormidas tão características do amor passional. Todas têm na boca o mesmo vermelho, e nos pés os sensuais sapatos de salto alto, que agora estão bem ali, fora do chão, girando no ar, – que os braços da dama agarram-se a largos ombros no passo mais ousado.

E os homens, ah!, os homens… Todos têm entre as mãos a cintura delgada, flexível, da formosa dama. E olham para ela com a sedutora arrogância aprendida com o dançarino. Todos se chegam aos lábios vermelhos e aos olhos submissos da moça que dança. E curvam-lhe o tronco. E num gesto brusco, puxam-na para si, – o ventre dela comprimindo-lhes o falo, boca quase na boca, tudo ao compasso marcado da música e do bater apressado dos corações estrangeiros, – aqui todos latinos, que não há fronteiras no prazer da arte. Os másculos espectadores também dançam, sim! Paralisados, energizados, – presentes no corpo esbelto, esguio, daquele homem que sabe como segurar aquela mulher. Como tocá-la, conduzi-la no universo de passos que, repetindo-se, não parecem os mesmos, – aqui não há espaço para rotinas. Aqui não há mesmices no mistério…

Quando a música cessa o prazer explode no aplauso, e o grupo demora a se dispersar, ainda inebriado, embriagado pela sedução do tango que vai junto na bagagem da mente para nunca mais ser esquecido.

Alguns cantarolam:

-Tan-tan-tan-tan/tan-tanranranran…

Outros lá permanecem aguardando que o espetáculo recomece. Não sabem que aquele tango, – embora a mesma música, os mesmos dançarinos, os mesmos passos -, nunca será o mesmo.

Como  era o nome daquele tango?…

ju rigoni (1977)

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  1. 09/10/2008 às 3:32

    Que senxualidade! O tango é mesmo assim machão atrevido…

    Abraços

  2. 23/01/2009 às 21:05

    Passei para izer que tem um carinho no meu blog. Bj

  3. 19/04/2010 às 13:12

    Ju,
    Que lindo!!! Vc escreve de maneira tal que, ficamos ligados no texto e vamos digerindo linha por linha. Excelente!!!! Parabéns!!! Me dá um autógrafo????
    Beijos

  4. 19/04/2010 às 18:17

    Ju, adorei sua visitinha. Aqui, eu e o Tuninho somos doentes pelo Botafogo e, a farra foi boa ontem. Nosso Botafogo já sofreu muito merecia ganhar o título. Fiquei muito honrada com sua visitinha.Obrigada!!! Esse tango está de dar arrepios!!Lindo!!!!

  5. 20/04/2010 às 23:51

    Ual!

    Espetacular, Ju!

    É uma verdadeira viagem se deixar conduzir pelas palavras de seu texto.

    Quando voltar para ler outra vez, o que é certo, farei ouvindo um tango! 🙂

    Amei como tudo que você escreve! Um beijo com saudade e votos de que estejas bem.

  6. Gabriel Ferreira
    22/07/2010 às 2:36

    como é mesmo o nome desse tango?

  7. Gabriel Ferreira
    22/07/2010 às 2:57

    La Cumparsita

  8. 31/03/2012 às 20:33

    A pior morte é a de quem morreu sem ter dançado um tango…a fala dos olhos apaixonados, cujo único som são as batidas dos corações apaixonados e excitados…o hálito quente das bocas próximas e a cor vibrante do batom vermelho que a dama sensual convida seu homem
    à beijar sem oferecer entretanto os lábios…Volúpia extrema na dança que acasala!…beijos Ju, obrigada pelo maravilhoso texto…Dorothy de Castro

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