Vestida para matar-se

– Chega, Ciça! Eu já refleti muito. Nós tentamos, continuamos tentando, e não está dando certo.

– Eu não penso assim…

– Mas eu penso! Eu não quero mais. Acabou! Você segue a sua vida e eu a minha.

– Armando, eu não posso acreditar que você esteja dizendo isto… Eu te amo! Você está me magoando muito. Além disso, eu sei que você não ama a Luísa. Está com ela por puro comodismo.

– Mas eu não te amo também, Cecília. Sua atitude depois que deixamos de morar juntos não é a mesma. Você não se parece em nada com aquela mulher por quem me apaixonei…

– Eu sou a mesma pessoa, amor. Só estou ferida… Você me abandonou, voltou para a sua família, e eu não consigo digerir essa sua atitude.

– Olha, pensa… Vai ser bom pra você. Você é uma mulher bonita, inteligente, sedutora, logo vai conhecer alguém muito melhor e nem vai se lembrar que eu existo…

– Eu sou isto tudo e você está me jogando fora?

– Cecília, pára com isto! Você sabe muito bem do que eu estou falando.

– Mas a gente tem feito amor desde sempre…

– Cecília eu não te amo mais faz tempo. Mas você insiste, se chega… Eu não resisto e faço sexo com você. Sexo. Entendeu? Não amor.

– Mas…

– Cecília, não vamos ficar aqui discutindo o que não existe mais. Pense, e você vai ver que eu tenho razão.

– Mas, Armando…

– Olha, eu tô indo porque já estou muito atrasado. Marquei com meu filho uma sinuca lá no clube hoje à noite.

E Armando foi saindo, enquanto Cecília gritava seu nome se debulhando em lágrimas.

– Armando! Armando!

Em casa, sentindo-se completamente sozinha, Ciça ligou a tv e jogou-se no sofá pensando em distrair-se. Impossível! Sua cabeça era um turbilhão. Ligou para o celular de Armando: “… desligado ou fora da área de cobertura”. Ligou para a casa dele e… Ninguém.

“O filho da puta não saiu só com o filho, mas com a família toda.”

Já há algum tempo, Cecília percebera que alguma coisa havia mudado. E de tanto discutir a relação acabaram brigando feio, – e Armando voltou para a família. Cecília caiu em depressão. Não estava habituada a perder nada para ninguém, muito menos a pessoa que amava. E não seria agora, aos 35 anos, que iria dar a mão à palmatória.

Além de telefonar o dia inteiro para ele, inclusive de madrugada, passou a cercá-lo em todos os lugares. Na saída do trabalho, nos bares onde ela sabia que poderia encontrá-lo bebendo com os amigos, e até na porta do prédio em que ele morava com a família.

Nunca imaginou que o seu modo de agir resultaria na discussão, no rompimento que a jogara no sofá diante de uma tv ligada para ninguém.

Em certo momento levantou-se e ficou caminhando de um lado para o outro. Fera enjaulada. Ela queria sua atenção. Ciça não admitia a hipótese de sabê-lo feliz com a família, enquanto amargava sozinha todo aquele fel do abandono. Queria fazer alguma coisa. Alguma coisa grande. Alguma coisa que ela não sabia bem o quê, mas que desarrumasse definitivamente aquela vidinha de mesmices pela qual ele a havia trocado.

E assim ela passou a noite, se torturando, sentindo-se humilhada, pisoteada -, uma carta marcada fora do baralho…

II

A vizinha de Cecília tocava desesperadamente a campainha da casa de Lauro. Este apareceu à porta, ainda em pijamas.

– Oi, Lucinha! O que é que há?

– Desculpe bater à sua porta assim tão cedo. Mas… Você não está sentindo? Esse cheiro de gás… Da minha casa não é. Será que vocês não esqueceram algum bico de gás aberto?

– Nossa! É mesmo… Que cheiro forte! Mas não é aqui de casa, não. Só estou percebendo agora que abri a porta.

Preocupados, Lauro e Lucinha buscaram o portão da casa que ficava ao lado. A casa de Cecília.

– O cheiro é muito forte. Só pode ser aqui na Ciça. CIÇA! CECÍLIAAAAA! CADÊ VOCÊ MULHER?…

E como muito chamaram sem qualquer resultado, resolveram abrir o portão e adentraram o jardim da casa.

– Será que ela saiu e esqueceu o gás aberto?

– Eu estou com o meu celular aqui. Vou dar uma ligadinha para ela.

– Boa idéia! Ainda assim temos que dar um jeito de desligar o gás. Até que ela chegue em casa… Temos que tomar alguma atitude. Vazamento de gás é um negócio muito perigoso…

– Droga! Está fora de área. Talvez ela esteja em alguma reunião de trabalho…

– Sei não, Lucinha. Não vamos conseguir arrombar portas ou janelas com facilidade. Liga aí para os bombeiros. É o que podemos fazer…

Enquanto Lucinha telefonava, Lauro puxou uma das cadeiras de jardim e colocou-a sob um dos basculantes da cozinha. Subiu para olhar através do vidro. Talvez assim pudesse confirmar se algum dos bicos do fogão estava aberto.

Para conseguir ver alguma coisa Lauro precisou ficar na ponta dos pés. Mas… Santo Deus, o que era aquilo?… Ele não podia acreditar em seus olhos. Aquela mulher bonita, a vizinha com a qual tanto sonhara, estava ali, vestida como se fosse a uma festa, sentada diante do fogão com a porta do forno e todos os bicos de gás abertos. O vizinho e amigo só conseguia pensar no que a teria levado a tanto…

Ao ouvir a sirene, as pernas tremendo, desceu da cadeira, ainda entre a náusea que o cheiro do gás provocava, e a anestesia do que seus olhos acabavam de lhe revelar. Quando trouxeram Cecília para fora ele nem acreditou no que ouviu.

– Ainda vive!

III

Dia seguinte, quando Armando chegou ao escritório, todos os colegas estavam reunidos em torno de uma manchete.

– Já leu os jornais de hoje, Armando?

– Ainda não tive tempo. Alguma coisa interessante?…

– Imagine que uma mulher se arrumou todinha, como se fosse a uma festa, tomou todos os comprimidos de um vidro de barbitúricos, abriu os bicos de gás do fogão, e sentou-se para esperar a morte…

– Ô rapaz espero que a minha ex-amante não leia essa notícia. Ela adora uma tragédia. Isso é a cara daquela maluca…

– Inda deixou um recado escrito com batom na parede da cozinha:

Eu disse que não conseguiria viver sem você. Amor. Cecília.

Cecília sobreviveu, e hoje é casada com Lauro. Armando morreu. De susto.

O infarto foi fulminante.

ju rigoni (sem registro de data)


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Fundo de Mim II, Dormentes, Medo de Avião.

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