Vizinho Sofre!…

( A saga de “Lula”, “Fernando Henrique” e “Bush”)

Havia uma multidão há uns dez metros da entrada do portão da minha casa gritando agitada em meio a outros sons abafados, angustiados, e uma poeirinha que parecia subir do centro da turba. De início me assustei, porque pensei que pudesse ter acontecido alguma coisa grave com alguém da família ou com algum vizinho. Mas logo o coração recuperou o compasso.

Eram apenas Lula e Fernando Henrique se engalfinhando outra vez.

Há uns 8 meses, meu vizinho de frente comprou para o seu caçula um filhote de doberman. Com pedigree e o escambau. Cachorro com tratamento vip, manja? Ração importada, personal trainner (Ééé!.. Tem pra cachorro também!!), xampuzinho especial, enfim… Nem eu nem você quando crianças fomos tão bem tratados.

O cachorro era um lorde! Aquela pose de cão premiado, sabe? Aquele olhar ladino. Aquela simpatia estudada. Aquele não estar disponível para qualquer um… Um animal cheio de diplomas e certificados. O dono, sabe-se lá por qual cargas dágua, resolveu, apesar do bichano já ter nome e certidão de nascimento, coisa que muito brasileirinho não tem, chamá-lo de Fernando Henrique, – uma homenagem ao presidente que tanto admira.

Tudo isso passaria (quase) despercebido não fosse um outro vizinho. O da rua ao lado.

Menos afortunado, já havia arranjado um vira-lata, – uma mistura de bacê com pequinês, uns traços de poodle aqui e ali… O cachorro era “o cão”! De tão feio, as crianças (cinco filhos) chamavam-no Chuck. O bichinho vivia correndo entre as pernas da turminha e, numa das confusões por conta de uma cafifa… Vupt!, – cortaram-lhe um pedaço da orelha com uma linha cheia de cerol.

Tadinho do Chuck! Que sina… O bicho sofria na mão daqueles meninos. Quando o pai aparecia para cobrar alguma coisa quebrada ou estragada dentro de casa, a culpa era de quem?… Do Chuck. E embora aquela carinha de pobre carente que nunca sabe de nada, sobravam sempre muitas bordoadas para ele.

Claro que o tratamento dispensado ao Chuck não tinha nada a ver com o do Fernando Henrique. Chuck só tomava banho por acaso. Por exemplo, quando as crianças brincavam com a mangueira do quintal. Aí, não tinha jeito: sempre sobrava água pra cima do Chuck. Ou quando chovia e o pai botava a gurizada toda para dentro de casa e deixava Chuck a ver navios…

Bem, o fato é que o vizinho do lado ficou encantado com a história do vizinho de frente ter dado o nome de um presidente ao seu cachorro. O máximo do status: um cão com nome de presidente. “Ah! Isso não é pra qualquer um, não… ” Só não concordou com a escolha. Imediatamente, e sob os protestos dos meninos, rebatizou o vira-lata de estimação.

– O nome dele agora é Lula.
– É Chuck! – as crianças em coro.
– É Lula!
– É Chuck!
– É Lula, e ponto final.

Criança também aprende rápido que não dá pra discutir com militante do pt.

A partir de então passamos, eu e todos os outros moradores da minha rua, a conviver com esses vizinhos “ilustres” que viviam ameaçando engalfinharem-se a qualquer momento.

Quando o vizinho da frente saía para caminhar levando Fernando Henrique, o entrevero era garantido. Bastava passar pelo portão da casa do vizinho da rua ao lado, Lula urrava desesperado, jogava o corpo sobre o portão, latia, babava, crescia só de olhar para o Fernandão.

Fernando Henrique, por sua vez, detestava quando as crianças passavam correndo pelo portão da casa do seu dono, – Lula à frente, feliz por estar participando da algazarra. Certa ocasião, ninguém sabe explicar como, ficou tão irritado que conseguiu pular o muro e saiu em perseguição de Lula. Quase o alcançou. Só não o fez por conta da interferência do dono que, dando por sua falta, saiu em seu encalço e deu com ele no exato momento em que se preparava para pular no cangote do Lula sob o olhar apavorado da garotada.

Nós, os outros moradores da rua, já estávamos nos acostumando com os vizinhos, eminentes encrenqueiros, mas sempre sonhávamos com um milagre qualquer que recuperasse pelo menos a dignidade de nossos próprios cães, pobres mortais, sem o savoir-faire necessário para entrar em briga de cachorro grande.

Entretanto, mudou-se para uma das casas da rua transversal uma mulher decidida, dessas que não manda recados, e gosta de tudo muito direitinho. E o que é que veio junto? Duas cadelas poodle, – com aquele olhar inteligente, aquele rabicó picotado em bolinhas, aquele pelo ondulado, cheiroso e branquinho.

E aí… O bicho pegou.

Quando elas entravam no cio era o ó-do-bobó. Não há acordos no mundo animal. E era um mija aqui e ali para delimitar território que não havia nariz capaz de suportar. Fernando Henrique e Lula pareciam haver alterado até mesmo a composição do xixi, que catingava à distância como o de um gato.

E nem espere que eu diga quais eram os nomes das cadelas, porque ninguém poderia acreditar em tamanha coincidência…

Para completar a tragédia, meu vizinho de muro, que tem oito gatos, e para fazer gracinha com a situação, deu a um deles o nome Bush.

O vizinho em frente chamava o canil de Fernando de “Casa da Dinda”. O vizinho da rua ao lado batizou a própria casa de “Palácio do Planalto”, e meu vizinho de muro, que sempre devia manter a boca fechada, provocava e dizia que apesar dos encantos das “fulanas” da outra rua, o negócio de Fernando Henrique e Lula era mesmo correr atrás de Bush.

A confusão era tanta que o quarteirão onde morávamos tornou-se o mais conhecido do bairro.

– Onde é que você mora?
– Na quadra 140 da rua 90.
– Ah! Já sei. No quarteirão da brasília animal, não é?…

Essa história já tinha ido tão longe que estava prejudicando o mercado imobiliário da região. As casas próximas ao bafafá da cachorrada valiam menos que um carrapato…

Bem, mas quando eu comecei a contar este episódio Fernando Henrique e Lula estavam se engalfinhando bem pertinho do portão lá de casa, você se lembra? Pois é! Fui até lá para ver de perto o que estava acontecendo desta vez. E você nem imagina…

Bush levou uma surra… Dessas de criar bicho.

O dono de Fernando Henrique mal conseguia segurá-lo. O mesmo acontecia com o dono de Lula. E este era provocação pura. Parecia estar com o Jefferson, – o papagaio do bar da esquina -, no corpo.

O carro da polícia chegou quando meu vizinho de muro estava abaixando para recolher Bush, todo estropiado. Parecia recém-chegado do Iraque.

– O que é que está acontecendo por aqui? – perguntou o policial.

O vizinho da esquina não se fez de rogado:
– Lula e Fernando Henrique quase mataram o Bush.

– Não estou entendendo… Que Lula? Que Fernando Henrique? Que Bush???

– Os cães, – e os apontou repetindo – Lula e Fernando. E o gato – olhou para o atropelado Bush já no colo do dono.

O policial fez uma cara de cachorro sem dono. Nunca se envolvera numa pendenga como aquela…

– Mas que história é essa?… Que negócio é esse de colocar nome de presidente em bicho?, E olhando para o colega de profissão: – Eusébio, isso dá cana?

– Sei lá! Não me lembro de alguém que tenha sido preso por causa disso… Deve dar!…

O dono de Fernando Henrique fez um discurso bonito falando em democracia, em liberdade de expressão, e até em propriedade privada, mas não estava convencendo, não.

O dono de Lula disse que pobre é sempre discriminado. Nem cachorro escapa. E que era um absurdo querer enquadrar o bichinho só porque tinha nome de presidente. Que Lula era mesmo um nome predestinado a ser perseguido.

Pelo sim, pelo não, racionais e irracionais, foram todos parar na delegacia, onde depois de muita conversa o delegado os convenceu a renomear os animais.

Assim, Fernando Henrique voltou a ser Rei. Lula voltou a ser Chuck. E Bush, que apanhou muito, e ficou com sérias sequelas, passou a ser chamado pelo seu dono sacana de Povo.

As “meninas” também ganharam outros nomes, mas eu não sei quais sejam…

O fato é que a paz voltou a reinar na minha rua e adjacências.

Mas, ontem, quando voltava do supermercado, fiquei sabendo que na rua da praia há um casal da raça pitbull que é conhecido como Rosinha e Garotinho. A vizinhança por lá tem muito medo quando os cães saem à rua.

Mas os donos garantem que eles são tão mansinhos…

Bem, pelo menos já consigo ouvir o harmonioso latido do Chico Buarque, o meu cãozinho.

ju rigoni (sem registro de data)

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  1. 11/07/2010 às 15:20

    hehehe, esta já tinha lido, mas li de novo pq é 10

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